LIVRO: DEZOITO ABSURDOS



 

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O homem que fazia burros voarem

 

Sotter sonhou que voava, livremente. Quando acordou, alguma coisa que sempre surge na cabeça das pessoas após os sonhos, o fez pensar que a humanidade, em algum momento de sua tragicômica existência na Terra, tinha a capacidade de voar como os pássaros. Mas, por algum motivo jamais sondado, perdeu essa capacidade. Dali em diante, a única coisa que restou para a humanidade foi a imaginação. Assim, Sotter, decidiu que tentaria voar de verdade. Ele subiu no muro da casa e imaginou que voaria como nos sonhos tresloucados que ele teve e que todos, em algum momento da vida, também já tiveram.

Pouco tempo depois, já autodeclarado Mestre Voador, Sotter decidiu que seria uma ótima ideia ensinar às outras pessoas a voar, como os primeiros humanos. E em pouco tempo, ele já tinha dezenas de seguidores e aprendizes, sedentos para obter o conhecimento das eras longínquas, que agora, por algum mistério cósmico, circulava pelo corpo e pela alma de Mestre Voador que se tornara.  

As suas lições eram simplórias, mas envoltas numa aura de mistério, magia, misticismo, ocultismo e todas essas coisas que alguns igualmente desvairados julgam ser de grande relevância. Era como se ele fosse um grande mago feiticeiro de eras muito antigas, de barba meio branca, meio preta, usando calça jeans, uma jaqueta corta vento barata e um óculos escuro do Paraguai.

Ele reunia os seus aprendizes em um estacionamento abandonado ou num parque qualquer e descascava suas teorias. “O que é o possível? E o que é o impossível?”, indagava.

Os aprendizes, que eram pessoas, aparentemente, de sanidade duvidosa e carentes de tudo, principalmente, de atenção e loucas pelo chamado ‘sentido da vida’, jamais ousavam questionar o grande Mestre Voador, restringindo-se sempre a sorrisos que alternavam entre histéricos, depressivos e mornos, comentários validadores e aplausos quase silenciosos.

Sotter quase sempre pegava um discípulo da sua plateia delirante e o chamava ao centro.

- “Vamos começar?”   

- “Sim, Mestre”, dizia o discípulo.

- Sotter então, lhe dava um lápis de escrever comum e dizia: “Está vendo aquele fio de luz que cruza de um poste a outro?”.

- “Sim, Mestre”, respondia o discípulo.

- Sotter então prosseguia: “Agora, está vendo aquele burro ali na nossa frente?”.

- O discípulo meio confuso, (mentalmente se perguntava: que burro?), mas mesmo assim, meio gaguejando respondia: “E e e eu tô vendo, Mestre”.  

- Sotter, impondo a mão sobre a cabeça do discípulo, num gesto místico, então dizia: “Agora, meu irmão, feche os olhos e sinta um pouco a energia e a força que eu te dou. Sentiu?”.

- O discípulo, meio que num transe, pouco atordoado, dizia: “Sinto sim, Mestre”.

Ao mesmo tempo, todos os presentes se sentiam maravilhados e sorriam como que num transe coletivo, como sempre acontece com multidões diante de algo que lhes parece desconhecido e, por isso, especial. Quase todos que estão numa multidão que acha que participa de algo especial, se acham especiais.

O Mestre Voador, então, olhava para a multidão em estranho êxtase, e depois olhava para o discípulo e dava a ordem: “Agora, meu irmão, use o que eu lhe dei e faça o burro voar para além daquele fio entre os dois postes”.

Então, o discípulo, motivado pelo Mestre e sentindo a expectativa e a pressão da multidão, movia o lápis como se fosse uma varinha mágica, mas com certa dificuldade, era visível.

- Sotter, vendo que o discípulo não conseguiria, parava a lição. Em tom fraterno, ele dizia: “Já basta. Coloque o burrinho no chão novamente. Não queremos que o animalzinho se machuque, não é mesmo?”.

- O discípulo: “Sim, Mestre. Me desculpe Mestre.”

- Sotter, como todo líder espiritual que busca mais ovelhas para seu rebanho, olhava piedosamente para o discípulo e o abraçando, dizia: “Está tudo bem. Tudo na vida, requer tempo.”

- O discípulo, sentindo-se acolhido e protegido pelo Mestre Voador, ia aos prantos de uma estranha gratidão e amabilidade pelo seu Mestre, e todos os demais da multidão o acolhiam em seu meio, abraçando-o, ressaltando a unidade do grupo.

Então, o Mestre, com seu sorriso acolhedor, fraterno e extremamente amável, se dirigia à multidão e dizia: “Eu sei que nem todos conseguem ver o burro e pouquíssimos talvez conseguirão fazê-lo voar e ultrapassar o fio de luz que vai de um poste a outro. Mas, está tudo bem. Imaginem quanto tempo os primeiros humanos levaram para aprender a voar e fazer todo o tipo de coisas? Por quantas eras a humanidade voou livre como os pássaros? Por que ela perdeu essa habilidade? Eu respondo a vocês: a humanidade perdeu a habilidade de voar porque perdeu a capacidade de acreditar em si mesma. Ela decidiu abrir mão de uma habilidade real para ficar com uma habilidade irreal, a da imaginação. Ou seja, a humanidade abriu mão de voar de verdade, livre como os pássaros para imaginar que voa livre como os pássaros. Mas, agora, a mesma força cósmica que deu a habilidade da humanidade de voar livre como os pássaros, que lhe deu a imaginação, e embora só essa não seja suficiente para resgatar a habilidade antiga, fez com que a humanidade então, através da imaginação, desenvolvesse máquinas voadoras como aviões, helicópteros, foguetes espaciais, drones e outros tipos. Então, observem, a habilidade de voar livre como os pássaros, não morreu. Ela ainda vive, após milhares de milhões de anos. Quer dizer, irmãos e irmãs, se pela imaginação a humanidade esqueceu como se voa, pela imaginação ela está voltando a voar e um dia, cada um de vocês, também poderá voar, livres como os pássaros. Basta apenas acreditar, desejar mais do que tudo na vida, reunir todas as forças mentais, morais e espirituais e voar.”

A plateia foi à loucura com o discurso do Mestre Voador e correu para abraça-lo e aplaudi-lo. Passado o frenesi, o Mestre disse aos seguidores: “Agora meu vou. Mas deixo a vocês essa lição e exemplo: tudo é possível, até mesmo o impossível”.

Então, ele esperou a multidão se afastar. Parou no meio de todos, olhou para o céu e fechou os olhos. A multidão, extasiada, observava tudo com os olhos arregalados, como à espera de um milagre. Um silêncio total se fez naquele momento em que o Mestre olhava para o céu enquanto murmurava algumas palavras irreconhecíveis. De repente, ele começou a flutuar e saiu voando, para além do fio de luz que ia de um poste a outro e depois sumiu no horizonte, na sua mente. FIM.   

== Sabichó ==

A Vida é Bela

O jovem Bento vivia sua rotina sem grandes sobressaltos. Acordava, tomava seu café amargo, quase frio, e sempre atrasado se arrastava para o trabalho que suportava porque precisava do dinheiro para pagar as contas e sobreviver. Mas naquele dia de final de outono, algo diferente aconteceu.
Ao cruzar a esquina da rua onde trabalhava, viu um velho sentado em um banquinho de madeira, observando as pessoas com um sorriso enigmático.
Bento, movido por uma curiosidade que nem ele sabia que tinha, parou e ficou olhando o velho, abismado. O velho observou-o em sua curiosidade tragicômica.

“Bom dia”, disse o velho, com um olhar que parecia enxergar através de Bento.

“Bom dia”, respondeu Bento, tentando entender o que o fazia ficar ali, parado.

“Está aproveitando o dia?”, perguntou o velho, com um tom irônico.
Bento riu, sem jeito. “Aproveitando? Eu só estou... sobrevivendo, eu acho.” 
O velho balançou a cabeça, rindo baixo. “A vida é bela, meu rapaz, cheia de possibilidades. Muda a todo momento, mas não se engane, ela também pode ser fria, dura e implacável. Para todos, em todas as classes e idades.”
Bento o olhou com desconfiança, mas sentiu algo diferente naquele homem. Achou que havia sabedoria em suas palavras, uma sabedoria que Bento nunca encontrara nos livros ou na sua rotina monótona. Poderia ser uma grande perda de tempo? Poderia, mas algo prendeu a atenção de Bento à aquelas palavras tão simples, mas que pareciam transpassar seu cérebro, seu coração e sua alma.   

 

“A vida é bela

Muda a todo o momento

e há infinitas possibilidades

Mas também é fria

Dura

Implacável

Mortal

Para todos

Em todas as classes e idades.”

Uma Decisão Bem Tomada

Nas semanas que se seguiram, Bento passou a parar frequentemente na esquina para conversar com o velho, que passou a chamar de "O Velho Sabichó". Era um tipo de ironia na qual unia Sabichó e Burrichó. Eles falavam de tudo e de nada, mas sempre havia uma lição escondida em cada conversa. “Você sabia, Bento”, disse o Sabichó, em um dia particularmente frio, “que uma decisão bem tomada pode construir impérios?”

Bento franziu a testa, intrigado. “E o contrário?”

“O menor dos erros pode destruir civilizações”, respondeu Sabichó, com um sorriso que não chegava aos olhos. “A vida é assim, uma linha tênue entre o sucesso e o desastre.” Bento refletiu sobre suas próprias escolhas, percebendo que muitas vezes havia agido sem pensar nas consequências. As palavras do Sabichó começaram a ecoar em sua mente, trazendo uma nova perspectiva. 


“Uma decisão bem tomada
pode construir impérios
O menor dos erros pode
destruir civilizações.”

 

A Vida é Linda

Em outro dia, enquanto se dirigia ao trabalho, Bento percebeu que algo estava diferente. O Sabichó estava mais sério, quase melancólico.

“A vida é linda, Bento”, começou ele, “mas não se engane. Neste mundo, há corações boníssimos, mas também muitos corações malignos. Alguns estão mais perto do que você possa imaginar.”

“Você está falando de quem?”, perguntou Bento, sentindo um calafrio.

“Não importa de quem, mas do que”, respondeu o Sabichó, de forma enigmática. “A maldade pode estar em qualquer um, até mesmo em nós, se não tomarmos cuidado.”
Bento sentiu um peso em suas palavras. Começou a prestar mais atenção ao seu redor, percebendo que o mundo não era tão inocente quanto parecia. O Sabichó tinha razão: a maldade podia estar em qualquer lugar, até mesmo onde menos se esperava.

“A vida é linda

Mas não se engane

Não vacile

Neste mundo há corações boníssimos

Mas também há muitos corações malignos

Alguns estão mais perto do que você possa imaginar”

Viva Esperto

Com o tempo, as conversas com o Sabichó foram moldando a forma de Bento ver o mundo. Ele se tornou mais cauteloso, mais observador.

“Viva esperto, Bento”, aconselhou o Sabichó em uma manhã ensolarada. “Trabalhe pelo melhor, torça pelo melhor, mas nunca espere nada de ninguém. Porque ninguém merece nada, até que prove o contrário.”

Bento assentiu, já não tão ingênuo como antes. “Você acha que eu deveria desconfiar de todos?”

“Não é desconfiança, é sabedoria”, corrigiu o Sabichó. “Exceto dos cachorros e gatos. Desses, você pode esperar algo sincero.”

Bento sorriu. Ele nunca tivera animais de estimação, mas a simplicidade daquele conselho o fez pensar que talvez o velho tivesse razão. Aprender a não esperar nada dos outros o ajudou a se concentrar mais em si mesmo.

Viva esperto

Trabalhe pelo melhor

Torça pelo melhor

Mas não espere nada de ninguém

Nunca ache que merece

Porque ninguém merece, até que prove

Não espere nada desse mundo

Exceto dos cachorros e gatos

Deles você pode esperar algo sincero”

 

Dê Seu Máximo

Bento achou que sentiu que estava mudando. A influência do Sabichó o havia transformado de um jovem meio abestalhado, desmotivado, em alguém mais focado, mais determinado.

“Dê seu máximo, Bento”, insistiu o Sabichó em uma conversa que parecia mais séria do que as anteriores. “Seja a sua melhor versão, e esteja sempre pronto para o pior, ainda que com um sorriso no rosto. Porque assim, o que vier de bom será lucro.”

Bento acenou com a cabeça, refletindo sobre o conselho. Passou a se empenhar mais em seu trabalho, não para agradar os outros, mas por si mesmo. E, surpreendentemente, as coisas começaram a melhorar. Mas ele nunca esqueceu o que o Sabichó lhe dissera: ‘esteja sempre pronto para o pior’.

Dê seu máximo

Seja sempre o melhor de você mesmo

A sua melhor versão

Seja você mesmo

Seja de verdade

Tenha coragem de usar o seu conhecimento

Aja pelo melhor

Torça pelo melhor

Espere pelo pior

De preferência, com um sorriso no rosto

Ainda que um sorriso insano, só para disfarçar

Esteja sempre pronto para o pior

Assim, o que vier de bom é lucro”

A Grandeza das Pequenas Coisas

Bento começou a valorizar as pequenas coisas da vida. Percebia beleza onde antes via apenas rotina. Uma xícara de café quente numa manhã fria, o sorriso de uma criança ou de uma velha na rua, o silêncio confortável ao lado do Sabichó.

“Nada supera a grandeza das pequenas coisas da vida, Bento”, disse Sabichó, com um olhar distante. “A vida é maravilhosa, mas não durma no ponto. O mal tomou todo o café do universo e por isso nunca dorme.”

Bento achou que o velho tinha razão. Começou a prestar mais atenção às pequenas alegrias, tentando não se perder nas grandes preocupações. A vida, percebeu, era feita de momentos efêmeros, mas preciosos. Deixou até mesmo de passar raiva com o vizinho que erguia o volume do som do carro no último, só para atormentar. “A vida é maravilhosa, muito maior que esse otário e seu som ridículo”, dizia Bento contando até dez em pensamento.

Nada supera a grandeza das

pequenas coisas da Vida

A vida é maravilhosa

Mas não durma no ponto

Esteja sempre atento e alerta

O mal tomou todo o café

do Cosmos e por isso nunca dorme”

 

Viva a Mil

Com o tempo, entre idas e vindas, Bento passou a viver com mais intensidade. As palavras do Sabichó haviam despertado nele um novo desejo de aproveitar cada instante. Havia uma energia diferente na vida, e não era só porque um velho na esquina lhe dizia coisas, mas porque ele próprio, Bento, começou a compreender o fluxo da incomensurável força da vida.

“Viva a mil, Bento”, aconselhava o Sabichó. “Quem vive pra valer, nunca morre. Mas nunca baixe a guarda. O mal, como uma vizinha fofoqueira, está sempre à espreita.”

Bento sorria sempre, mas sabia que o conselho era sério. Ele começou a aproveitar mais a vida, mas sempre com um olho aberto, atento ao que poderia acontecer. E, de fato, as surpresas da vida nunca pararam de surgir.

Viva a mil

Pois quem vive pra valer

nunca morre

Viva intensamente

Sem medo de ter medo

Viva pra valer, bote pra foder

Mas nunca baixe a guarda

O mal, como uma vizinha

fofoqueira, sempre está à espreita

O Preço da Luz

Bento estava começando a se destacar no trabalho, conquistando o respeito de seus colegas. Mas o Sabichó, sempre atento, o lembrou de algo importante.

“Iluminar o mundo custa caro, Bento”, disse ele, enquanto observavam o pôr do sol. “Apenas aqueles que lutam pelo bem pagam esse preço. É por isso que te digo e repito meu jovem: “Não se esqueça do mal, que como os juros bancários, nunca cessa.”

