LIVRO: DEZOITO ABSURDOS
O homem que fazia burros voarem
Sotter sonhou que voava, livremente. Quando acordou, alguma coisa que sempre surge na cabeça das pessoas após os sonhos, o fez pensar que a humanidade, em algum momento de sua tragicômica existência na Terra, tinha a capacidade de voar como os pássaros. Mas, por algum motivo jamais sondado, perdeu essa capacidade. Dali em diante, a única coisa que restou para a humanidade foi a imaginação. Assim, Sotter, decidiu que tentaria voar de verdade. Ele subiu no muro da casa e imaginou que voaria como nos sonhos tresloucados que ele teve e que todos, em algum momento da vida, também já tiveram.
Pouco tempo depois, já autodeclarado Mestre Voador, Sotter decidiu que seria uma ótima ideia ensinar às outras pessoas a voar, como os primeiros humanos. E em pouco tempo, ele já tinha dezenas de seguidores e aprendizes, sedentos para obter o conhecimento das eras longínquas, que agora, por algum mistério cósmico, circulava pelo corpo e pela alma de Mestre Voador que se tornara.
As suas lições eram simplórias, mas envoltas numa aura de mistério, magia, misticismo, ocultismo e todas essas coisas que alguns igualmente desvairados julgam ser de grande relevância. Era como se ele fosse um grande mago feiticeiro de eras muito antigas, de barba meio branca, meio preta, usando calça jeans, uma jaqueta corta vento barata e um óculos escuro do Paraguai.
Ele reunia os seus aprendizes em um estacionamento abandonado ou num parque qualquer e descascava suas teorias. “O que é o possível? E o que é o impossível?”, indagava.
Os aprendizes, que eram pessoas, aparentemente, de sanidade duvidosa e carentes de tudo, principalmente, de atenção e loucas pelo chamado ‘sentido da vida’, jamais ousavam questionar o grande Mestre Voador, restringindo-se sempre a sorrisos que alternavam entre histéricos, depressivos e mornos, comentários validadores e aplausos quase silenciosos.
Sotter quase sempre pegava um discípulo da sua plateia delirante e o chamava ao centro.
- “Vamos começar?”
- “Sim, Mestre”, dizia o discípulo.
- Sotter então, lhe dava um lápis de escrever comum e dizia: “Está vendo aquele fio de luz que cruza de um poste a outro?”.
- “Sim, Mestre”, respondia o discípulo.
- Sotter então prosseguia: “Agora, está vendo aquele burro ali na nossa frente?”.
- O discípulo meio confuso, (mentalmente se perguntava: que burro?), mas mesmo assim, meio gaguejando respondia: “E e e eu tô vendo, Mestre”.
- Sotter, impondo a mão sobre a cabeça do discípulo, num gesto místico, então dizia: “Agora, meu irmão, feche os olhos e sinta um pouco a energia e a força que eu te dou. Sentiu?”.
- O discípulo, meio que num transe, pouco atordoado, dizia: “Sinto sim, Mestre”.
Ao mesmo tempo, todos os presentes se sentiam maravilhados e sorriam como que num transe coletivo, como sempre acontece com multidões diante de algo que lhes parece desconhecido e, por isso, especial. Quase todos que estão numa multidão que acha que participa de algo especial, se acham especiais.
O Mestre Voador, então, olhava para a multidão em estranho êxtase, e depois olhava para o discípulo e dava a ordem: “Agora, meu irmão, use o que eu lhe dei e faça o burro voar para além daquele fio entre os dois postes”.
Então, o discípulo, motivado pelo Mestre e sentindo a expectativa e a pressão da multidão, movia o lápis como se fosse uma varinha mágica, mas com certa dificuldade, era visível.
- Sotter, vendo que o discípulo não conseguiria, parava a lição. Em tom fraterno, ele dizia: “Já basta. Coloque o burrinho no chão novamente. Não queremos que o animalzinho se machuque, não é mesmo?”.
- O discípulo: “Sim, Mestre. Me desculpe Mestre.”
- Sotter, como todo líder espiritual que busca mais ovelhas para seu rebanho, olhava piedosamente para o discípulo e o abraçando, dizia: “Está tudo bem. Tudo na vida, requer tempo.”
- O discípulo, sentindo-se acolhido e protegido pelo Mestre Voador, ia aos prantos de uma estranha gratidão e amabilidade pelo seu Mestre, e todos os demais da multidão o acolhiam em seu meio, abraçando-o, ressaltando a unidade do grupo.
Então, o Mestre, com seu sorriso acolhedor, fraterno e extremamente amável, se dirigia à multidão e dizia: “Eu sei que nem todos conseguem ver o burro e pouquíssimos talvez conseguirão fazê-lo voar e ultrapassar o fio de luz que vai de um poste a outro. Mas, está tudo bem. Imaginem quanto tempo os primeiros humanos levaram para aprender a voar e fazer todo o tipo de coisas? Por quantas eras a humanidade voou livre como os pássaros? Por que ela perdeu essa habilidade? Eu respondo a vocês: a humanidade perdeu a habilidade de voar porque perdeu a capacidade de acreditar em si mesma. Ela decidiu abrir mão de uma habilidade real para ficar com uma habilidade irreal, a da imaginação. Ou seja, a humanidade abriu mão de voar de verdade, livre como os pássaros para imaginar que voa livre como os pássaros. Mas, agora, a mesma força cósmica que deu a habilidade da humanidade de voar livre como os pássaros, que lhe deu a imaginação, e embora só essa não seja suficiente para resgatar a habilidade antiga, fez com que a humanidade então, através da imaginação, desenvolvesse máquinas voadoras como aviões, helicópteros, foguetes espaciais, drones e outros tipos. Então, observem, a habilidade de voar livre como os pássaros, não morreu. Ela ainda vive, após milhares de milhões de anos. Quer dizer, irmãos e irmãs, se pela imaginação a humanidade esqueceu como se voa, pela imaginação ela está voltando a voar e um dia, cada um de vocês, também poderá voar, livres como os pássaros. Basta apenas acreditar, desejar mais do que tudo na vida, reunir todas as forças mentais, morais e espirituais e voar.”
A plateia foi à loucura com o discurso do Mestre Voador (CONTINUA)
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