Walter Benjamin tem razão
DO ANJO DA HISTÓRIA AO VENTO DA POEIRA
RESUMO
Este ensaio propõe uma reflexão acerca da atualidade do pessimismo histórico de Walter Benjamin diante do estágio contemporâneo do capitalismo global. A partir da crítica radical ao conceito de progresso contida nas Teses “Sobre o conceito da história” (1940) e da leitura proposta por Michael Löwy em Aviso de incêndio (2001), confrontam‑se os dados mais recentes sobre concentração de riqueza e barbárie social, nos quais o 1% mais rico do planeta detém quase metade de toda a riqueza mundial e 44% da humanidade vive abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial. Articulam‑se, assim, a alegoria do anjo da história, a crítica do historicismo e o imperativo de “escovar a história a contrapelo” com o discurso midiático dominante que, a exemplo do otimismo leibniziano, insiste em enxergar a técnica, a inteligência artificial e a exploração espacial como sinais inequívocos de progresso. Conclui‑se que o chamado “realismo” benjaminiano, frequentemente tachado de pessimismo, não apenas descreve com precisão a catástrofe contemporânea, mas oferece ao pensamento crítico um instrumento para recusar a falsa consolação do “melhor dos mundos possíveis”.
Palavras‑chave: Walter Benjamin; crítica do progresso; anjo da história; pessimismo/realismo revolucionário; escovar a contrapelo.
Poucas imagens filosóficas do século XX conseguiram condensar com tamanha precisão a experiência do desastre quanto o anjo da história de Walter Benjamin. Descrito na nona tese de Sobre o conceito da história, esse anjo de olhos arregalados, boca aberta e asas estendidas tem o rosto inteiramente voltado para o passado: onde os olhos comuns veem uma cadeia de eventos, ele enxerga uma única e acumulativa catástrofe, ruínas sobre ruínas arremessadas a seus pés. Gostaria de deter‑se, de acordar os mortos e juntar os fragmentos, mas uma tempestade sopra do paraíso, enreda‑se em suas asas e o impele irresistivelmente para o futuro, de costas para o que se avizinha. “Essa tempestade é o que chamamos progresso.” (BENJAMIN, 1993, p. 227‑228).
Ora, à primeira vista, um leitor apressado poderia classificar tal sentença como mero pessimismo romântico, indigno de quem se pretende materialista histórico. Contudo, como demonstrou exaustivamente Michael Löwy, o pessimismo de Benjamin é de uma natureza muito particular: trata‑se de um pessimismo ativo, “organizado”, que nada tem a ver com a resignação ante o destino, mas sim com a premência de “cortar o estopim que queima antes que a faísca atinja a dinamite” (LÖWY, 2005, p. 13). Longe de aconselhar o imobilismo, esse pessimismo é a única postura capaz de reconhecer a verdadeira natureza do presente.
Nos dias de hoje, o diagnóstico benjaminiano parece retornar com uma força que ele próprio, em 1940, dificilmente poderia prever. Enquanto a ideologia do progresso, em sua versão tecnocientífica mais recente, alimentada por inteligência artificial, planos de colonização de Marte e promessas de “crescimento verde”, continua a ser entoada pelos formadores de opinião, a realidade material escancara um fosso de desigualdade que faria corar os mais cínicos fisiocratas do século XVIII. Os dados são eloquentes, mas a paisagem midiática parece impermeável a eles.
Este ensaio nasce, portanto, de um espanto: o espanto de que, em pleno terceiro quartel do século XXI, o mundo acorde a cada manhã para notícias sobre novos recordes de riqueza de bilionários, ao mesmo tempo em que a fome, a falta de saneamento e a miséria atingem parcelas crescentes da humanidade, e não obstante, a narrativa dominante continue a ser a de que “nunca vivemos tão bem”. Benjamin já advertia: “O espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos ‘ainda’ sejam possíveis no século XX não é nenhum espanto filosófico” (BENJAMIN, 1993, p. 226). Ele está no princípio de coisa alguma, exceto da evidência de que a concepção de história que gera tal surpresa é insustentável. Trocando apenas o século, o mesmo vale para nós.