Caminhando para casa ou para o trabalho, Bento refletia ardorosamente sobre as palavras do velho da esquina. O sucesso tinha seu preço, como tudo nesse mundo tem o seu preço, e ele começou a perceber que nem todos ao seu redor estavam contentes com seu crescimento, especialmente, alguns dos que fingiam, e muito bem, serem seus amigos. O mal, ele entendeu, estava sempre à espreita, esperando a menor oportunidade para agir.

Iluminar o mundo custa caro

Um preço que só os que

lutam para iluminá-lo, pagam

Trabalhe pelo bem

Viva pelo bem

Faça o bem

Mas nunca esqueça do mal,

que igual aos juros bancários, não cessa.”

A Vida Não Perdoa

Um dia, Bento enfrentou uma grande perda. Alguém próximo a ele adoeceu gravemente, e apesar de todos os esforços, não resistiu. Ele se lembrou das palavras do Sabichó.

“A vida é grandiosa, Bento”, disse o Sabichó, com uma voz que parecia ecoar em sua mente. “Mas não perdoa ninguém. Nem mesmo os que dizem ‘amar a vida’”.

Bento sentiu o peso daquelas palavras. Por mais que amasse a vida, ele agora compreendia que ela era implacável. As perdas eram inevitáveis, e a única coisa que restava era tentar compreender aquele terrível momento, honrar a memória de quem se foi e, ainda que com dor no coração, na mente e na alma, seguir em frente. “Seguir em frente e com tudo é a melhor forma de honrar quem se foi”, dizia Sabichó.

A vida é grandiosa

Mas não perdoa ninguém

Nem mesmo os que dizem 'amar a vida'.”

A Imensidão Cósmica

Com o tempo, Bento se tornou mais introspectivo após a perda. Começou a pensar sobre a vida e a morte, sobre o seu lugar no universo, sobre o significado disso tudo.

“Nunca esqueça, Bento”, disse o Sabichó em uma conversa que parecia final. “Diante da Imensidão Cósmica, ainda somos meras partículas de poeira cósmica pensantes. No máximo, animais pensantes, um dia talvez, espíritos filosofantes”. Contudo, por hora, somos só essas tragicomédias ambulantes.

Bento olhou para o céu noturno, tentando entender a vastidão do universo e seu próprio papel nele. As palavras do Sabichó o fizeram perceber sua pequenez, mas também o inspiraram a buscar um significado maior em sua existência.

Nunca esqueça que diante da Imensidão Cósmica Interestelar, ainda somos como meras partículas de poeira cósmica pensantes

No máximo animais pensantes,

um dia talvez, espíritos filosofantes.”

O Desapego

Bento aprendeu a não se apegar às coisas materiais, nem às glórias passageiras. O Sabichó o havia ensinado que tudo era efêmero.

“O desapego é maior e melhor que o apego, Bento”, disse o Sabichó certa vez. “Mas não é para qualquer um. Não se deslumbre com nada, pois toda grandeza é efêmera.”
Bento começou a desapegar-se das coisas que antes valorizava, mas sem deixar de valorizar as pequenas coisas da vida e tudo aquilo que realmente importa, que o ajuda a ser ele mesmo, ser de verdade. Percebeu que a verdadeira riqueza estava em viver plenamente, sem se prender ao que era transitório.

O desapego é maior e melhor que o apego

Por isso não é para qualquer um

Não se deslumbre com nada

A sorte demora e quando chega é fugaz

Mas o azar se delonga

como a visita imprópria

que parece que nunca vai embora

Não se deslumbre com nenhuma grandeza

Pois toda grandeza é efêmera”.

 

Os Gigantes de Pedra

“Você sabia, Bento”, disse o Sabichó, em um tom quase professoral, “que os dinossauros eram gigantescos? Mas bastou uma pedra para eles serem varridos da face da Terra.”

Bento sorriu. Ele já conhecia essa história, mas o Sabichó sempre tinha uma forma de torná-la relevante.

“A humanidade se acha grande coisa, Bento, mas somos frágeis. A vida pode mudar num instante, e tudo o que construímos pode ser destruído. Lembre-se disso.”

Bento ficava embasbacado e também se divertia com as palavras de Sabichó. Aquela esquina era “A Esquina”, e por causa dela, os dias tinha se tornado mais vívidos, mais intensos, mais verdadeiros. Viu? Pensar faz bem! Manter a mente, o coração e alma limpos, faz um bem maior ainda!

 

A humanidade se acha grande coisa

Os dinossauros eram gigantescos

Mas bastou uma pedra

para eles serem varridos

da face da Terra.”

O Mundo Cão

Bento havia se tornado cínico em relação à vida, vendo que o mundo nem sempre recompensava os bons e raramente punia os maus para valer.

“A vida é maravilhosa, Bento”, disse o Sabichó, “mas não é um conto de fadas. A realidade é dura, e na maioria das vezes, prevalece a moral do mais forte. O mundo é dos vivos, mas é um mundo cão.”

Bento balançou a cabeça, meio contrariado, mas compreendendo. A vida era um jogo, e ele tinha que aprender a jogar se quisesse sobreviver. Afinal, nem tudo é ‘as mil maravilhas’. E como diz o ditado popular: ‘rapadura é doce, mas não é mole’. “Tem que lutar como um Leão pra não morrer como um Veado”, dizia Sabichó enquanto Bento ria docemente com as palavras do velhote.

A vida é maravilhosa

Mas não é um conto de fadas

Ou um filme de Hollywood

A realidade quase sempre é outra

Nesse mundo, 'onde os fracos não tem vez'

Na maioria das vezes,

prevalece a moral do mais forte

Por isso dizem que 'o mundo é dos vivos'

Esse mundo tem seu lado belo, é inegável

Mas esse mundo é um mundo cão.”

 

A Data de Validade

Um dia, o Sabichó olhou nos olhos de Bento fixamente e disse algo que ele nunca esqueceria.

“A vida é belíssima, Bento, mas não esqueça que todos nós temos data de validade. Um dia, quando menos esperarmos, o nosso fim chegará. E tudo o que já fomos, somos e gostaríamos de ser, estará acabado.”

Bento sentiu um arrepio. A morte era inevitável, mas ele decidiu que não viveria com medo dela. Em vez disso, faria o melhor de cada dia.

A vida é belíssima

Mas não esqueça

Todos nós temos data de validade

Um dia, quando menos esperarmos,

do nada, o nosso fim chegará

E tudo o que já fomos, somos

e que gostaríamos de ser

estará acabado

Nós sempre seremos pegos

De calças curtas, com calças ou sem calças.”

Aproveite a Vida

“Faça tudo o que quiser, Bento”, disse o Sabichó, com um sorriso sincero. “Porque o nosso tempo aqui, cedo ou tarde, acabará. Todos que amamos e tudo o que amamos será destruído pela morte impiedosa. Mas não se aflija, não retroceda, não fuja.”
Bento sorriu de volta. Ele finalmente entendeu que o segredo da vida estava em aproveitá-la ao máximo, sem se deixar paralisar pelo medo do fim. É claro, com responsabilidade, com respeito à vida, mas aproveitar tudo o que fosse possível aproveitar porque ninguém sabe quando ‘a hora derradeira’ chegará.

Aproveite a vida com tudo

o que você puder

Faça tudo o que quiser

Porque o nosso tempo aqui

Cedo ou tarde, acabará

Todos que amamos

e tudo o que amamos

será destruído pela morte impiedosa

Mas não se aflija

Não retroceda

Não fuja.”

A escolha na escuridão

“Enfrente o que puder ser enfrentado, Bento”, disse o Sabichó, em um tom de urgência. “Aceite o que tiver que ser aceito. Mas nunca se dê por vencido, por mais ferrado que esteja. Você pode escolher ser um Viajante da Luz na Escuridão.”

Bento assentiu, sentindo que havia encontrado seu propósito. Decidiu que, apesar das dificuldades, viveria para iluminar o caminho, tanto para si quanto para os outros.

Claro, também não entra nessa de ‘querer ser um santinho, porque ninguém é santinho nesse mundo, meu amigo. Mas, é bom ser bom para quem é bom com você. E também não tem nada demais ser um pouco filho da puta com quem lhe é filho da puta. Auto-preservação, disse Sabichó.

Bento riu e perguntou: E você é filho da puta com quem lhe é filho da puta?

Sabichó se riu junto, mas logo ficou sério e respondeu: Sabe, Bento, nesse mundo, os bonzinhos são comidos no café da manhã pelos vivos, espertos e loucos, sem dó nem piedade. Acredite no quiser, viva como quiser, só não esqueça que fora da sua caixinha, na verdade, a realidade da vida nesse mundo insano é brutalmente outra. Por isso, sim, eu sou filho da puta com quem é filha da puta comigo. Mas não conta isso para os outros. Senão, alguns filhos da puta podem acabar fingindo não ser filhos da puta.

Bento ria se sair lágrimas dos olhos.

Enfrenta o que puder ser enfrentado

Aceite o que tiver que ser aceito

Nunca se dê por vencido,

por mais ferrado que esteja

Alguns dizem: 'somos, ao mesmo tempo,

Luz e Escuridão'

Muitos escolhem ser só escuridão

Mas você pode escolher

ser um Viajante da Luz na Escuridão

A vida é incomensurável

É choque de forças

Alternância, mudança,

transcendência, transformação

Uns buscam se transformar

para o Bem e outros para o Mal.”

 

 

 

 

 

O Poder do Amor

Em uma tarde serena, o Sabichó falou pela última vez com Bento.

“O medo e o ódio podem tomar conta de mentes, corações e almas por um longo tempo, Bento. Mas o Amor é a Lei Transformadora da Vida, em todos os universos e mundos possíveis.”

Bento achou que entendeu que, no final, o amor era o que realmente importava. Ele decidiu que viveria de acordo com essa lei, buscando o equilíbrio em todas as coisas.

O medo e o ódio podem tomar conta de mentes, corações e almas por um longo tempo

Mas O Amor é A Lei Transformadora da Vida

Em toda a Incomensurabilidade Cósmica

Em todos os Universos e mundos possíveis.”

 

Equilíbrio e Evolução

“Só duas coisas prevalecem em toda a Incomensurabilidade Cósmica, Bento: O Equilíbrio e a Evolução”, disse o Sabichó, enquanto observavam o pôr do sol.

Bento sorriu, sentindo-se em paz. Ele achava que, independentemente do que a vida trouxesse, ele continuaria a evoluir, buscando sempre o equilíbrio em seu caminho.


Só duas coisas prevalecem em toda a Incomensurabilidade Cósmica:

O Equilíbrio e a Evolução.”

 

 

 

 

Ressignificação

Bento começou a ver a vida como uma série de ciclos – construção, destruição, reconstrução. Ele entendeu que sempre haveria um ponto de virada.

“A vida sempre poderá ser ressignificada, Bento”, disse o Sabichó. “Sempre haverá um ponto de virada para mudar, transcender, evoluir.”

Embora duvidasse que tudo aquilo, todas aquelas idas e vindas, todo aquele palavreado realmente prevalecesse como uma verdade insofismável até o final, Bento aceitou tudo aquilo como um tipo de verdade e começou a encarar cada dificuldade como uma oportunidade de crescimento.

A vida sempre poderá ser ressignificada

Sempre haverá um ponto de virada

Para mudar, transcender, evoluir

Ser melhor

Pior

Ou ficar na mesma

É a escolha de cada um.”

A Última Lição

No último dia em que se encontraram, o Sabichó deu sua última lição a Bento.

“A nossa vida aqui na Terra é construção, destruição, reconstrução, ressignificação”, disse o Sabichó, com um olhar sereno. “Viva de coração, corpo, alma e mente. Viva com força, com gratidão, com amor, com tesão, com loucura.”

Bento sorriu, sentindo que achava que havia finalmente compreendido o verdadeiro significado da vida. E, com um aperto de mão, se despediu do Sabichó, que se levantou e caminhou para longe, desaparecendo na esquina.

Bento ficou ali, sozinho com sua mente, observando o velho que sumia dobrando outra esquina, enquanto sorria sem sorrir e dizia para si mesmo: “realmente, Sabichó é um Sábio, até na saída. Esse se garante, ein?”.

O tempo passou e Bento encontrou um novo emprego. Não era o trabalho dos seus sonhos, mas ele o encarava com uma nova perspectiva. Lembrava-se das palavras do Sábio, e sempre que a vida parecia difícil, ele sorria, sabendo que, de alguma maneira, ainda que sempre com um frio na espinha diante de algo desconhecido, ele estava preparado para o pior – e que qualquer coisa boa que viesse era lucro.
Um dia, alguns anos depois, Bento passou e viu o pequeno banco de madeira, na esquina onde ele e o Sábio Sabichó costumavam conversar. Sentou-se, e por um momento, teve a sensação de que o velho estava ali, sorrindo ao seu lado.

“Viva para sempre, meu velho amigo”, murmurou Bento para o ar, e continuou seu caminho...

 

“A nossa vida aqui na Terra é construção, destruição, reconstrução, ressignificação

Viva de coração, corpo, alma e mente

Viva com tudo

Com força

Com emoção

Com Gratidão

Com fúria

Com Amor

Com imaginação

Com tesão

Com loucura

Com energia

Viva para sempre!”

 

FIM

 

 

 

 

==  João das Almas  ==

 

 

 

 

Na rua estreita e lamacenta de um bairro de periferia qualquer, perdido na imensidão de uma cidade que poderia ser qualquer cidade, João das Almas se preparava para o seu último jantar. Não era um jantar especial, daqueles com velas e vinho tinto; era mais uma refeição como outra qualquer. O fogão a gás, antigo como o próprio João, chiava ao aquecer a panela, onde um pedaço de carne de segunda se desintegrava lentamente em um molho ralo, enquanto o miojo fervilhava em outra pequena panela.

João, um homem de uns cinquenta anos que mais parecia ter setenta, era conhecido por todos e ao mesmo tempo por ninguém. Um vizinho invisível, um rosto na multidão que, mesmo ao ser cumprimentado, passava despercebido.

 Dramaticamente imperceptível. Ele, no entanto, não se importava com isso. "Ser invisível é uma bênção", costumava murmurar para si mesmo, com aquele sorriso que misturava ironia e resignação, tão comum a quem já perdeu a conta das desilusões da vida. E foram muitas.

Era uma noite como outra qualquer, e talvez tenha sido por isso que João decidiu que seria a sua última. Não porque a vida estivesse particularmente mais insuportável que em outros tempos, mas porque ela já era insuportável o suficiente para não fazer diferença se continuasse ou terminasse ali, com um jantar mal feito, um miojo e um gole de cachaça vagabunda. "Melhor terminar por cima", ironizava ele, ainda que por cima significasse simplesmente não ter mais que acordar no dia seguinte.

Enquanto o caldo fervia, alguém bateu na porta. Quem seria, naquela hora? A vizinhança sabia que João das Almas não recebia visitas; ele vivia só, como um ermitão urbano, sem amigos, sem família. Ele realmente não gostava de visitas. Hesitante, ele abriu a porta e se deparou com uma figura inesperada: Dona Clotilde, a velhinha do 201, que tinha mais hiatos nas histórias que contava do que entre os dentes na boca.

— Boa noite, seu João! Desculpe a hora, mas o senhor tem um pouco de açúcar? Esqueci de comprar e estou precisando para o café.

João suspirou. Não pelo pedido, mas pela interrupção em seu planejamento. "Por que justo agora?", pensou. Mas, como a vida sempre foi uma sequência de pequenas contrariedades, ele foi até a cozinha e trouxe um punhado de açúcar em um pequeno pote de massa de tomate, limpo claro. João era limpo, gostava de limpeza, sua pequena moradia limpíssima, tinha livros por toda parte. Parecia uma bagunça, mas era ‘uma bagunça organizada’, o seu jeito de organizar e dar vida ao lar solitário.

