"A culpa é do mercado", uma crítica ao Sistemão a partir de uma leitura de Ellen Wood
O Mercado, essa entidade onipotente que decide o destino de nações e trabalhadores com a frieza de uma planilha de Excel, é tratado como se fosse uma força da natureza, tipo a gravidade, mas com juros. Políticos, empresários e economistas repetem como um mantra: “a culpa não é nossa, é o mercado que está exigindo”. Demissões em massa? Mercado. Arrocho salarial? Mercado. Crise cambial? Mercado. O problema é que esse tal de Mercado, com M maiúsculo, não desceu do Olimpo num pacote junto com as estações do ano. Como demonstra Ellen Meiksins Wood , o capitalismo — e com ele essa ideologia da onipotência mercantil — é invenção humana, histórica, localizada e, acima de tudo, interessada. Antes do capitalismo, o comércio existia, mas operava sob outra lógica. Comprava-se barato num mercado para vender caro noutro, e a produção não estava submetida aos imperativos da competição e da acumulação. Wood é taxativa: “O princípio dominante do comércio, em todo lugar, era ‘lucro por meio da venda’, o...