A tese central que se procurará defender aqui é a de que o realismo (mal chamado pessimismo) de Benjamin não apenas descreve com fidelidade o paradoxo de uma civilização que acumula riqueza fabulosa enquanto produz barbárie generalizada, mas oferece ao trabalho crítico um instrumental para desmontar as falsas consolações do otimismo de praça pública, aquele que, à la Pangloss, insiste em que “tudo está bem no melhor dos mundos possíveis”. Mais ainda, as Teses contêm elementos para a construção de uma historiografia que não se curve à inevitabilidade do desastre, e sim vise à sua interrupção.
O retrato de uma catástrofe consentida
Para que a reflexão não se perca em devaneios abstratos, convém partir de dois conjuntos de dados que, embora fartamente divulgados, raramente são tomados em sua articulação sistemática. O primeiro diz respeito à concentração global de riqueza. Segundo relatório recente da Oxfam (janeiro de 2025), o 1% mais rico da população mundial detém quase 45% de toda a riqueza global, enquanto 44% da humanidade vive abaixo da linha de pobreza fixada pelo Banco Mundial em US$ 6,85 por dia (DAILY NEWS, 2025). A concentração não é acidental: desde 2015, o patrimônio líquido real do 1% mais rico aumentou em US$ 33,9 trilhões, quantia suficiente para eliminar a pobreza anual 22 vezes (OXFAM, 2025). A mesma organização calcula que, a cada hora, o 1% mais rico do Norte Global extrai US$ 30 milhões do Sul Global, uma transferência de riqueza que reproduz, por meios pretensamente legais, o velho mecanismo da espoliação colonial (OXFAM BRASIL, 2025). Como diria o diretor-executivo da Oxfam, Amitabh Behar: “A captura da nossa economia global por uma minoria privilegiada atingiu alturas outrora consideradas inimagináveis. O fracasso em deter os bilionários agora está gerando trilionários” (DAILY NEWS, 2025).
O segundo conjunto de dados refere-se ao que se poderia chamar de barbárie estrutural da mesma civilização que se pretende superior. O Banco Mundial revisou em junho de 2025 sua linha internacional de pobreza extrema para US$ 3,00 por pessoa por dia, um ajuste que, segundo os especialistas, reflete com mais realismo as necessidades básicas (WORLD BANK, 2025). Ainda assim, cerca de 44% da humanidade continua vivendo abaixo da linha de pobreza de US$ 6,85 por dia, incluindo aí milhões de pessoas sem acesso sequer a saneamento básico, água tratada ou moradia digna (OXFAM AUSTRALIA, 2025). No Brasil, o retrato é igualmente sombrio: seis brasileiros detêm uma riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões mais pobres (OXFAM BRASIL, 2025). Entre 2020 e 2024, a riqueza dos bilionários mundiais saltou de US$ 13 trilhões para US$ 15 trilhões, enquanto o número de pessoas vivendo em situação de pobreza não se alterou desde 1990 (DAILY NEWS, 2025).
Ora, como pode o progresso, aquele mesmo que justifica os lucros astronômicos das big techs, os planos de turismo espacial e a substituição de trabalhadores por algoritmos, coexistir com tamanha miséria? A resposta não está na ideologia do “ainda não chegamos lá”, mas na própria natureza da acumulação capitalista. Não se trata de um efeito colateral indesejado; trata-se do modo de funcionamento do sistema. É precisamente esta a catástrofe que o anjo da história, com o rosto voltado para o passado, percebe: os escombros que ele vê não são resíduos de eras remotas, mas justamente as condições de possibilidade do “progresso” que a tempestade celebra.
O anjo da história na sala de aula de 2026
A imagem do anjo não é, contudo, um convite à contemplação melancólica. Löwy insiste repetidas vezes que o pessimismo benjaminiano é eminentemente prático, “organizado” e voltado para a ação. É esse mesmo impulso que permite transportar a figura do anjo para o espaço, por vezes sufocante, do presente. Se estendermos a metáfora, em 2026 o anjo estaria diante de um amontoado de ruínas que inclui guerras civis esquecidas, pandemias mal curadas, deslocados ambientais e uma polarização social que beira a guerra civil de baixa intensidade em vários países. Suas asas estão presas, como sempre estiveram, mas a tempestade agora sopra com o nome de algoritmo, de big data, de IA generativa, disfarçada sob a promessa de que, se dermos tempo ao tempo, a técnica resolverá todos os males.