— Aqui está, Dona Clotilde. Mas não me deve nada, viu? — disse João, com aquele tom de quem está concedendo um último favor.

— Obrigada, seu João. Que Deus lhe pague!

Ela sorriu amistosamente se foi, e João fechou a porta, sentindo um estranho e irônico vazio. Não o vazio existencial que sempre lhe acompanhou, mas um vazio de ação, como se aquele pequeno ato de gentileza tivesse criado uma brecha em seus planos. "Que Deus me pague? Nunca esperei nada desse dito Deus, Dona Clotilde", murmurou, voltando para a cozinha.

O seu simplório mas nobre jantar estava quase pronto. Sentou-se à mesa, serviu-se uma generosa dose de cachaça e olhou para o prato diante de si. "É isso”, pensou com um sorriso que poderia ser confundido com uma careta. Mas antes de levar a primeira garfada à boca, alguém novamente bateu à porta.

Com um suspiro mais profundo, João se levantou, já meio irritado. "Quem será agora? O cobrador da luz? Um mórmon? O padeiro? A vizinha atirada que acha que pode surrupiar a aposentadoria dos velhos com suas curvas do pecado?" Mas ao abrir a porta, deparou-se com Manuel, o moleque do 304, que vivia correndo e pulando pelo prédio como se tivesse molas nos pés.

— Seu João! Minha bola caiu na sua varanda! Pode pegar para mim?

João fechou os olhos e inspirou fundo. "Paciência, João, paciência", disse a si mesmo. O garoto, com sua cara de capeta em forma de guri e os olhos cheios de expectativas, lembrava-lhe de um João muito, muito distante. Um João que também corria pelas ruas, que tinha sonhos de ser alguma coisa, qualquer coisa que não fosse apenas João das Almas. Ele foi até a varanda e, depois de algum esforço, pescou a bola entre as plantas mortas. Olhou para ela e viu que tinha uma carinha de sorriso desenhada a canetinha. Sorriu sem demonstrar que sorria.

— Aqui está, Manuel. Agora vai para lá e deixa o velho aqui em paz, sim?

— Valeu, seu João! — disse o garoto, correndo de volta para o corredor, já chamando os amigos para continuar a brincadeira.

João voltou à mesa, agora com um sentimento incômodo crescendo dentro dele. O jantar estava esfriando, e com ele, o impulso de que tudo terminasse naquela noite. Levantou a cachaça, olhou através do copo, como se o brilho do líquido pudesse lhe dar alguma resposta. "Mas que porra?", perguntou-se, mas não havia resposta. A vida, como sempre, se recusava a lhe dar explicações. Talvez porque nunca houvesse uma explicação para nada, apenas o acaso, o absurdo, o vazio.

Então, o telefone tocou.

João parou, desconcertado. Quem diabos, em sã consciência, ligaria para ele naquela hora? Ou melhor, em qualquer hora? O telefone era uma relíquia que ele mantinha apenas para ‘dizer que tinha’. Atendeu, hesitante, quase esperando que fosse um engano, um presidiário louco para dar um golpe num velho tolo ou uma operadora com seus mil e um telefones diários.

— Alô?

— Seu João? É o Fernando, do mercadinho. Esqueci de avisar, mas o senhor deixou seu troco aqui hoje cedo. Foi mal, eu estava distraído. Pode passar aqui amanhã para pegar?

João balançou a cabeça, uma mistura de espanto e incredulidade. Até o troco da compra estava conspirando para que ele não concluísse seus planos. "Troco, Dona Clotilde, Manuel… até você, Fernando, parece que o mundo decidiu aparecer justo agora", pensou.

Ele agradeceu a Fernando, desligou o telefone, sentou-se à mesa, e desta vez, riu. Não um riso alegre, mas um riso irônico, carregado de uma resignação cínica. Ali estava ele, João das Almas, pronto para terminar tudo, mas não conseguia nem mesmo fazer isso sem que a vida interferisse com suas pequenas demandas cotidianas.

Então, enquanto encarava o prato à sua frente, algo pareceu mudar. Não foi uma revelação divina, nem um troço estrambólico e filosófico. Foi simplesmente a constatação de que, apesar de tudo, a vida continuava. Com ou sem ele, com ou sem suas dores, suas mágoas, seus planos de fuga ou auto-afirmação condescendente. A vida, essa danada, era teimosa, insistente, e talvez — apenas talvez — tivesse mais a oferecer do que ele imaginava. "Ressignificação", disse a si mesmo ironicamente. "Talvez seja isso, talvez seja só isso."

Com esse pensamento, João decidiu adiar seus planos. Não por covardia, nem por arrependimento, mas por pura curiosidade. O que mais a vida ainda podia aprontar? Ele já havia passado por tantas, uma a mais, não faria diferença. E quem sabe? Talvez, no meio de tudo isso, ele encontrasse algo que lhe fizesse rir, do seu jeito, um riso sem sorrir, novamente daquele jeito, quando menino, com a alma mais ou menos leve, não apenas pelo peso do destino, mas pela ironia de estar vivo, apesar de tudo.

E assim, João das Almas terminou seu jantar. Não como um homem decidido em seus intentos recônditos, mas como alguém que, por algum motivo incompreensível, decidiu ver o que acontece nas próximas horas. Porque, no fim das contas, o que temos a perder além da própria vida, que já é perdida de qualquer forma? E com um sorriso sarcástico, ele se levantou, apagou as luzes e foi dormir, esperando, talvez, pela primeira vez em muito tempo, pelo que o amanhã poderia lhe trazer.

João acordou na manhã seguinte sem o peso que carregava na noite anterior. O mundo não havia mudado, e ele tampouco. Ainda era João das Almas, o macambúzio solitário, o ranzinza, o homem invisível do bairro. Mas, algo dentro dele parecia que havia se movido, ainda que imperceptivelmente. Não havia mais aquela sombra estranha, pesada, incógnita pairando sobre seu café da manhã, nem a certeza da mais incerta certeza rondando sua cabeça. No entanto, uma inquietude permaneceu, aquela sensação persistente de que a vida, com toda sua imprevisibilidade e teimosia, ainda não havia terminado com ele.

Ele saiu de casa sem um plano definido. Caminhar. Porque caminhar areja a mente, o coração e alma. Claro, dá câimbras de vez em quando, mas também faz algum bem. A manhã estava cinza, como tantas outras, e a cidade se desenrolava à sua frente com sua habitual indiferença. João caminhou sem rumo, cruzando ruas e esquinas, observando o movimento apressado das pessoas, cada uma imersa em suas próprias tragédias e comédias cotidianas. Havia algo reconfortante na normalidade medíocre e caótica da cidade, como se, ao se perder entre aquelas vidas, João pudesse talvez se reencontrar.

No meio do caminho, avistou a igreja do bairro. Ele sempre passava por ali, mas nunca entrava. Religião não era para ele, um homem que havia perdido a fé na humanidade e em todas as ilusões humanas. No entanto, naquela manhã, algo o atraiu para dentro, como um empurrão silencioso. Mentalmente, sarcasticamente, João dizia: “Vai ver é um espírito amigo, como o demônio familiar do Sócrates, me empurrando para a ‘cova dos Leões’”. Entrou, e o silêncio o envolveu como um breve entorpecimento como quando bebia quase meio litro da cachaça vagabunda. As velas queimavam suavemente, projetando sombras dançantes nas paredes, e o cheiro de incenso enchia o ar.

João se aproximou de um dos bancos e sentou-se. No fundo, claro. Não rezou, jamais rezou na vida, não no sentido ‘tradicional’ da palavra, não murmurou palavras de desespero, esperança ou revolta. Não havia mais tempo para revoltas e indignações, dizia a si mesmo. Apenas ficou ali, contemplando o vazio, sentindo a vastidão de seu próprio barulhento silêncio interno. E foi ali, naquele espaço quieto e vazio, que ele percebeu algo. Não havia respostas esperando por ele nem ali, nem ‘do outro lado’, nem em lugar algum, mas também não havia perguntas. Havia apenas a quietude, uma pausa no caos que era a vida. E, naquela pausa, ele refletiu sobre algo fundamental: a vida, assim como aquele silêncio, não precisava ter um significado explícito. Ela apenas era. E ser, por si só, já era suficiente.

Lembrou-se do que havia pensado na noite anterior, sobre ressignificação, sobre continuar ‘só para ver no que dá’. Sim, a vida corria pela escuridão em direção ao vazio, mas isso não significava que o vazio fosse o fim.  Não significava nada. O vazio, compreendeu João, era apenas uma nova fase, uma nova possibilidade. Talvez não houvesse nada além dele, ou talvez houvesse tudo. Quem poderia dizer? O importante não era o que viria depois, mas o que se fazia agora, no presente, no tempo entre o nascimento e a queda que a todos é inevitável.

João das Almas, naquele instante, decidiu que não importava se havia algo além do vazio. Se houvesse, ele descobriria eventualmente. Mas até lá, havia a vida a se refazer. A vida, com todas as suas incertezas e contradições, era uma sequência interminável de construção, destruição, reconstrução e ressignificação. E ele, como todos, estava preso nesse ciclo, não como uma vítima, mas como um participante. Rabugento, é claro. Mas um participante, mais observador do que participante de fato, mas ainda sim participando do caos de existir. Cada dia era uma chance de se refazer novo de uma forma diferente, mesmo que fosse apenas uma pequena coisa, um pensamento, um gesto, um sorriso sem sorrir, a leitura de algo novo ou a releitura dos grandes clássicos, uma caminhada solitária.

Levantou-se do banco e, ao sair da igreja, sentiu o peso do mundo de novo nos ombros. Mas dessa vez, o peso não era esmagador, e sim algo como um lembrete da responsabilidade que todos carregam de dar sentido à própria existência. Olhou para o céu cinza, que agora começava a se abrir, revelando pequenos fragmentos de azul. Um novo dia, uma nova chance. “Que pé no saco isso tudo”, disse a si mesmo e sorrindo sem sorrir, saiu caminhando.

Quando voltou para casa, encontrou um bilhete sob a porta. Era de Dona Clotilde, agradecendo pelo açúcar e convidando-o para um café. João sorriu, desta vez sem ironia. A vida, afinal, também é feita dessas pequenas chatices bondosas que chamamos de conexões, essas interações aparentemente insignificantes que, juntas, formavam o grande mosaico da incomensurabilidade da existência.

João decidiu que aceitaria o convite. Porque, no fundo, compreendeu que o vazio não era o inimigo; a estagnação, talvez sim. O vazio era o terreno onde novas construções podiam surgir, onde velhas ideias podiam ser desconstruídas e novos significados poderiam nascer. E João, no meio de tudo isso, achava que não era mais apenas uma sombra à deriva. Agora, ele era uma sombra que se movimentava, sem um lugar para ancorar, mas se movimentava.

Naquela noite, enquanto se preparava para dormir, João olhou para o gato Zaka que se preparava para pular sobre ele no sofá, e pensou na frase que tantas vezes repetira para si mesmo: "A vida, que é Luz, nasce da Escuridão e corre pelo Abismo em direção ao Vazio." Sim, isso era verdade. Mas o que não havia percebido antes era que, no percurso, a vida, sabe-se lá o porquê, também criava novas luzes, novos caminhos, novas possibilidades. O vazio, então, não parecia o fim, mas um novo começo, um tipo de campo fértil esperando para ser semeado.

João das Almas fechou os olhos, com um sorriso sem sorrir, leve nos lábios. Sabia que amanhã seria um novo dia, não porque o mundo mudaria, nem porque ele tinha de fato mudado, como num passe de mágica, mas porque João das Almas começou a pensar que é possível fazer as coisas de uma forma diferente, mais viva, talvez mais intensa, simples como sempre, mas muito mais verdadeira. E assim, deitou-se, não mais com a intenção de nunca mais acordar, mas com a curiosidade de ver o que mais a vida lhe traria. Porque a vida, com todas as suas vicissitudes, parece que ainda sempre tem muito a oferecer — desde que se esteja disposto a se ressignificar e ressignificar cada momento, cada dia, cada interrelação, como um autêntico Viajante da Luz na Escuridão.

"No fim, o que conta não é o que há além do vazio, mas o que fazemos enquanto corremos em direção a ele." FIM...

 

 

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== Yad ==

 

Edviges Yadviga (Yad) era uma mulher diferente para seu tempo e vivia embriagada pelos becos de Jerusalém. Pelo seu jeito ébrio, desbocado e ousado de viver alguns dentre o povo diziam se tratar de uma Baba Yaga, uma espécie de Bruxa. Outros diziam ser ela uma mulher endemoniada, entre outros adjetivos dados a todas as mulheres que ousavam ser livres em sua época. Mas Yad, do alto de seus quase cinquenta anos, não dava a mínima para o que o povo pensava e tocava sua vida entre trancos e barrancos e falando na cara de todos tudo aquilo que pensava.

Certa vez, andando pelos becos da cidade, Yad deu de cara com um pequeno furdunço de gente ouvindo um certo Omar Gabay, um jovem de quase quarenta anos de idade que se autoproclamava contador de histórias e que viajava pelas cidades entretendo o povo. O povo, que nunca tinha certeza da veracidade das histórias, as comprava por verdadeiras ou “quase verdadeiras”, inventava mais coisas, aumentava mais coisas e as espalhava como verdade para todo lado.

Nesse dia, Omar estava a contar histórias sobre um menino que julgava ter poderes sobrenaturais. Yad vendo aquele povo todo entusiasmado sentando-se no chão empoeirado, também resolveu se ajeitar sobre uma pequena escada. Ela sacou de seu vinho, tomou um golão e deu a ouvir o tal Gabay, que dizia:

Olha gente, hoje lhes trago a história de um menino chamado Jesus, que na época tinha cinco anos. Jesus estava brincando em um riacho depois da chuva. Ele estava represando a água em poças pequenas e deixando-as claras com suas palavras. Imaginem só? Depois, ele fez uma dúzia de passarinhos com barro e os fez voar com um gesto. Era um sábado e outros meninos brincavam com ele. Um homem judeu, acompanhado de outros sujeitos, viu o que Jesus fez e foi correndo contar para seu pai José, dizendo que Jesus estava desrespeitando o Sábado. José foi até o local, repreendeu Jesus e perguntou por que ele estava agindo daquela maneira em um Sábado. Jesus então olhou para o pai que queria parecer furioso, mas nunca conseguia, deu de ombros e ordenou aos passarinhos de barro: "Voem!" E eles voaram. Os judeus, impressionados, correram contar aos seus superiores o que havia acontecido.

Gabay contou a historinha e o povo maravilhado, deu-lhe uma salva de palmas. Duas mulheres alcançaram-lhe vinho e maçãs enquanto o povo pedia mais histórias sobre o menino invocado.

Nisso, Yad riu e chamou a atenção de Gabay. Gabay, que já a conhecia de outros enroscos, então dissera: Vejam minha gente, essa é a velha mulher bêbada que ri de tudo e de todos. Com seu riso ela ironiza, satiriza e zomba de nossa história. Mas, de bom grado e dentro do espírito de pacifismo, vamos ouvir o que ela tem a dizer. Diga-nos, Yad, o que achou de tão engraçado?

Yad olhou para Gabay, tomou mais um gole, arrotou e disse: Gabay, Gabay, Gabay, não sei de onde você tirou essa historinha para boi dormir...Qualquer imbecil é capaz de ver que não se trata de uma história real, mas sim de mais uma baboseira que contam por esse mundão louco e que muitos acabam tomando por verdade absoluta e incontestável. Você está dizendo que um menino insolente de cinco anos fez passarinhos de barro e deu vida a eles! Nada mais absurdamente tragicômico.

