Historiadores jaguaras...


Como é que é? 

Calma lá! Explico:

No final do século XVII (1601-1700), a história entrou em uma profunda crise porque os próprios historiadores modernos eram vistos como lambaios e jaguaras... 

O Historiador francês, Paul Hazard (1878-1944), em "A Crise da Consciência Europeia (1680-1715)", páginas 34-38, diz:

"Primeiro, sentia-se bem que os historiadores modernos não eram lá muito seguros. Havia muitos: Méseray, o P.e Maimbourg, Varillas, Vertot, Saint-Réal, o P.e Daniel, o P.e Buffier, que encerrou reis e rainhas, tratados e batalhas, impérios, províncias e cidades em versos pequenos, fáceis de saber de cor. E Laurence Eachard, Edward Hyde, conde de Clarendon, Abel Boyer, Gilbert Burnet, o mais conhecido de todos. E António de Sólis, que em 1684 dotou a Espanha com a sua brilhante História da Conquista do México. E muitos outros, que gostariam de ser chamados do reino das sombras, mas que é preciso lá deixar, em boa justiça". 

"...todos os historiadores deste tempo queriam ser Titos Livios, ainda mais eloquentes, mais floreados."


Os Franceses distinguiam-se pela vivacidade dos seus ataques, mas não eram os únicos; de Leipzig, J. B. Mencken, filho do fundador das Acta Eruditorum, troava contra os historiadores, que engloba no vasto grupo de charlatães. São charlatães, porque uns, para igualar a glória de Tito Lívio, semeiam as suas narrativas de longos e fastidiosos discursos, atribuindo as mais finas sentenças aos homens mais grosseiros; porque outros, desesperando de ter leitores se não apresentassem quadros agradáveis aos olhos, enchem as suas páginas de enfeites já gastos; porque outros ainda, para adularem os mecenas que os pagam, imaginam genealogias ou fabricam-nas falsas. Charlatão então entre os charlatães, o francês Varillas: mas, duma maneira geral, todos os historiadores são charlatães, pois nos seus prefácios prometem dar ao público uma verdade que nunca aparece... É justo, pensavam as pessoas sensatas; depois de tantas histórias da França, não temos uma única história que seja digna de crédito. Nem de resto uma história da Inglaterra; nem seja que história for. Outrora acreditava-se de olhos fechados; hoje, chegou a hora da dúvida. «Não será razoável colocar no nosso tempo a época do pirronismo da história ?» (Hazard, 1934, p. 34-38) 



Clique na imagem para ver melhor. 



Qual é a reflexão aqui?

Parece até os dias atuais, não é? Sim, em todos os tempos, em todas as áreas do conhecimento e do fazer humano, existiram e existem pessoas sérias e lambaios/jaguarões.

Na História não é diferente. A reflexão de Paul Hazard sobre 'a crise da consciência europeia' é que essa crise foi agravada pela crise da História, isto é, pela crise da História gerada por lambaios.

Ele ressalta no texto que há Historiadores sérios e que se preocupam com a 'checagem das fontes', a autenticidade das fontes, documentos, vestígios e estabelecem métodos e critérios rigoroso de investigação, apuração, seleção e registro das fontes.

Mas, muitos outros, por dinheiro, por politicagem, por pura jaguaríce, naquela época (1680-1715) (E HOJE TAMBÉM O VEMOS) agiam na total desonestidade intelectual (assim como hoje, vemos muitos agindo na malandragem, principalmente através da "IA que faz tudo", emporcalhando e distorcendo tudo para defender os politicopatas e religiopatas de plantão). 

Tal como no período retratado por Hazard (1680-1715), hoje também há uma crise.  Só que além da crise da História atual, existe uma crise da Ciência e da Tecnologia, que fazem parte de uma crise de consciência humana muito maior, mais profunda e mais perigosa.

Dentro de um contexto de descrença, descrédito, e desinformação através da algoritmia do caos das redes umbrais sociais, da idiotização em massa, a atual crise que é uma crise intelectual, mental/psicológica, moral, material e espiritual, está afundando o que resta da humanidade e a conduzido a passos largos para uma ruptura civilizatória e a uma nova "Idade das Trevas", a auto-destruição ou de volta à Idades das Pedras.

Hazard apontava a Erudição, o estudo sério, metodológico e rigoroso, a Honestidade Intelectual, digamos, como uma forma de amortecer a crise de consciência europeia, que era multifacetada e que, para ele, resultou no caos social que fez explodir a Revolução Francesa em 1789 e tudo de pior que virá depois... 

E hoje, a Ciência e a Tecnologia, que seriam formas de amortecer o caos que se avizinha, se pederam em suas personagens e acabaram se tornando 'bodes expiatórios' e ferramentas de dominação da Elite Planetária (o 1% que detém 99% das riquezas da Tera e seus meios de produção), e assim, Ciência e Tecnologia, ferramentas das promessas de um 'paraíso sobre a Terra', se tonraram (no lugar da História) pivôs do caos e, pouco a pouco, ferramentas de um inferno na Terra. E cá estamos novamente, numa era de descrença que leva a um crise de consciência humana, sem precedentes.

E agora? Quem poderá nos defender? 

Está tudo perdido?

Sem chance de salvação?

Ou ainda há algo a ser feito?

Sim, tal como em 1680-1715, estamos em uma tremenda enrascada/crise.

Ou será que a crise iniciada em 1680 ainda não acabou, isto é, ela só ganhou uma proporção incomensurável? 

Ficam as reflexões.

E. E-Kan 



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