Nesse sentido, o verdadeiro escândalo do anjo não é o que ele vê, mas o que a ideologia do progresso recusa sistematicamente ver. O discurso otimista que povoa as manchetes e as redes sociais comporta‑se exatamente como Pangloss, o personagem de Voltaire que, diante das piores atrocidades, terremotos, enforcamentos, naufrágios, repete o mantra leibniziano de que tudo é para o melhor no melhor dos mundos possíveis. Há um humor amargo em constatar que, 250 anos após Cândido, continuamos a nos maravilhar com a capacidade humana de produzir autômato após autômato, inteligentes, velozes, impressionantes, sem jamais perguntar em que direção eles estão nos conduzindo. E aqui reside a ironia máxima: quanto mais “progresso técnico”, mais visíveis se tornam as ruínas; quanto mais deslumbre com o futuro, mais soterrados ficam os cadáveres do passado. O anjo, simplesmente, já sabia.
A dupla face da cultura: o clássico e a barbárie
Uma das ideias mais desconfortáveis, e também mais urgentes, contidas nas Teses é a seguinte: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie” (BENJAMIN, 1993, p. 225). A frase soa forte, mas sua concretude é facilmente verificável. Tomemos o programa de exploração lunar e marciano como exemplo. Ninguém duvida de seu requinte tecnológico, de sua sofisticação científica, de seu “avanço”. Contudo, as mesmas empresas que celebram o pouso de um foguete reutilizável são aquelas que, frequentemente, se beneficiaram de incentivos fiscais públicos, de condições de trabalho precárias em suas fábricas e de processos agressivos de concentração de patentes que inibem o acesso a tecnologias básicas em países periféricos.
O materialista histórico, aquele que escova a história a contrapelo, não celebra o monumento sem examinar o sangue e o suor que o ergueram. Ele se pergunta, antes, por que tanta riqueza não se reverte em saneamento para todos, e por que tanta engenhosidade não se aplica a curar pandemias em vez de colonizar mundos inabitáveis. A resposta, mais uma vez, não está na técnica, mas nas relações sociais que determinam sua aplicação. Como ironizou um conhecido artista de rua diante do lançamento de mais um foguete: “Com o dinheiro de uma única missão a Marte, daria para levar saneamento a 200 favelas, mas, convenhamos, uma fossa séptica jamais viraliza no TikTok”.
O otimismo cínico e a perpétua “normalidade”
A principal tática ideológica do progresso contemporâneo é a normalização da exceção. Benjamin já notara que a tradição dos oprimidos ensina que o “estado de exceção” no qual vivemos é, na verdade, a regra. E como os dominadores se aproveitam disso! Quando 44% da humanidade vive na pobreza, a reação típica não é a revolta, mas um leve encolher de ombros, afinal, dizem, sempre foi assim. Quando um bilionário acumula em um ano o que uma cidade inteira não gastaria em décadas, o comentário que se ouve é “coitado, ele trabalha 18 horas por dia” (como se o tempo de trabalho explicasse a magnitude da fortuna). A ideologia do progresso triunfa justamente onde a realidade a desmente, porque converte a barbárie em background, em cenário fixo, em ruína que já se tornou paisagem.
Nesse ponto, o paralelo com Leibniz é mais do que metafórico. Em Cândido, Voltaire mostrou como a doutrina do “melhor dos mundos possíveis” servia para justificar o Terremoto de Lisboa, a Inquisição, a guerra e a fome. Hoje, o mesmo expediente opera sob a roupagem de um otimismo de mercado, que transforma cada nova tecnologia em motivo de celebração, ao mesmo tempo que trata a miséria estrutural como “problema técnico” a ser resolvido mais adiante. O mantra contemporâneo não é pronunciado por Pangloss, mas pelos influenciadores do Vale do Silício e pelos porta‑vozes do Fórum de Davos: “A IA vai salvar o mundo”, “O capitalismo de stakeholders vai resolver a desigualdade”, “A tecnologia nos levará a um futuro sustentável”. O anjo, que já viu essa farsa se repetir ao longo dos séculos, simplesmente ajeita os óculos (se os tivesse) e suspira.