Nisso, parte do povo riu com Yad e outra parte ficou meio indignada, murmurando.

Gabay, sorridente, olhou para a multidão que murmurava, piscou com um dos olhos e fez sinal com as mãos para o povo ficar calmo...

E Yad prosseguiu: Tudo bem, vamos dizer que os Judeus da história viram os passarinhos saírem voando. É bem provável que Jesus, como todas as crianças peraltas, já tinha prendido alguns passarinhos antes e na hora propícia os soltou. Quem nunca fez armadilhas para passarinhos? Não há nada de estrambólico nisso. Ou é isso ou esse Jesus é um ilusionista nato.

Então, quase todos riram de Yad.

Gabay também rindo com o povo, disse-lhe: Yad, minha velha amiga, acho que a bebida está fazendo mal para a sua cabeça.

Então, Yad, em seu gênio sarcástico, disse: quais cabeças estão mais ferradas? A minha ou a dos que acreditam que uma criança peralta que dá de ombros para o pai na frente dos outros, é capaz de criar seres vivos a partir da lama?

Gabay então deu de ombros sorrindo e continuou: Outra vez, num recanto ímpar mais retirado da cidade, estava presente o filho de Anás, o escriba, que teve a ideia de liberar as águas represadas por Jesus usando uma planta de vime. Diante dessa ação, Jesus indignou-se e disse: "Malvado, ímpio e insensato. As poças e as águas te incomodavam? Agora ficarás seco como uma árvore, incapaz de dar folhas, raízes ou frutos." Imediatamente, o jovem secou completamente. Seus pais, lamentando sua terrível situação, o levaram a José, culpando-o por ter um filho capaz de realizar tais atos.

Yad novamente rindo, interrompeu: Essa é boa demais! Kkkk

E novamente, parte do povo ria com Yad enquanto outra se indignava e achava um ultraje os comentários da velha bêbada.

Gabay, como sempre pacificador, disse para a multidão: Minha gente, tenhamos todos calma, Yad vai comentar todas as histórias pelo jeito e nós, no mais puro sentimento de acolhimento e pacifismo, vamos ouvir e depois cada um decide intimamente se ri dela, se ri do que eu digo, se aceita o que ela diz ou não, não há motivos para estresse.

E a parte do povo que se sentia incomodada, obedecendo Gabay como músicos obedecem a um maestro, se restringiu ao murmúrio cada vez que Yad abria a boca ou ria.

Yad então, disse: Imagina só uma criatura de cinco anos de idade com o poder de fazer o que bem lhe der na cabeça? Certamente, todos nós aqui já teríamos secado igual ao personagem da história. Fico a imaginar a cara do pai desse monstrinho toda vez que alguém ia reclamar de suas diabruras? “Jesus, seu moleque do cão, você tem feito muita ‘capetice’, desse jeito você vai matar todos nós e ser morto ainda jovem!”.

E parte do povo, cada vez maior, ria com os comentários tresloucados de Yad.

Gabay, no entanto, também rindo de Yad, seguia com as histórias sem se afetar: Outra vez, Jesus estava no meio do povo e um jovem que corria esbarrou nele por trás. Jesus, irritado, disse: "Não continuarás teu caminho". O jovem imediatamente caiu morto. Algumas testemunhas do incidente questionaram: "De onde veio esse jovem, já que suas palavras sempre se tornam realidade?". Os pais do falecido, ao abordar José, disseram: "Com um filho assim, só há duas opções: ou não podes viver entre o povo ou deves ensiná-lo a abençoar em vez de amaldiçoar; pois ele está causando a morte de nossos filhos".

Yad: Observem só que psicopatinha esse tal de Jesus! “Não me pegue, não me toque, quem tocar em mim sem minha autorização, morre”. Imagina os pais do morto: “com um filho de Deus desses, ninguém precisa de Satanás!”.

Gabay só balançava a cabeça rindo. Mas continuava: José questionou Jesus discretamente, advertindo-o: "Jesus! Por que você faz isso, sabendo que nos torna alvos de ódio e perseguição?". Jesus respondeu: "Compreendo que não é de tua vontade. No entanto, por respeito a sua pessoa, ficarei em silêncio. Mas, aqueles linguarudos que proferiram tais palavras receberão a punição merecida". E imediatamente, aqueles que o difamaram ficaram cegos.

Yad, tomando seu vinho e rindo: A bicha além de psicopatinha, ainda é vingativa! Kkk Imagina só se um louco desses governasse o mundo? Muito pior que os romanos seria!

Gabay, segue: As testemunhas desta cena ficaram com medo e surpresas, aterrorizadas diria, admitindo que qualquer palavra que saía da boca de Jesus, fosse boa ou má, se tornava realidade e se transformava em algo extraordinário, nunca antes visto na face da Terra. Quando José percebeu o que Jesus havia feito, ele segurou a orelha dele e a puxou com força. Nesse momento, o já jovem Jesus, então com quase doze anos de idade, indignado disse ao pai: "É suficiente para você me ver sem precisar me tocar. Você nem mesmo sabe quem eu sou, porque se soubesse, nem ousaria por esses dedos sujos na minha orelha. E mesmo que eu esteja aqui agora, eu existi antes de você".

Yad: Olha aí, como todo guri que é um capeta em forma de guri, Jesus, o terroristinha, ficou fulinho com o pai por levar um puxão de orelha! Nada sobrenatural e nada divino!

E o povo meio rindo, meio murmurando, olhava para Yad e balançava a cabeça.

Gabay: Naquela época, havia um rabino chamado Zaqueu, que, ao ouvir Jesus falar com seu pai, ficou admirado. Depois de alguns dias, ele se aproximou de José e disse: "Seu filho é muito inteligente, meio desbocado, mas inteligente. Deixe-me ensiná-lo a ler e escrever, junto com toda a sabedoria e boas maneiras." Zaqueu começou a ensinar as letras de A a Z, mas Jesus o interrompeu: "Como você pode ensinar a letra B se não entende a letra A? Hipócrita! Primeiro explique a letra A, se puder". E começou a interrogar o rabino, que não conseguiu responder. Então Jesus explicou a letra A em detalhes complexos. Zaqueu ficou desconcertado e disse aos presentes: "Pobre de mim! Pensei que ensinaria um aluno, mas encontrei um mestre. Não consigo entender o que ele diz. José, por favor, leve-o de volta. Este jovem deve ser um Deus ou um anjo, não sei mais o que pensar."

Yad: Ou um capeta em forma de guri!

E todos riam.

Gabay, no entanto, sempre sorridente e pacífico, seguiu as histórias de Jesus: E quando os judeus aconselharam Zaqueu, o menino sorriu e disse: "Que seus olhos se abram e seus corações cegos se iluminem. Fui enviado para chamá-los para algo maior, mesmo depois de amaldiçoá-los". Logo após, aqueles que estavam amaldiçoados foram curados imediatamente pelas palavras do menino. Desde então, evitavam provocá-lo para não serem amaldiçoados ou ficarem cegos.

Yad bebendo e rindo: Olha só, o Capeta em forma de Guri ferrava todo mundo e ele próprio ‘curava’ todo mundo. Um grande canalhinha ein? Devia ser “muito amado” pelo povão esse tal de Jesus” kkk

Gabay, retorna, dizendo: Dias depois, Jesus estava brincando num terraço com outros meninos. Um deles, Zenon, caiu do alto e morreu. Os outros meninos fugiram, mas Jesus permaneceu. Quando os pais do menino morto chegaram, culparam Jesus. Ele respondeu: "Eu não o empurrei". Contudo, eles o maltrataram. Jesus então saltou do terraço e, ao cair perto do corpo, gritou: "Zenon, levanta-te e diz: fui eu quem te empurrou?". O menino ressuscitou e respondeu: "Não, Senhor. Tu não me empurraste, mas me ressuscitaste". Os presentes ficaram doidos com aquilo e os pais deram graças a Deus e também agradeceram Jesus.

Yad: Eu imagino o Jesus psicopatinha rindo de canto de boca: “Fui eu quem matou esse moleque e eles nem sequer desconfiam, esses manés”.

A essa altura, mais gente foi chegando e juntando à multidão.

Gabay, após dar um tempo para ir ao mictório na companhia de duas belas mulheres, retornou dizendo: Poucos dias depois, um jovem estava cortando lenha e, claro, o machado escorregou e cortou seu pé. O coitado estava perdendo sangue rápido e parecia que ia morrer. A comoção foi grande e uma multidão se juntou. Jesus apareceu, abriu caminho e, com um toque mágico, curou o pé do rapaz na hora. Ele ainda disse: "Levanta, continua cortando lenha e não se esqueça de mim". A multidão ficou boquiaberta e declarou: "Esse garoto é o bicho! Certeza que ele tem mesmo o Espírito de Deus".

Yad, ‘para lá de Bagdá’, bêbada para dedéu, diz: Mas é mesmo um puta prodígio esse ‘Jejê’. Mas, observem, ele sempre quer que todo mundo fale dele: “Bem ou mal, falem de mim”.

Gabay, sorridente como sempre, entre risos e murmúrios cada vez mais intensos de parte da multidão com relação aos comentários de Yad, mas acalmando os ânimos, retoma: Quando tinha seis anos, sua mãe pediu para Jesus ir buscar água. No caminho, ele tropeçou e quebrou o cântaro. Então, ele simplesmente usou seu manto para carregar a água de volta para casa. A mãe dele, ao ver isso, ficou tão impressionada que o encheu de beijos. Ela guardava todos esses "milagres" com carinho, pensando, "E ainda dizem que ser mãe é fácil!"

Yad: Está aí a explicação para o Guri ser o Capeta em forma de Guri, a mãe. A mãe exerce um poder e uma influência fodida sobre a mente de uma criança. É a mãe que torna uma criança normal, boa ou má, psicopata, sociopata ou ambas as coisas. Nesse caso, a mãe que já parecia maluca, incentivava os delírios do filho que se achava um ilusionista e mentia para todo mundo. Jesus só foi o maluco que foi, por causa da mãe, igualmente maluca.

E alguns do povo então gritaram para Yad: Cala a boca sua velha bêbada!

E Yad respondeu: Vai tomar no cu seu covardão, aparece aqui na minha frente falando isso para ver se não te parto no meio!

Gabay, vendo que os ânimos se exaltavam, novamente, pediu a todos que se acalmassem, e prosseguiu, tendo mais vinho e pão sendo trazidos pelas duas belas mulheres que o serviam.

Então, Gabay disse: Era época de semeadura e Jesus foi com José plantar trigo. Enquanto José lançava sementes por todo lado, o pequeno Jesus decidiu plantar um único grãozinho. Milagrosamente, sua colheita rendeu cem coros de trigo. Jesus, com toda sua generosidade, chamou todos os pobres da região para repartir o grão, e José ficou com o restante. E ele fez tudo isso aos oito anos. José deve ter pensado: "Esse garoto faz tudo florescer, até uma única semente de trigo!"

Yad: Passo!

Gabay: O pai de Jesus era carpinteiro e estava fazendo uma cama para um cliente importante. Um dia, ele percebeu que uma das tábuas era mais curta que a outra e não sabia o que fazer. Então Jesus, com toda a sua sabedoria infantil, disse: "Pai, coloca as tábuas no chão e iguala pela metade". José fez o que o filho sugeriu, e Jesus esticou a tábua curta até que ficasse do mesmo tamanho da outra. José ficou pasmo e abraçou o menino, pensando: "Feliz de mim, porque Deus me deu este garoto prodigioso!"

Yad: Puta que me pariu! Passo!

Gabay: José percebeu que a inteligência do menino crescia junto com sua idade, então decidiu que ele não podia continuar analfabeto. Levou-o a outro professor, que prometeu ensinar-lhe primeiro o alfabeto grego e depois o hebraico. O professor, claramente nervoso, começou a ensinar, mas não obteve resposta de Jesus por um bom tempo. Finalmente, Jesus pediu que o professor explicasse o valor da letra Alfa antes de falar sobre Beta. Irritado, o professor bateu-lhe na cabeça, e Jesus o amaldiçoou, fazendo-o desmaiar. José, preocupado, disse a Maria para manter Jesus em casa, já que todos que o irritavam pareciam acabar mal.

Yad: A praga era analfabeta e achava que sabia tudo? Típico adolescente! Percebam minha gente, quem contrariasse o monstrinho superpoderoso era castigado com alguma doença ou morte. Nada mais humano, até mesmo nessa ficção.

E alguns no meio da multidão: Velha louca!

E Yad: Babacas!

Gabay, no entanto seguia: Depois de um tempo, outro professor, amigo de José, disse: "Deixa-me tentar ensinar teu filho com delicadeza." José, meio duvidoso, respondeu: "Se tens coragem, vá em frente." O professor, com medo, aceitou o desafio, mas o menino mostrou-se bem disposto. Jesus entrou na sala e, sem nem ler o livro na mesa, começou a ensinar como um expert. A multidão ficou pasma com a sabedoria do garoto. José, assustado, foi até a escola, temendo o pior, mas o professor disse: "Esse menino é brilhante. Leva-o de volta para casa, por favor." Jesus, então, sorriu e disse: "Obrigado por ser justo. Aquele professor será curado." E assim aconteceu. José pegou Jesus e voltaram para casa, deixando todos boquiabertos.

Yad: José pegou o Capeta em forma de Guri e correu para casa antes que ele matasse mais alguém por pura birra! Kkk Nada mais absurdamente tragicômico.

Gabay, rindo de soslaio: José pediu para seu outro filho, Tiago, pegar lenha e trazer para casa, com o Menino Jesus de companhia. Só que, no meio do trabalho, uma cobra mordeu a mão do Tiago! Ele caiu no chão, parecendo que ia morrer. Aí o Jesus chegou, assoprou na mordida, a dor sumiu, a cobra explodiu (sim, explodiu!), e o Tiago ficou bem na hora.

Yad: Chupava um veneno esse menino...

O povo vaia a velha bêbada. Mas ela ri e segue bebendo.

Gabay, retoma: Nas redondezas de José, um menino doente acabou falecendo e deixando a mãe inconsolável. Jesus, ao saber da tristeza dela e do tumulto, chegou rápido. Encontrou o menino já morto, tocou seu peito e disse: "Hey, pequeno, não morre não. Vive feliz com tua mãe". O menino abriu os olhos na hora e sorriu. Jesus disse à mãe: "Vai lá, pega ele, dá um leitinho pra ele e lembra de mim". Todo mundo ficou admirado e disse: "Parece que esse menino é tipo um Deus ou um anjo, porque tudo que ele fala acontece". Depois disso, Jesus saiu de fininho e foi brincar com os outros jovens.

Yad: Olha aí, de novo! O Capeta em forma de Guri sempre dizia, segundo essas suas histórias Gabay, “lembre de mim”. Quer dizer, o psicopatinha queria ser conhecido por todos de todas as formas.

Gabay: Dias depois, enquanto José construía uma casa, rolou um grande tumulto. Jesus saiu correndo até lá e viu um homem morto no chão. Ele pegou na mão do sujeito e disse: "Ei, levanta aí e termina teu trabalho amigo". O sujeito levantou na hora e começou a adorar a Jesus. A multidão que viu ficou chocada e falou: "Esse menino é o bicho mesmo, ele deve ser do céu, porque já salvou um monte de gente da morte e ainda vai salvar mais".

Yad: Humhum, ele é ‘o bicho’! Veja como o povão tem memória curta, lá atrás, Gabay conta que Jesus matava sem dó nem piedade ou metia uma doença só para ressuscitar ou curar depois e ficar ‘famosinho’. Mas, o povão esqueceu a veia tirana e a mente psicopata do Jesus e agora acha que ele é gente boa’ e vai ‘salvar todo mundo’.