O pessimismo ativo e a recusa da inevitabilidade
Se o quadro descrito até aqui parece sombrio, é porque o é. Mas Benjamin não seria o pensador que é se sua crítica ao progresso desaguasse no quietismo. Pelo contrário, o diagnóstico sombrio é condição para uma ação lúcida. Contra os que acreditavam no automatismo histórico, no “nadar a favor da corrente” da social‑democracia, Benjamin sustenta que a tarefa do historiador e do revolucionário é justamente interromper a corrente. “A sociedade sem classes não é a meta final do progresso na história, mas, sim, sua interrupção, tantas vezes malograda, finalmente efetuada” (BENJAMIN, 1993, p. 230, tese XVIIa).
A distância que separa Benjamin do otimismo vulgar pode ser ilustrada pela metáfora do trem, já explorada por Löwy: “Marx havia dito que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se apresentem de maneira completamente diferente. É possível que as revoluções sejam o ato, pela humanidade que viaja nesse trem, de puxar o freio de emergência” (LÖWY, 2005, p. 74). Se o progresso é a tempestade que empurra o anjo para o abismo, não resta outra alternativa senão tentar parar a máquina. Não se trata de uma certeza, nem poderia ser, em um pensamento que rejeita o determinismo, mas de uma aposta. Um pessimismo ativo que sabe das imensas probabilidades de fracasso, mas que age como se a vitória fosse possível, porque a alternativa é a barbárie continuada ou, pior, a barbárie festejada.
A historiografia contra a corrente e o caso do alegado “otimismo”
Onde está, então, o tal otimismo que tantos anunciam? Em grande medida, ele não está na experiência concreta, mas na expectativa projetada sobre o futuro, um futuro que, por definição, jamais chega. Quanto mais se adia a resolução das contradições presentes, mais se exige fé no amanhã. O historiador que adota o método benjaminiano, ao contrário, “não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas no qual o tempo estanca e ficou imóvel” (BENJAMIN, 1993, p. 229). A oportunidade revolucionária não está na acumulação gradual de reformas, mas naqueles instantes raros em que o presente se revela carregado de “agoras”, disposto a fazer justiça ao passado oprimido.
Trata‑se, evidentemente, de uma postura que vai a contrapelo do discurso hegemônico nas ciências humanas institucionalizadas. A história oficial, aquela que Benjamin ironizava como a “prostituta ‘era uma vez’ no prostíbulo do Historicismo”, continua a seduzir com a promessa de que cada vitória dos poderosos é uma etapa necessária do progresso. Contra ela, o materialista histórico não se identifica afetivamente com o vencedor, mas procura extrair da experiência única do passado energias para interromper o fluxo contínuo da opressão.
Da ruína à centelha: o trabalho de rememoração
Um dos aspectos mais belos e desconcertantes das Teses é a tese II, na qual Benjamin, inspirado por Lotze, afirma que “o passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção” (BENJAMIN, 1993, p. 222). Mais do que um devaneio místico, trata‑se de uma inversão radical da temporalidade usual: não somos apenas aqueles que constroem o futuro; somos também aqueles que respondem ao passado. As vítimas de ontem nos dirigem um apelo, e nós temos uma responsabilidade para com elas. No contexto atual, isso significa que não podemos simplesmente arquivar os séculos de espoliação colonial, os genocídios indígenas, o trabalho escravo e as ditaduras, como meros “erros de percurso” de um progresso inexorável. Ao contrário, são essas memórias de derrota que, se adequadamente recuperadas, podem acender a centelha de esperança no presente. Como Löwy o formula: “As lutas são mais inspiradas na memória viva e concreta dos ancestrais dominados do que naquela, ainda abstrata, das gerações futuras” (LÖWY, 2005, p. 96).