O povo quase parte para cima de Yad, mas Gabay acalma os ânimos mais uma vez.

Gabay, diz então: Uma última história por hoje. Quando tinha uns doze anos, Jesus deu uma escapulida enquanto seus pais iam para Jerusalém na caravana da Páscoa. Na volta, eles deram falta dele, achando que estava na turma. Depois de um dia, começaram a procurar desesperados. Só acharam o moleque no terceiro dia, sentadão no templo, batendo papo com os doutores da lei, deixando todo mundo de queixo caído. Maria, chegando lá, disse: "Meu filho, a gente tá pirando te procurando”. Jesus, numa boa, respondeu: "Ué, por que estão preocupados? Vocês ainda não sabem que estou cuidando dos negócios do meu Pai?". Os doutores e fariseus, querendo botar lenha na fogueira, perguntaram se Maria era mãe dele. Ela, toda orgulhosa, confirmou, e eles soltaram: "Parabéns, você é abençoada! Esse garoto é especial, nunca vimos nada igual!" Jesus, educado como sempre, saiu de fininho e seguiu Maria. Ela guardou tudo isso no coração enquanto Jesus ia crescendo, ficando mais sábio e mais gente boa a cada dia.

Yad, rindo feito louca: O psicopatinha que matava e cegava as pessoas e depois as curava só para se mostrar, agora é ‘o bonzinho’, quase um santo! É assim, pela aceitação acrítica de tudo, pelo delírio coletivo e total distorção da realidade, que as farsas se tornam coisas verdadeiras.

Gabay riu e finalmente disse para Yad: Yad, a sábia!

E todo o povo riu de Yad na medida em que foram se dispersando. FIM.

 

Este texto acima é uma sátira humorística do Evangelho de Tomás Pseudo-Tomé que foca na infância de Jesus dos cinco aos doze anos. Nele, Jesus é retratado de maneira malcriada, perturbada, birrenta e vingativa. Ele xinga outras crianças que o irritam, as castiga com doenças ou até a morte, causa cegueira nos vizinhos e até mata um professor que o repreende. É claro que as religiões rejeitam o tal evangelho, chamando-o de apócrifo, falso, etc, mas, como diz o dito popular: onde há fumaça, há fogo! Será? Tire você, caro leitor, cara leitora, as suas próprias conclusões.

 

"Há muito mais coisas na história da humanidade, coisas que lhe trariam uma insônia brutal jamais antes vivida, uma inquietude que destruiria a sua miserável vida cômoda, um terror que lhe deixaria louco ou que talvez o despertaria. Há muito mais coisas na história da humanidade, coisas que a sua vã sabedoria, seus títulos acadêmicos, suas baboseiras canônicas e seu tragicômico conhecimento sequer desconfiam."  (K4n)

 

 

ABAIXO, LINK DE UMA TRADUÇÃO  DO EVANGELHO DE TOMÁS PSEUDO-TOMÉ, DE IGREJA CRISTÃ PAULINA: >>>>>>>> https://cutt.ly/he8j8PTx 

 

 

 

== Barafunda ==

 

Na pequena cidade de Ilusia, onde o sol nascia e se punha sem jamais alterar sua rota, vivia um velho homem conhecido como Barafunda, chamado de Sábio e Mestre pela maioria dos poucos que ali habitavam. O Sábio, cujo nome fora concedido por gentileza e não por mérito, passava os dias a meditar sobre as grandes palhaçadas da vida, como gostava de dizer. Ele morava numa Quitinete modesta decorada com livros, cuja a maioria nunca lera e coisas velhas de sebos que pareciam coisas científicas que nunca usara, mas que serviam para impressionar os curiosos que iam até ele para ouvir seus conselhos e discursos tresloucados. Contudo, o que Barafunda gostava mesmo é de ir à praça sempre ao final da tarde, sentar no banco debaixo de uma árvore, sempre na companhia de um livro que gostava de ler e reler ao infinito, e bater papo com os curiosos que por ali aparecessem.

Certo dia, após um longo e tedioso monólogo sobre a transitoriedade da vida, um jovem ousou questioná-lo.

— Mestre Barafunda, você diz que tudo é ilusão, que todo esforço é vão, e que, no fim, nada importa. Mas se nada importa, por que continua a falar? — perguntou o jovem, esboçando um sorriso de ironia.

Barafunda ajeitou a velha manta surrada e lançando um olhar teatral sobre a plateia, respondeu:

— Ah, meu jovem, você fala como quem ainda acredita na vida. Eu, que já vivi muito mais do que tu, sei que falar é uma forma de suportar o tédio do silêncio. Se tudo é ilusão, ao menos posso iludir-me com o som da minha própria voz.

Os presentes riram, mas o jovem insistiu:

— Se a sabedoria é tão inútil quanto a tolice, por que te chamam de Sábio? Por que não te chamam de Tolo Barafunda ou Barafunda, ‘o Babaca’? Sem ofensa.

— Aí está uma excelente questão! — exclamou Barafunda, alisando a barba desgrenhada. — Mas vê, meu caríssimo jovem curioso, neste mundo, a linha entre o sábio e o tolo babaca é tão fina que tropeçamos nela todos os dias. O segredo está em cair de pé sempre do lado que te oferece mais aplausos.

A pequena multidão, embora não entendendo bulhufas do que tinha sido dito, aplaudiu. O jovem, contudo, não se deu por vencido.

— E quanto ao trabalho, mestre? Todos trabalhamos feito bois ou cavalos para levar uma vida mais ou menos digna. Mas vós dizeis que tudo é correr atrás do vento. Então, por que não nos abandonamos e nos deitamos todos e deixamos o mundo seguir seu curso?

Barafunda abriu um sorriso enviesado refletindo com um ar de cansaço. Mas, respirou fundo e voltou a falar.

— De certa forma, meu caríssimo jovem inquiridor, 99,999% dos animais falantes que se acham pensantes já se abandonaram. Quase todos vivem uma vida fake numa sociedade fake, cheia de idiotas comandada por canalhas, corruptopatas, politicopatas, religiopatas e outros tipos hediondos, assassinos, golpistas, estupradores e ladrões. Quase todos vivem com a fuça no celular enchendo a mente de lixo quase todas as horas do dia, fingindo que está tudo bem, enquanto são usados pelos pouquíssimos filhos da puta mega ricaços, menos de 1% da população mundial que detém 99% das riquezas da Terra e que se acham donos das cidades, dos estados, dos países e do Planeta e ‘o próximo passo da evolução do homo sapiens. Quase todos os bilhões de indivíduos deste mundo insano, se abandonaram e deixaram de viver a vida que gostariam de viver, ainda que simples, para viver uma vida fake, uma vida de faz de contas, uma vida de ilusões que lhe enfiaram goela abaixo através do apego doentio às coisas materiais, do sistema educacional feito para favorecer as elites e que treina o povão desde cedo para ser ‘um bando de cordeirinhos obedientes ao abate’, do sistema dinheirista, do marketing massivo e das absurdas redes umbrais sociais. Então, se todos parassem de trabalhar feito bois e cavalos, como você disse, o sistema ruiria. Além do que, se todos deixassem de trabalhar, como bois e cavalos, quem iria nos enterrar quando a ilusão da vida em sociedade chegasse ao fim? — Barafunda deu uma piscadela. — Vê, trabalhar é uma outra forma de passarmos o tempo enquanto esperamos pela morte, esse inevitável dos inevitáveis. Como o bom vinho, o trabalho nos embriaga com a ilusão de propósito.

— Então, o que resta de valor nesta vida, mestre Barafunda? — indagou o jovem, agora mais sério.

— Ah, a vida, essa nobre palhaçada! — disse Barafunda, erguendo as mãos ironicamente ao céu. — O que resta de valor, você pergunta? Comer, beber, e encontrar alguém tolo o bastante para rir das idiotices que você fala e faz! E se possível, ama, jovem! Mas, ama com a certeza de que o amor também é uma puta ilusão!

O jovem franziu o cenho, mas Barafunda, percebendo o desconforto, completou:

— E, quando tudo mais falhar, quando tudo tiver ido para o brejo e nada mais fazer sentido, quer dizer, quando você descobrir que trabalhar feito boi ou cavalo não te deixará rico, que respeitar as leis, pagar impostos, ser certinho, bonzinho e rezar todos os dias não te livrará de ser só mais um infeliz na multidão de infelizes ou até mesmo ser morto por qualquer drogado na rua, sobretudo, quando você perceber que a vida humana, diante da imensidão cósmica interestelar é vazia de sentido, que como a dos dinossauros está fadada à extinção e que ninguém tem certeza alguma sobre o ‘além’, sobretudo, que a maioria das crentelhices são babaquices e conversas para boi dormir, isto é, quando você de fato entender que tudo é uma grande e tragicômica ilusão, tente, se ainda tiver mente, saco e estômago, se for possível, criar um novo sentido, ressignificar a sua própria vida e viver, na mais absoluta simplicidade e desapego, para si mesmo e os pouquíssimos de verdade que ainda estiverem por perto, ainda que tudo isso também seja uma baita ilusão. Senão, siga fazendo as mesmas merdas de sempre. Afinal, não estamos aqui como o Zaratustra do Nietzsche que dizia que veio ‘para apartar-vos do rebanho’. Eu não vim para apartar ninguém de nada. Cada cabeça, uma sentença. Quem quiser continuar se fodendo, que se foda. Simples assim.

A multidão, mesmo não entendendo quase nada, riu amistosamente. Até o jovem riu, embora seu riso tivesse uma estranha melancolia.

Naquela noite, após umas horas de falação, Barafunda voltou para sua modesta ‘baiúca’ estranhamente contente. E enquanto observava o vento soprar as folhas secas da estação, murmurou para si mesmo:

— Ah, vida... que bela piada. Só espero que Deus, ou quem ou o que quer que tenha criado tudo isso, a vida na imensidão cósmica interestelar, tenha bom humor, porque se for sádico ou sacana, estamos todos ferrados! FIM

Apartar ninguém

Zaratustra, em seu tragicômico lirismo idealista,

fruto da anti-convalescença de seu criador em desespero,

 disse que veio ‘para apartar-vos do rebanho’.
Para mim, tanto faz.
Quer continuar a fazer parte do rebanho?
Foda-se! O problema é teu!

Querem destruir o Planeta

e se desintegrarem na imensidão sideral?

Vão em frente!
Afinal, nada e ninguém poderá impedir

 a sua natureza auto-destrutiva.

Por isso, eu não vim para apartar nada e ninguém.

Cada espécie tem seu começo, meio e fim.

 

 

 

 

 

 

 

==  A Ilha das Mulheres ==

Era uma vez, num voo transatlântico cheio de promessas e maravilhas capitalistas, um grupo de distintas damas viajando para uma conferência de negócios e empoderamento feminino. Era um desses muitos eventos em que uma mulher muito esperta, beirando ao estelionato, vende um curso para vender cursos a outras mulheres, no mais escancarado esquema de pirâmide. Elas, claro, nunca poderiam prever que aquela ida ao ‘maravilhoso evento’ se transformaria numa tragicômica, mas também dramática e terrível história numa ilha distante de tudo, no meio do nada.

O avião, fretado de uma empresa sem nome e endereço conhecidos, com suas velhas poltronas acolchoadas e aperitivos de baixa qualidade, mas cheios de penduricalhos para fazer de conta que se tratava de uma classe especial, de repente entrou em turbulência. A gritaria, natural, deu início seguida por uma dramática queda livre, fazendo com que a aeronave fizesse um pouso forçado numa ilha deserta. Claro, entre socos e solavancos, o avião foi se despedaçando, derrubando tudo e quebrando tudo o que acertasse pelo caminho. E um galho de árvore cruzou o vidro matando o piloto, único Homem assumido na história. Agora na cidade dos pés juntos, o pobre piloto como fantasma talvez vagasse em algum lugar da ilha, fazendo companhia às lendas de seres que perambulam sem sentido no vazio desolador da ‘vida além da vida.’

Após a queda, todas as Mulheres de nascença e os homens de nascença, mas que se identificavam como mulheres, estavam se recompondo em meio aos destroços do avião. E naquele cenário paradisíaco, cercadas por palmeiras e uma lagoa azul-turquesa, as Mulheres e ‘as outras mulheres’ desceram do avião, ainda em choque, principalmente, por não poderem chegar ao evento de empoderamento feminino, o que constituía a maior tragédia de todas, claro. Entre elas estavam:

Mariana, a líder nata, cujo salto alto ainda permanecia intacto, como símbolo de sua indestrutível autoridade.

Beatriz, a estrategista, sempre com um plano na manga (e uma ou duas barras de proteína).

Cláudia, a pacificadora, conhecida por sua voz suave e paciência infinita e suas garrafas de Rum escondidas na imensa mala que procurava desesperadamente.

Helena, a aventureira, já pensava em transformar coqueiros em cabanas e cocos em bebidas de eventos chiques, com as Vodkas que esperava ter sobrevivido no pequeno, mas recheado bar do avião.

E também havia os quatro homens que se identificavam como mulheres:

Roberta, que era anteriormente Carlos, com mais desenvoltura na passarela que qualquer uma das outras, toda falante, com uma ficha criminal que daria inveja até nos mais lunáticos dos bandidos de uma cidade grande, fazia de tudo para esconder tal fato.

Patrícia, ex-Cleiton, tinha habilidades distintas como a habilidade para escalar árvores, muros de residências e pequenos prédios residenciais, o que poderia deixar qualquer um boquiaberto.

Francisca, outrora Geroslau, se achava mestre na arte do improviso e de transformar folhas de bananeira em trajes dignos de desfile.

Geralda, antes chamado de Deoclésio, achava ser dona de um talento para decorar coisas de improviso e que, por isso, rivalizava com qualquer programa de reforma de interiores.

Apesar da desgraça toda, Mariana logo convocou uma reunião de emergência, segurando uma concha como se fosse um microfone dourado. "Precisamos de uma líder", declarou, olhando em volta com aquele ar de quem já sabia a resposta.

- "Eu voto na Mariana!", gritou Roberta (que em sua outra vida era Carlos), ajustando o lenço de seda no pescoço, ainda que molhado de suor. "Ela combina com o papel de chefe da ilha, já que é a organizadora do voo que nos levaria até o evento, nada melhor que ela para nos guiar.”

- "Concordo", disse Beatriz, enquanto fazia anotações num bloco improvisado com folhas de palmeira. "Precisamos de organização. E Mariana tem o dom da liderança."

- "Maravilha!", exclamou Helena. "Mas precisamos organizar as tarefas. Quem vai caçar, encontrar comida? Cozinhar? Quem vai montar os abrigos?"

Roberta (Carlos) e Patrícia (Cleiton) se ofereceram imediatamente para explorar a ilha, com Patrícia acrescentando: "Tenho certeza de que posso encontrar algo mais substancial que essas barras de proteína e esses troços que se perderam na areia com o avião ao se despedaçar."

Elas se uniram, pegaram o corpo do piloto e o enterraram com dignidade, até uma oração fizeram. E os dias foram passando. Os primeiros dias na ilha foram pacíficos, parecia até a Temiscira.

Roberta/Carlos e Patrícia/Cleiton tornaram-se as caçadoras, coletoras e as responsáveis pela manutenção geral dos abrigos e coletores de água, trazendo frutos exóticos e, ocasionalmente, algum peixe pescado pondo em prática técnicas que ninguém sabia de onde elas tiravam, nem elas ao certo. Mariana organizava reuniões diárias, onde distribuía tarefas e mantinha o moral elevado com discursos de Coach.
No entanto, à medida que os dias se transformavam em semanas, uma tensão crescente começou a se formar. Roberta/Carlos, Patrícia/Cleiton, Francisca/Geroslau e Geralda/Deoclésio, cada vez mais ‘paranoicas e sempre confabulando’, começaram a tomar controle de tarefas vitais e a impor sua vontade sobre as outras. A força física e o instinto masculino primitivo que possuíam, mesmo identificando-se como mulheres, começou a prevalecer sobre a autoridade de Mariana, que confessou a Beatriz, Cláudia e Helena: “você viu como eles nos olham?”.

- Helena, meio que sentindo um frio na espinha com a observação de Mariana, mas sorrindo levemente disse: “Largue mão, agora eles são elas, eles vivem como mulheres, não sentem atração por nosso sexo, no máximo o que pode acontecer é eles se atracarem entre si”.

- Beatriz, cabreira, desconfiada, disse: “O que impediria esses sujeitos de nos violentarem aqui no meio do nada?”.

- Cláudia, meio desesperada: “Parem de falar essas coisas! Temos de nos manter unidas! Eles, quer dizer, elas são gente como a gente”.
Uma noite, enquanto as Mulheres dormiam nas suas cabanas improvisadas num ponto da praia, no outro ponto da mesma praia, os homens que se identificavam como mulheres, Francisca, Geralda, Roberta e Patrícia confabulavam em torno da fogueira.

- "Nós precisamos tomar o controle total dessa situação", disse Francisca, com sua voz grossa ameaçadora. "Somos mais fortes, mais capazes. E elas estão começando a enfraquecer."

- "Mariana não tem mais controle", concordou Geralda, seus olhos brilhando na escuridão. "E outra: e se nunca nos acharem? Temos de sobreviver de alguma maneira, pois aqui é A Lei da Selva e, por isso, temos de esquecer tudo o que fomos até agora, quer dizer, está na hora de uma nova ordem. Os fracos devem servir os fortes.”

- Patrícia sorriu um sorriso lunático e disse: “Sempre prevaleceu a moral dos mais fortes. Em toda a história da humanidade e agora não será diferente.”

- Concordo plenamente, disse Geralda rindo enquanto apalpava seu membro no meio das pernas.

Na manhã seguinte, a atmosfera estava carregada de tensão. Mariana, ao perceber que algo estava errado, tentou convocar uma reunião. Mas antes que pudesse falar, Francisca a interrompeu, arrancando a concha de suas mãos.

- Agora não mais com a voz afeminada e amistosa de sempre, Francisca tirou a peruca e disse: "Já faz mais de mês que estamos nessa ilha infernal. Não temos nenhuma comunicação com ninguém da civilização e não vimos nenhum navio passando, nenhum avião sobrevoando. Quer dizer, pode ser que nunca mais sejamos encontradas. Portanto, estamos no comando agora", declarou Francisca, com sua voz fria e cortante.

- Roberta, também agora com voz masculina forte, então disse: “E vocês obedecerão a nós."

- Geralda, com barras de ferro que pegou dos destroços do avião, e também com voz masculina grossa, complementou: “E quem de vocês não obedecer, já sabe o que acontece”.

E distribuiu as barras de ferro aos outros homens que se identificavam como mulheres.

Mariana tentou resistir, mas no primeiro momento que ergueu a voz, levou um tapa na cara dado por Roberta, que lhe fez rolar pelo chão.
As outras mulheres, temendo pela própria segurança, cederam ao novo regime tirânico. Sob a liderança implacável de Francisca, Geralda, Roberta e Patrícia, homens que se identificavam como mulheres, a vida na ilha tornou-se um inferno para as Mulheres de nascença.
As tarefas foram divididas de forma arbitrária e desigual. As mulheres eram obrigadas a cozinhar, trabalhar incessantemente, construindo abrigos melhores e procurar mais alimentos sob a vigilância dos novos líderes. Qualquer sinal de desobediência era punido severamente.
Mariana, uma sombra da líder que fora, era mantida sob constante vigilância. Beatriz, Cláudia e Helena tentavam manter a esperança viva, mas cada dia trazia novos desafios e castigos intransponíveis, principalmente, castigos mentais: “E se eu tivesse ficado em casa com a minha família? Nada disso estaria acontecendo”, dizia Helena chorando silenciosamente.
Os meses, que pareciam anos, passaram e a esperança de resgate se desfez. A ilha, antes paradisíaca, transformou-se numa prisão infernal. As mulheres, agora escravizadas, lutavam para sobreviver sob o jugo dos quatro tiranos que já nem mais faziam questão de serem chamados pelo nome de mulher.
Numa noite de tempestade, uma tentativa desesperada de fuga foi feita. Mariana, Beatriz, Cláudia e Helena, exaustas e famintas, tentaram escapar para a outra ponta da ilha. Mas Geroslau (antes chamado de Francisca) e Cleiton (Ex-Patrícia), estavam à espreita, como predadores.
Eles correram para impedir as fugitivas e deram-lhe uma surra que elas jamais imaginariam que levariam. Caídas na areia, vendo seu sangue manchando o chão paradisíaco, Mariana e Beatriz foram as primeiras a sentirem os enormes membros duros dos homens invadindo seus corpos.
Enquanto Geroslau (Ex-Francisca) e Cleiton (Ex-Patrícia) fodiam as cativas, Carlos (Ex-Roberta) e Deoclésio (Ex-Geralda) se aproximaram e pegaram as outras duas fugitivas restantes, Cláudia e Helena, e as foderam sem dó, nem piedade. Depois, os homens que antes se identificavam como mulheres, em sua brutal primitividade, alternaram de vítimas, numa orgia bizarra e macabra. Depois de violentarem suas vítimas várias vezes, eles as obrigaram preparar uma refeição, enquanto bebiam o Rum que acharam escondido na mala de Cláudia.

A noite se tornou mais longa para as mulheres.

Contudo, passados alguns dias, as mulheres, vendo que nada mais poderiam fazer, desesperadas, tramaram confrontar os homens com as facas improvisadas da ‘cozinha da praia’. E assim, ao cair de mais uma noite em que seriam outra vez brutalmente abusadas, um confronto final ocorreu nas sombras das palmeiras. Gritos de dor e medo ecoaram na noite enquanto uma tempestade rugia. No fim, infelizmente, como já era de esperar num combate corpo a corpo, a força bruta prevaleceu.
Mariana, a última a cair, olhou para o céu, suas últimas palavras se perdendo no vento, sussurrante, disse: "A força vence, sempre".
Geroslau, antes chamado de Francisca, com os olhos sombrios e um sorriso cruel, olhou para o corpo inerte: "Sim, Mariana. A força sempre vence."
E assim, na Ilha das Mulheres, a esperança morreu por conta da ingenuidade suicida, violentada pela brutalidade e pela tirania, sobretudo, pelo demônio primitivo que vive dentro do Abismo de cada indivíduo que habita esse Planeta e que só espera a oportunidade de vir à luz. As mulheres que idealizavam um empoderamento sem fim, encontraram apenas desilusão e desespero, mostrando que, na maioria das vezes, na selvageria da vida humana, sem lei e ordem, sob o absolutismo da primitividade, a força bruta e a capacidade de matar e violentar, sem nenhum peso na consciência, é a única lei que prevalece. FIM

 

 

 

 == Poço Mental ==

 

A mente humana às vezes é como um abismo infernal cheio de poços macabros com demônios, monstros, espíritos perdidos e espectros vagando por toda a parte. Por isso, encarar o abismo é uma coisa que qualquer um faz, várias vezes durante a vida. Mas cair dentro desse abismo, ser jogado nele ou pular nele de livre e espontânea vontade, estar dentro desse abismo, sobreviver a ele, caminhar por ele, senti-lo, vivenciá-lo, absorvê-lo, aprender com ele e, como um novo tipo de ser, brutalmente transformado, retornar...isso, é para poucos. Na verdade, raríssimos são os que conseguem retornar desse abismo. A maioria dos indivíduos apenas observa o abismo à distância, porque sabem que não retornariam.

Numa manhã nebulosa dos primeiros dias de novembro, a cidade de Perdidos acordava lentamente. A casa número 103 da Rua Santo Antônio escondia segredos sombrios e silenciosos que só Roberto, um jovem professor de Letras, conhecia. Ele olhava fixamente para o teto ouvindo suas músicas pesadas preferidas enquanto os pensamentos mais tenebrosos iam e vinham em sua estranha e solitária mente. Hoje era o dia que ele planejava há meses.

— Laura, o café está pronto! — chamou Isabel, uma mulher de 56 anos com uma expressão sempre gentil embora fosse nítido o cansaço dos anos em sua face, enquanto terminava de arrumar a mesa. Laura, uma bela jovem de 23 anos, estava no penúltimo ano da faculdade de pedagogia, sonhava com um futuro melhor e com todas as coisas que as pessoas comuns sonham, enquanto a irmã mais nova, Ana, de 20 anos, já era enfermeira, mas como quase todos os jovens em todas as épocas, ansiava por novas aventuras.

Roberto, um jovem magricelo e alto de quase 30 anos, que tinha um jeito esquisito de olhar, andar e falar, sempre taciturno, entrou na cozinha, os olhos vazios, mas um sorriso forçado nos lábios.

— Obrigado, mãe. Precisamos conversar sobre algo importante mais tarde — disse ele, sentando-se à mesa enquanto tomava a xícara de café e ajeitava seus óculos olhando para a mesa e para o nada e o vazio que ele via além da mesa.

Isabel olhou para aquele tipo estranho, franziu a testa, sentindo uma sombra de preocupação e um leve frio na espinha, mas acenou com a cabeça, consentindo.

— Claro, filho. Vamos falar, sim...

Isabel sentia algo ruim naquele rapaz, desde o seu nascimento. Era como se uma sombra obscura de uma energia muito ruim pairasse sobre ele.

As irmãs chegaram logo depois, ainda sonolentas, e começaram a comer. Laura, sempre curiosa e irônica, perguntou:

— E então, Roberto, qual é a grande novidade?

Roberto olhou friamente para ela, com o já conhecido sorriso forçado.

— Vamos fazer uma viagem até a cidade do tio Lu. Todos nós.

Tio Lu era o preferido das irmãs e morava numa cidade próxima de Perdidos.

— E o que tem para fazer lá, Roberto? — perguntou Laura.

Ele olhou para a janela e além dela, observando uma ave que voava em círculos no horizonte, com o olhar frio e deprimente, mas sempre dissimulado, típico de psicopatas, sociopatas e outros tipos abomináveis que tem aos montes na sociedade.

— É uma oportunidade única. Precisamos resolver algumas coisas lá. Confie em mim, tudo ficará bem — respondeu Roberto, tentando esconder certa tensão na voz.

Ana, sempre otimista e sorridente, típico dos jovens que ainda não foram espancados pela vida, sorriu.

— Uma viagem? Isso pode ser divertido! É pertinho e o tio Lu é muito legal!

Isabel, embora apreensiva e sentido aquele aperto no coração que toda mãe sente ao olhar para os filhos, especialmente, para filhos problemáticos como Roberto, decidiu não questionar. Apesar de tudo, o que poderia dar errado em confiar no próprio filho? Ademais, ele sempre foi assim, desde criança, fechado, na dele.

O dia passou normalmente. Como um dia normal de novembro no frio fora de época do Sul.

Contudo, a noite chegou. E naquela noite, quando a pequena e pacata cidade de Perdidos estava mergulhada no silêncio, Roberto agiu.

Armado com uma faca, cujo fio parecia o fio de um bisturi, ele se aproximou da mãe que lia um livro, deitada no sofá da sala.

— Roberto, o que você está fazendo com isso? — perguntou Isabel, com os olhos arregalados de terror visualizando a faca.

Olhando friamente para a mãe, mas com um sorriso insano de canto de boca, ele foi se aproximando rapidamente.

— Desculpe, mãe. Não há outra maneira — murmurou ele, antes de partir para cima e esfaqueá-la no pescoço, dando várias estocadas seguidamente.

Nem deu tempo da mãe gritar. Laura, dormia no quarto do meio. E foi para lá que Roberto, o esquisito, se dirigiu rapidamente, com a faca toda ensanguentada.

Ele abriu a porta devagar e viu a irmã deitada dormindo com a TV ligada. Por um momento, ele parou e observou a beleza incomensurável de uma jovem de 23 anos, e pensou que poderia ter um momento de prazer insano. Então, ele começou a se masturbar com uma das mãos olhando a irmã dormir, enquanto segurava a faca ensanguentada com a outra mão. Para gozar, ele se aproximou do rosto angelical da sua irmã e jorrou como o maníaco lunático que era. Um ato tenebroso, sem dúvida, mas infinitamente prazeroso para Roberto, o assassino punheteiro.

Ao sentir o sêmen molhando sua face, Laura acordou sem saber o que estava acontecendo e viu o irmão com o pau numa das mãos e na outra mão a faca cheia de sangue. Laura, aturdida, de imediato tentou gritar, mas Roberto cravou a faca na sua garganta tão fundo que o cabo, em parte, chegou a entrar junto com a lâmina. Laura, 23 anos, cheia de sonhos, morta ali na cama, numa noite qualquer, com uma facada mortal desferida por um indivíduo que ela, nem nos seus piores pesadelos, imaginaria que fosse capaz de tal atrocidade.  

Depois de matar a mãe e a irmã, Roberto se livrou dos corpos os levando até o poço que ficava no quintal da casa e tranquilamente as jogou dentro, como se jogasse entulhos inúteis. Calmamente, ele voltou para dentro da casa, abriu o conhaque, pegou um cigarro, bebeu, fumou, depois limpou tudo com muita tranquilidade. Jogou todos os panos, os celulares que quebrou, os lençóis e tapetes ensanguentados no poço.

“Agora é só esperar a Ana chegar”, dizia Roberto para si mesmo. 

Para dar fim na irmã mais nova, que trabalhava à noite no hospital como enfermeira e chegava por volta das oito da manhã, ele resolveu pegar o velho revólver do falecido pai, que a mãe guardava no armário da dispensa, ‘para o caso de um dia os comunistas tomarem conta do País e resolverem invadir as casas das pessoas de bem’, como ela dizia.

Entre um gole e outro do conhaque, Roberto limpava o revólver nas poucas horas que faltavam para amanhecer e ficava a imaginar as mil e uma atrocidades que poderia cometer com a outra irmã.  

Ana, que voltava do trabalho, entrou pela porta da frente, deixou suas coisas no sofá, foi direto para a cozinha e parou congelada ao ver o irmão sentado à mesa, com um copo de conhaque na mão, olhando pela janela, a mesma ave de outro dia.

— Roberto? O que aconteceu? — perguntou ela, com a voz trêmula.

— Sinto muito, Ana — disse ele.

— Pelo quê?

— O tio Lu morreu, disse o mentiroso sacripanta.

— Ana, como que levasse um soco no estômago, mas acreditando no que ouvira, respondeu: meu Deus! Como?

— Ataque do coração, disseram. A mãe e a Laura foram bem cedo para lá.

— Meu Deus! Vou mandar uma mensagem para elas. Quando nós vamos para lá, Roberto?

— Antes do meio-dia. Estou esperando o pessoal da funerária ligar.

— Ana, chorando, vai de encontro ao irmão e lhe dá um abraço.

— Roberto, frio diz: está tudo bem. Vá dormir um pouco, porque o dia será longo.

— Mandei mensagem para a mãe, vou tomar um banho, um café e esperar com você para então irmos para lá.

— Claro, tudo bem, disse Roberto, o cínico.

Cansada da noite de trabalho, Ana passou pelo corredor, viu a porta do quarto de Laura fechada, mas não deu bola e se dirigiu até o seu quarto que ficava ao fundo do corredor. Tirou suas roupas e foi ao banheiro tomar banho. Nisso, Roberto pegou o revólver, colocou na cinta atrás da calça e o cobriu com a camiseta comprida que usava e foi ao banheiro.