A tarefa do historiador crítico, nesse quadro, não é colecionar fatos como contas de rosário, prática que Benjamin atribui ao historicismo, mas construir constelações entre o presente e o passado oprimido. Cada vez que um movimento social contemporâneo evoca a luta de Zapata, de Sandino, de Mandela ou de tantos outros anônimos esmagados pela roda da história, está, à sua maneira, exercitando esse “poder messiânico” de que fala Benjamin.
Os limites do diagnóstico e a abertura do futuro
É preciso reconhecer, contudo, que o próprio Benjamin não forneceu um programa acabado de ação. Suas Teses são mais um aviso de incêndio do que um manual de incêndio. O pessimismo ativo por ele recomendado pode facilmente se converter em paralisia se não for acompanhado por uma análise concreta das situações históricas concretas, exatamente o tipo de análise que os próprios marxistas clássicos, como Lukács e Korsch, tentaram desenvolver. A grande contribuição de Benjamin é menos uma doutrina pronta do que uma disposição: a de olhar para o presente sem a proteção das lunetas otimistas, de escovar a história a contrapelo sem medo de que o pelo se desfie, de recusar a cumplicidade com os vencedores mesmo quando o vento sopra mais forte.
No mundo de hoje, onde a indústria midiática fabrica diariamente otimismo algorítmico, essa disposição é mais rara e preciosa do que nunca. Não se trata de negar os inegáveis avanços técnicos ou de propor um retorno a um passado idealizado. Trata‑se, simplesmente, de se recusar a confundir inovação com emancipação, crescimento com justiça, promessa com realidade. O pessimismo benjaminiano não é a última palavra sobre o futuro, mas é a condição para que qualquer palavra sobre ele seja dita com sinceridade.
Para concluir...
Se o leitor chegou até aqui com a sensação de que se trata de um texto amargo, é possível que ele tenha captado apenas metade da mensagem. O humor que Benjamin insere em suas alegorias, o anão corcunda escondido no autômato, a “prostituta era uma vez”, os tiros contra os relógios da torre em 1830, não é um humor de quem se compraz no desastre, mas de quem se recusa a tomá‑lo como natural. Rir da “tempestade do progresso” é uma forma de não se curvar a ela.
O grande equívoco dos críticos apressados de Benjamin é imaginar que, ao denunciar o progresso como catástrofe, ele estaria sugerindo que não há saída. Não é verdade. Ao contrário, a denúncia da catástrofe é o grito de alerta que pode impedir que ela se torne eterna. O anjo não fecha as asas porque não pode, mas nós, que não somos anjos, e sim humanos situados na história, podemos tentar parar a tempestade por outros meios. A rebelião contra a normalização da exceção, contra a acumulação cega de riqueza, contra o otimismo de fachada que esconde o desespero real, eis o que Benjamin nos lega. Não uma certeza, mas uma aposta. Não um programa, mas uma atitude. Não o consolo, mas a lucidez.
A frase final do apêndice B das Teses ecoa como um sussurro que pode, ainda, tornar‑se grito: “Em cada segundo era a porta estreita pela qual podia entrar o Messias” (BENJAMIN, 1993, p. 232). O Messias, aqui, é a possibilidade de uma interrupção revolucionária, de um salto para fora da catástrofe. O anjo, coitado, de costas para o futuro, não pode vê‑lo. Nós, porém, podemos abrir a porta. Talvez não hoje. Talvez não amanhã. Mas a porta está ali, exigindo apenas que se tenha coragem para empurrá‑la. Até lá, “organizemos o pessimismo”, como sugeria Benjamin, e de resto, que venha a poeira, o vento, a ruína. Ao menos saberemos o que nomeamos.
___E. E-Kan
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 222‑232. (Obras Escolhidas, v. 1).
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LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant; tradução das teses de Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005.
OXFAM AUSTRALIA. Extreme inequality and essential services. Oxfam Australia, 2025. Disponível em: https://www.oxfam.org.au/. Acesso em: 12 jun. 2026.
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OXFAM INTERNATIONAL. Oligarchy. Oxfam International, 2025. Disponível em: https://www.oxfam.org/en/tags/oligarchy. Acesso em: 12 jun. 2026.
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Imagem: Jêrome Delclos https://www.quiero.fr/spip.php?article313



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