— Preciso usar o banheiro, Ana.

— A irmã, já debaixo do chuveiro, diz: tudo bem, entre, afinal, somos irmãos.

— Roberto entrou, ergueu a tampa da privada, sacou seu pau, urinou e ficou olhando a irmã que estava de costas entre as toalhas no box.

— Está quentinho?

— Ana de costas para Roberto, diz: é... tá.

— Roberto meio se masturbando olhando a irmã: dá vontade de entrar junto com você.

— Ana: tá louco?

— Roberto, o psicopata tarado, diz: tô brincando.

E sai.

Ana ficou se banhando num misto de surpresa e também com um estranho tesão, coisa que sempre acontece nessas situações em que os sexos e as energias sexuais se aproximam, suplantando de maneira doentia todas as regras e todas as convenções sociais, morais, religiosas, espirituais e que fazem a mente imaginar milhares de coisas em milésimos de segundos. Mas, deixou para lá. Afinal, seu tio preferido havia morrido e ela precisava ir para junto de sua mãe e irmã.

Com os corpos das duas mulheres que havia matado antes, Roberto trabalhou meticulosamente. Ele envolveu cada um em panos, os enrolou com barbantes e fitas adesivas e os jogou no poço que tempos antes havia cavado no quintal. Ana, ainda chocada com a suposta morte que ocorreu na família, e cansada da noite de trabalho, nem conseguia observar os detalhes de um crime horrendo que fora cometido na sala.

Enquanto Ana se arrumava para tomar café, Roberto entrou sorrateiramente no quarto, abraçou a irmã e com o revólver na altura do coração, atirou. A casa fechada e a proximidade do disparo meio que abafaram o som. Ana, em choque profundo, não entendia o que estava acontecendo. Ela olhou para o irmão, olhou para o buraco ensanguentado no peito e desabou no chão.

Enquanto a vida da irmã se esvaía, Roberto se abaixou com o revólver na mão, olhou para ela e disse: como pode ser tão burra? Foda-se! É isso que vadias feministas como você, merecem.

Então, ele enrolou a irmã em panos velhos, com barbantes e fitas adesivas, como fez com a mãe e a outra irmã, mas esperou um pouco, tomou mais conhaque, fumou uns dois cigarros e só depois a arrastou até o poço e a jogou. Nenhum vizinho poderia escutar, afinal, a casa da família de Roberto ficava a uma distância considerável das outras casas e para qualquer um que ouvisse, parecia que era só uma pedra caindo num poço.

— Aqui, ninguém jamais encontrará vocês, suas putas… — murmurou para si mesmo.

Roberto voltou para a casa, limpou tudo, tomou um banho, tomou mais um conhaque e tirou uma soneca no sofá onde tinha trucidado a mãe. Já era quase noite outra vez quando ele foi ao quintal. Sentiu um cheiro forte vindo do poço e pensou: ‘é melhor soterrar essa porra antes que alguém mais sinta o fedor dessas vagabundas. Mesmo mortas me enchem o saco, essas malditas’, dissera.

Na manhã seguinte, Roberto comprou um caminhão de terra. A loja de materiais de construção trouxe e despejou na frente da casa. Roberto passou aquele dia todo levando a terra com o carrinho de mão até o poço, mas conseguiu soterrá-lo, com os corpos dentro. Depois, no dia seguinte, ele comprou areia, pedra e cimento e fez uma calçada de improviso por cima da tampa do poço macabro. Os vizinhos viram aquele movimento todo, mas ninguém quis saber do que se passava, afinal, hoje em dia quase ninguém mais quer se envolver na vida dos outros, principalmente por medo. Além do que, Roberto não era um sujeito que conversava com as pessoas. Então, quase ninguém se aproximava dele, nem mesmo na escola onde lecionava. Era só ‘bom dia, boa tarde, oi, olá, tchau, vai chover hoje, algum comentário sobre notícias da TV’, etc. Nada mais que isso. Ele não dava brecha para ter qualquer ligação com quem quer que fosse. Quer dizer, Roberto vivia só no seu mundo insano e parecia gostar muito disso.

— Prefiro mil vezes os demônios da minha própria mente do que os demônios das mentes dos outros, dizia a si mesmo em seu reino solitário e tenebroso.

Nos dias seguintes, Roberto agiu como se nada tivesse acontecido e até demonstrava um tímido bom humor. Mas, estando no mercado, uma velha vizinha ousou perguntar a Roberto: como vai a mãe e as irmãs? Não as tenho visto esses dias. Isabel sempre vinha ao mercado às quintas.

— Roberto, pressionado mas frio como um bloco de gelo, disse para a velha curiosa que a mãe e as irmãs foram para a cidade vizinha cuidar de uma tia doente.

—  Câncer no cérebro, disse ele.

E antes que a velha estendesse a conversa, ele disse-lhe ‘bom dia’ e se mandou.

A velha mexeriqueira, como já era conhecida no bairro, achou estranha aquela história e ficou olhando Roberto entrar no carro e se mandar.

Mais dias se passaram e amigos das mulheres vieram até a casa e perguntaram sobre o paradeiro delas.

Roberto, mais pressionado ainda, mas ainda assim frio como um iceberg, disse que as mulheres da casa foram cuidar da tia com câncer e que a casa lá ficava no interior, onde celular não pega, mas que em breve estariam de volta e todas as desculpas esfarrapadas que um maníaco psicopata dá a quem ousa lhes apoquentar com perguntas sem fim.

— Bando de filhos da puta. Como se ligassem de verdade para aquelas vacas. Eu bem que poderia matar todos eles, mas não tenho mais poço para meter tanta gente dentro - dizia o tenebroso Roberto após fechar a porta.

As pessoas mesmo achando tudo muito estranho, no final acabam por achar compreensível, afinal, era uma questão de família e tudo parecia explicado por Roberto que não demonstrava nenhum tipo de nervosismo.

Mas, ninguém escapa da marcha do tempo. As mulheres não voltavam e não respondiam as mensagens enviadas pelos amigos.

Até que um dos amigos da mãe do maníaco resolveu ir ter novamente com ele. Indagado Roberto, o amigo então ouviu da sua boca cínica e mentirosa, que Isabel, Laura e Ana haviam falecido em um acidente de carro quando estavam saindo do interior em outra cidade, após deixar a tia aos cuidados de outros familiares.

Disse ainda que o funeral já havia acontecido dois dias atrás na cidade vizinha e que todas as três foram enterradas no cemitério da família da tia doente.

O amigo, profundamente surpreso, chocado, mais desconfiado do que chocado, fez mais perguntas que Roberto se recusou a responder, alegando estar passando pelo luto e que não estava para conversa.

Roberto convidou o amigo da mãe a se retirar da casa.

O amigo, terrivelmente chocado, se foi, mas foi matutando sobre o que de fato teria acontecido com as três mulheres.

Novembro se foi e já era quase véspera de Natal. Roberto seguiu vivendo normalmente, como se nada tivesse acontecido. Deu aulas até o dia 15 de dezembro e depois a escola entrou em recesso.

Tudo parecia ir muito bem no reino macabro de Roberto.

E numa bela manhã do dia 23 de dezembro, a polícia bateu à porta de Roberto, com um mandado de busca e apreensão, acompanhada pelo Corpo de Bombeiros, cães farejadores e a coisa toda.

Como se tudo aquilo fosse algo normal, Roberto rindo de canto de boca como sempre, e não tendo escolha diante do impositivo legal, deixou que os agentes entrassem. No fundo, ele sabia que seu crime perfeito, de alguma maneira tinha sido descoberto e que o seu reino homicida tinha desabado. Contudo, mesmo assim, diante da ‘casa caindo’, Roberto se mostrava como um monge budista, imerso na mais absoluta tranquilidade.

— Senhor Roberto, precisamos ver o poço que você soterrou recentemente — disse um dos policiais.

— Claro, fiquem à vontade — respondeu Roberto, guiando-os até o quintal.

Os bombeiros quebraram a camada de concreto e começaram a escavar, e o cheiro pútrido rapidamente revelou a verdade horrível.

Roberto, vendo que seu segredo seria exposto, entrou na casa sob o pretexto de ir ao banheiro. Ele trancou a porta e, com as mãos trêmulas, pegou o velho revólver com o qual tinha assassinado a irmã mais nova.

— É…Chega uma hora que não tem mais volta e não há mais escapatória - disse mentalmente.

Então, Roberto sentou sobre o vaso sanitário, engatilhou o revólver, apontou para o coração e começou a cantar baixinho, quase sussurrando, um trecho da música, ‘C'est La Vie’, de Emerson Lake And Palmer —.  

Enquanto isso, lá fora, enquanto retiravam os restos mortais das mulheres do poço, os agentes da lei só ouviram o barulho do tiro.  FIM. 


 

 

 

Epílogo posfácico

 

Como muitos que vagam por esse mundo cão, Roberto já nasceu assim? Sempre foi assim? Ou se tornou maníaco psicopata? O que despertou o monstro que morava dentro dele e que, acredito, reside dentro de cada um dos bilhões de indivíduos que perambulam por esse Planeta? 

Ademais, cabe aqui também uma outra reflexão, mais ampla. Diz o dito em latim: "Agere non loqui", isto é, "Agir, não falar". Penso que quando a mente grita, o corpo fala. Quando a alma grita, a mente fala. E como a maioria das pessoas agem? Fazendo um monte de merda, falando um monte de bobagens ou cometendo atrocidades. O maior Abismo de todos está dentro da mente. É de lá que vem a maioria dos demônios e dos monstros que saltam sobre nós. Não adianta fingir que está em paz com a sua alma, se a sua mente grita e o seu Ser no mundo escancara o seu desespero, a sua desolação. É preciso parar de fingir e compreender, ou pelo menos tentar compreender e aceitar que somos, ao mesmo tempo, Luz e Escuridão. Muitas vezes mais Escuridão do que Luz. É preciso compreender a profundeza do Abismo da mente, os demônios e os monstros que de lá saem, bem como, é preciso compreender a natureza dos Abismos, dos demônios e dos monstros das mentes dos outros. Como é o Abismo da sua mente? Você compreende a natureza desse Abismo?

Penso que a verdadeira força se revela no mais profundo e infernal abismo da mente, do coração e da alma. Quem a encontrou, retornou do abismo como uma Fênix ou, como gosto de dizer, como um Viajante da Luz na Escuridão, Esclarecido, Consciente da Escuridão que circunda a Luz da vida. Quem não encontrou a força, retornou mais obscuro que a noite mais escura e vaga pela Terra em desolação e desespero, ou, se desintegrou nas próprias chamas e se perdeu na imensidão. Para todo sempre? Quem saberá dizer?

Por isso, só me interessa os que de fato desceram às mais tenebrosas profundezas de seus Abismos. Os que foram ao próprio inferno, ou no mínimo, ao purgatório de suas mentes. Os que nunca desceram ao Abismo dos abismos, nada tem a dizer senão groselhas pseudo-intelectuais, coisas extremamente entediantes, insuportável mais do mesmo.

 

 

Abismos e poços

 

Muitos têm um poço.

Poucos têm um abismo

com muitos poços.

 

Muitos tentam evitar o poço,

e quando caem,

gritam desesperadamente

diante da possibilidade do fim.

 

Então, juntam

todas as forças que lhes restam,

se agarram às paredes

e escalam até à saída,

que se tornou uma nova entrada.

 

Os poucos que têm um abismo

com muitos poços,

temem o abismo e os poços,

mas são inevitavelmente

atraídos para eles.

 

Pouquíssimos

entre os poucos,

vão até às profundezas

mais inefáveis

achando que irão enfrentar

demônios

ou monstros.

Mas quando olham dentro

de alguns poços,

só o que veem são reflexos

espelhados de si mesmos,

de tudo que são,

já foram,

serão

e do que gostariam de ser.

 

Mas eles não veem só isso,

eles veem algo mais,

algo que acham

que não podem contar

a ninguém.

 

É por isso que raros são

os que conseguem retornar

do próprio abismo.

 

Os que retornam não são

e não querem ser

nem heróis de si mesmos,

nem demônios,

nem monstros,

nem a si mesmos.

 

Eles passam a ser outra coisa,

talvez, o próprio abismo

com muitos poços,

imperceptíveis aos que foram apenas até o fundo de um poço.

 

Imagina então, como deve ser

para os que tem miríades de abismos

dentro do abismo?

FIM. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

== Barosky, o solitário ==

Barosky, velho e solitário, saía todos os dias e caminhava sem rumo, para sentir um pouco da vida que ainda lhe restara. No fim da tarde, ele sempre acabava no supermercado. As pessoas indiferentes e a mulher do caixa 7 eram a sua única companhia. Um sorriso, um adeus, era tudo o que ele esperava. Depois, ele se sentava num dos bancos do lado de fora e ficava lá, dramaticamente imperceptível, observando as pessoas até a luz do dia se esvair na escuridão da noite solitária, só aliviada pelas luzes dos postes que se espalhavam por toda a parte. FIM.

 

 

 

 

 

== A xícara ==

A xícara de café repousava solitária sobre a mesa ao ar livre. O vento sussurrava segredos, mas ninguém ouvia. A cada gole, o amargo do café se misturava à tristeza da solidão. Mas não uma solidão qualquer, uma solidão abissal, do tipo que está além do além. Enquanto o Sol se pôs e a Escuridão inevitável começara a cair sobre todos, como sempre acontece, a xícara permaneceu, testemunha silenciosa dos sonhos não compartilhados e das histórias não contadas. Ninguém mais estava lá, como sempre acontece... FIM. 

 

 

 

 

 

 

== Abera e Ejous ==

 

Nos becos sombrios da cidade, sob a mais estranha e pura adrenalina, eles se encontravam em segredo. Ela, 45, casada, dois filhos, um marido bondoso, trabalhador mas insosso e sem libido, uma vida familiar, religiosa e social impecáveis, acima de qualquer suspeita. Ele, 41, casado, sem filhos, sem religião, com uma vida social discreta, uma mulher que parecia uma freira, mas frígida, e uma vida entediante no serviço público. Certo dia, eles se esbarraram num aplicativo de encontros, alcunhado por muitos de (UTI - Última Tentativa do Indivíduo). 

Com efeito, como convém a todos já experimentados da vida, que passaram e repassaram várias coisas; práticos, objetivos, sabendo muito bem o que querem, foram do "olá" ao "você gosta que lhe puxe o cabelo por trás?", intensa e rapidamente. Fogo puro desde o primeiro momento, como há tempos não sentiam. Entrosamento perfeito, como se já se conhecessem há muito tempo. Animadíssima pela postura ultrassecreta, pela boa aparência e o volumoso dote que ele apresentava, ela resolveu se encontrar e se entregar sem medo aos mais ousados e proibidos desejos. 

No quarto de motel, a mulher impoluta e imaculada diante da sociedade, da família e da igreja, sempre sorridente, tomava uma bela dose de vodca, se soltava e se transformava radicalmente, sem nenhuma crise de consciência. Cheia de energia e vontade, ela se dava com gosto ao amante voraz, com paixão desenfreada, pedindo que lhe possuísse com leveza, com jeito, devagar mas também com força e que lhe fizesse as coisas mais afrontosas à toda convenção social e a moral, rolando, girando, se esparramando, se deleitando na cama, na mesa, na parede, de pé, no chão, de lado, deitados, sobre o sofá, em todas as posições possíveis, beirando o Kama Sutra. 

Entre risos, gemidos, suor, beijos, abraços incandescentes e sussurros, eles chegavam juntos ao clímax, várias vezes e, assim, escreviam sua história clandestina. Se arriscavam, mas com muita cautela, sem deixar rastros. Desafiavam a ordem das coisas, roubavam momentos fugazes. Juntos, eles escapavam das amarras da vida cotidiana e exploravam o mais profundo êxtase proibido, sob uma única regra: "dentro das quatro paredes do quarto do motel, vale tudo e todos os desejos podem e devem ser externados, confessados e realizados. Sobretudo, o que acontece em Vegas, fica em Vegas". 

Naqueles breves instantes de prazer sem limites, sem cobranças, sem exigências, sem ninguém para impedi-los, certos e seguros como se tivessem cometido "o crime perfeito", tremendamente realizados e satisfeitos, maduros e visceralmente conscientes do que queriam, eles se salvavam de vidas vazias e do desespero diário de tentar criar "um novo sentido para continuarem a Existir". 
Eles não precisavam de nada disso, apenas do prazer, cada vez maior, que um dava ao outro. O mundo era deles. Eles eram a liberdade. FIM.

— 

 

 

== Mais um dia nessa bosta ==

Dois amigos conversam num ponto de ônibus. Um pergunta para o outro: você tem medo da morte? Acha que vai morrer cedo ou tarde? O que acha, vai encontrar do outro lado?

O outro responde: pois olha, já tive muito medo de morrer e nem sabia o porquê. Quando descobri que tudo o que enfiaram em nossas cabeças não passa de baboseiras e que a vida continua, pelo menos, sem nós, perdi o medo de morrer. Agora, se cedo ou tarde, tanto faz. As merdas que acontecem aqui, pela lógica, se é que existe uma, continuarão acontecendo lá, se de fato existir esse 'lá'. Então, não espero coisa muito diferente do que é aqui, nessa dimensão estrambólica, fodástica, filosobólica, medíocre e alucinante da Vida. Digo alucinante, porque a vida e a existência são coisas de fato muito alucinantes, um puta delírio no qual ninguém sabe dizer de onde tudo veio, o que havia antes, antes e antes, porque diabos estamos aqui e nem para onde tudo vai, se vai. Tem sujeito que diz: "fulano morreu. Pelo menos descansou! Agora descansa em paz! Rest in Peace! Etc, etc".  Descansa em paz, porra nenhuma! Se a vida continua, isto é, tudo o que pode acontecer nessa vida aqui, coisas boas, más, meia boca, merdas, enfim, continuarão acontecendo lá, se existir esse ‘lá’. Então, não tem essa de "descansa em paz". A porra toda, se continua, continua com todos os desafios que a Vida e a Existência impõem. Não é?

O amigo olha e diz: será? Será que é assim mesmo como você diz?

O outro responde: goste ou não, acredite ou não, a coisa toda continua, de alguma forma ela continua, não é possível que não continue. Mas, se não continuar, pelo menos não perdemos nada, nada temos a perder ou se preocupar, afinal, tudo estará acabado, zerado. Agora, se continua, como é e será do ‘outro lado’, onde quer que isso seja, aí são outros quinhentos. O fato é que continuamos aqui, mais um dia nessa bosta. Mais um dia nessa merda de País com esses merdas de politicopatas ladrões, mentirosos e assassinos e seus fãs clubes de imbecis fanáticos, nesse mundão no qual poderíamos estar viajando e aproveitando para evoluir mais e aprender com todas as poucas, mas ainda existentes pessoas de boa fé, nas mais diversas formas de cultura e modo de vida. Mas, meu amigo, não podemos porque não temos a droga do dinheiro nem para viver decentemente nesse País de merda, que dirá viajar pelo mundo! E é nisso que virou esse mundo de merda: só dinheiro. Dinheiro e mais dinheiro! Não temos outra escolha senão suportar o tédio em mais um dia nessa bosta!

O amigo diz: mas nem tudo é merda e tédio. Lá vem o Busão! Agora, pelo menos, poderemos tomar um golão 'do tipo do Rio Grande' no bar do copo sujo lá no Califórnia!

O outro diz: então vamos pro bairro Califórnia.

 

E se foram... FIM. 

— 

 

 

== O Garoto Sozinho ==

 

         Era uma Segunda-feira como outra qualquer e na TV da Agência do Trabalhador, passavam notícias de mais uma guerra, desta vez na Ucrânia, em pleno Século XXI, logo depois de uma Pandemia que infectou mais de 505 milhões de pessoas em todo o mundo, matou 6,2 milhões e deixou milhões de sequelados, desempregados, falidos e desamparados. Seu Zé do Bar da Esquina, também achava que a tal Pandemia que deixou podres de ricos mais podres de ricos e os pobres do mundo mais fodidos, era mais uma crise fabricada, como são todas as crises. Afinal, você já viu algum rico, digo rico de verdade, de milionário a bilionário, em crise? Mas, essa é uma temática para outra hora...

     E entre tantos absurdos da guerra absurda, era mostrado a fuga de milhões de pessoas da Ucrânia para Eslováquia, Polônia, Hungria e outros Países. E no meio de um mar de gente que escapava da covardia russa, estava um menino, Hassan, de apenas 11 anos de idade que fugiu da cidade de Zaporizhzhia, na Ucrânia. Na verdade, a sua mãe, Julia, o colocou num trem que o levou por 1.200 Km até  Bratislava, na Eslováquia onde chegou com apenas uma sacolinha, uma mochila e o número de telefone de parentes em mãos.

         Lá, já a salvo, Hassan foi recebido pelos parentes e até encontrou com o ministro daquele país que disse que iriam cuidar dele e de outras milhares de pessoas que fugiram da sanha assassina de Putin e da insana necessidade de se aparecer do Zelensky, que alguns diziam ser viciado em Cocaína.

         O ministro da Eslováquia disse que também uma ajuda estava sendo enviada para a mãe de Hassan e sua avó que ficaram na Ucrânia. Hassan conseguiu fugir da guerra covarde imposta por Putin, mas muitas outras crianças, idosos, mulheres, como sua mãe e avó e homens como seu pai, não tiveram a mesma 'sorte', se é que isso pode se chamar de sorte.

     Aos 40 anos de idade, na Agência do Trabalhador, enquanto esperava sua senha ser chamada, Thomaz olhava aquilo tudo comovido e ao mesmo tempo revoltado, enquanto, em sua mente, passavam-se lembranças da sua infância e do como também se sentira sozinho durante o trajeto dos anos intermináveis até a juventude, tal como Hassan em seus 1.200 km de solidão, revolta, medo e incerteza.

     "Viemos ao mundo sozinhos e morreremos sozinhos", é o que muitos acreditam. O intervalo entre nascer e morrer, para alguns, especialmente, os que tiraram a grande sorte na loteria da vida nascendo em berço de ouro, quase tudo, na maior parte do tempo, é alegria e há mil motivos para comemorar.

            Para muitos outros, talvez a maioria da humanidade, esse intervalo será uma mistura entre ser e não ser, ter e não ter, os quais terão mil razões para sorrir e chorar, e para alguns, talvez milhares ou quiçá milhões, ou mesmo bilhões de pessoas, esse intervalo será como um karma ou um castigo, uma maldição, uma sacanagem do destino, e durante esse tempo, que poderá ser breve ou interminável, os que assim nasceram, terão muitos motivos mais para chorar do que sorrir, mais motivos para morrer do que para viver e, no entanto, seguem vivendo, a maioria como mortos em vida, infelizmente, mantendo ainda uma fagulha de uma falsa esperança.

         Os otimistas, defensores do 'deixa disso' da vida, dirão que tal intervalo entre nascer e morrer é 'uma oportunidade' para 'viver intensamente' e fazer uma infinidade de 'coisas boas', que sempre há escolhas, que tudo vai ficar bem no final. Os pessimistas dirão que não há muitas escolhas, que tudo é tragédia, desgraça, tristeza e que tudo vai acabar pior do que começou.

         Por outro lado, os realistas, independente de sua condição neste mundo, sabendo que a vida, que é luz, sempre está cercada de escuridão, sabendo que o mal sempre está nos espreitando por toda a parte, apenas viverão e farão o trajeto, com medo, sem medo e pouco se lixando para tudo. Seguros em suas mentes e corações, os realistas passarão por esse intervalo sem esperar nada deste mundo, nem do outro, nem das pessoas. Ao contrário dos pessimistas e dos otimistas, os realistas apenas viverão a vida como ela é, um dia de cada vez, uma história de cada vez, entre um extremo e outro, mas viverão a mil, não como se não houvesse amanhã mas por terem uma estranha certeza de que pode ser para sempre, cientes do tamanho da ilusão que isso possa ser.

         Contudo, quanto aqueles que anseiam por encontrar ou reencontrar a alma de sua alma, o espírito do seu espírito, o coração do seu coração, o teu eu, independente das condições em que vivem nesse mundo, independente das tragédias e comédias, nada, nem mesmo a destruição da Terra ou da humanidade, se compararão à eterna e desoladora solidão que sentem em vida.

         Estes solitários eternos, viverão como os realistas, intensamente, mas jamais estarão em paz e jamais descansarão em paz enquanto sentirem tal solidão desoladora, enquanto não se completarem diante do Cosmos.

         Quanto a Hassan, apesar da brutal tragédia de sua vida atingida por uma guerra covarde, pelo menos encontrou alguém que o ame de verdade do outro lado da fronteira e se encontrou consigo mesmo. Irá se perder Hassan algum dia? Certamente, porque todos se perdem um dia e se reencontram outra vez. É o curso da vida, se perder e se achar. E quanto a nós, que já nos perdemos e nos reencontramos por mais de mil vidas humanas? O que será? O que virá depois? Thomaz pensou em tudo isso, pegou a senha e foi ao guichê. FIM.

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== De Zac Balonoré para ele mesmo ==

Hoje acordei pensando na quantidade de pessoas de verdade e de mentira, de pessoas vivas e mortas em vida que conheci e sobre o quanto eu fui de verdade, de mentira, vivo e morto em vida para elas.

Por um momento, num ímpeto misto de contentamento, tristeza e fúria, pensei em levantar correndo e ir para as redes sociais bloquear todos os falsos, todos os que fingem ser meus amigos, todos os que fingem me amar, todos os que fingem querer meu bem, todos os que fingem estar  interessados no que escrevo, todos os que fingem. Mas, aí pensei se não era melhor eu me auto-exterminar das redes umbrais sociais e desaparecer para sempre?!

Com efeito, ponderei, o meu auto-extermínio seria inútil, principalmente, para mim, que vim porque vim a este mundo cão de tragicomédias sem fim. Sem falar, que a grande maioria dos animais falantes que se acham pensantes, já em avançado estágio de putrefação mental, moral e espiritual, nem ligariam e seguiriam achando tudo muito normal, como convém nos dias hodiernos, onde o absurdo, o bizarro, o hediondo, o macabro, inclusive o profundamente triste, chocam por um brevíssimo momento, mas logo se tornam, pela mágica da idiotização em massa através da algoritmia do  caos, aliadas à pseudo-correria do dia a dia, tudo muito normal!!!

Obviamente, alguns, principalmente, os que se acham meus antípodas, iriam adorar saber do meu auto-extermínio virtual, talvez até bebessem algo para comemorar, achando que enganam a si mesmos, afinal, todos sabemos que quem diz que odeia, ama profundamente, no mais recôndito segredo. O fato é que ninguém iria ficar triste, o que parece bom!

Contudo, após pensar e pensar, ruminantemente, exatamente 'no momento que eu resolvi partir, eu decidi ficar' e não dar 'o gostinho' para nenhum 'fingidor'. Resolvi não me auto-exterminar e nem exterminar a ninguém, decidi deixar todos os fingidores como estão, em seus devidos lugares no Não-ser, achando que podem se enganar, enganar a mim e a todos entre si.  'Quero estar vivo para ver o Sol nascer', se possível, até o dia que as redes colapsarem em si mesmas e todos os fingidores caírem no Vazio Abissal do 'purgatório' da realidade nua e crua. FIM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

== 'Smigol', o lixeiro ==

 

Todo dia de manhã, ele passava pela rua olhando as lixeiras, na esperança de encontrar latinhas vazias ou alguma coisa ainda comestível. A Segunda-feira era o seu dia preferido. Por causa do seu aspecto magro e sombrio, as pessoas da rua o chamavam de 'Smigol'. Seus olhos fundos e cansados revelavam a brutal desilusão acumulada ao longo dos anos. Talvez, por isso, ele revirava as sacolas dos lixos, rasgando-as e deixando tudo bagunçado, como uma espécie de revolta.

Um dia, ele encontrou um bilhete enrugado, com uma mensagem de amor. Sorriu, pensando ter encontrado um motivo precioso para continuar. Mas, ao observar direito, percebeu que era apenas um pedaço de papel abandonado e ignorado, como ele. "Ridículo!", falou consigo mesmo. E como se fosse a sua última gota de fé se dissipando, ele amassou o bilhete e o jogou no chão.

No fundo do seu coração descartado e pisoteado pelo mundo, sentiu como se o vazio engolisse o que restara da sua chama de vida, levando junto todas as suas expectativas e ilusões. Assim, como o bilhete jogado no lixo, depois amassado e jogado ao chão, 'Smigol', seguiu como há tempos já se sentia: só mais um fragmento que caiu do lixo de alguém e que ficou perdido pelas ruas da vida. No dia seguinte, encontrei ele num posto de gasolina próximo. “E aí piazão? Tudo bão?”, me indagou sorrindo. Vida que segue. FIM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

==  Veneno de rato  ==

 

Injuriarum remedium est oblivio / A maior vingança é o desprezo.

 

Numa noite chuvosa de outono, em um requintado restaurante chamado "La Cavalleria" na região nobre da cidade, Tirso se encontrava no seu limite. Durante anos, ele havia tolerado os clientes ricos e seus caprichos, engolindo cada insulto e desrespeito com um sorriso forçado. É, tudo tem um limite, e o limite de Tirso estava se aproximando rapidamente.

Tirso, um homem de quarenta e cinco anos, com olhos cansados, tinha sido um empregado dedicado e leal por mais de uma década, nunca faltara, era o primeiro a chegar e o último a sair, vestia a camisa da empresa e estava sempre pronto para realizar outras tarefas além do trabalho de garçom. No entanto, após dez anos, refletindo sobre o quanto era desvalorizado e humilhado, percebeu que sua paciência estava se esgotando.

Os clientes da "La Cavalleria", riçacos esnobes, corruptopatas, politicopatas, religiopatas, estelionatários da vida, ladrões do dinheiro do povo e outros tipos canalhas que pagavam de “cidadãos de bem” da cidade empobrecida e corrupta, frequentemente tratavam Tirso e outros garçons com total desprezo e sadismo. Certa vez, Tirso viu um dos clientes, um político politicopata ricaço tentando abusar de Cida, a garçonete. Aquilo foi o início de sua revolta de fato. Ele reclamou com os donos do restaurante que simplesmente o ignoraram e disseram que quem deveria reclamar era a Cida e não ele. “Passaram a mão na sua bunda ou na da Cida? Vá trabalhar e para de amolar, Tirso”, disseram-lhe.

  E assim, numa total desfaçatez, os dias seguiam em “La Cavalleria”, com os ricaços soberbos e lunáticos pedindo comidas e vinhos caros, passando a mão na bunda das garçonetes, fazendo comentários cruéis sobre a aparência de Tirso e outros garçons. “Parece que esses dois ali são um casal de viadinhos!”, diziam e riam os endinheirados. Era como se, para os abastados bastardos, Tirso e outros não fossem pessoas, mas apenas um bando de servos miseráveis como sombras ou fantasmas que traziam a comida e a bebida.  “Salário mínimo por trabalho máximo”, murmurava Tirso em pensamentos.

Uma noite, enquanto servia uma mesa de clientes particularmente desagradáveis, Tirso escutou uma conversa que mudaria sua vida. Os clientes ricos riam de suas próprias piadas sujas e faziam comentários preconceituosos sobre pessoas como ele, trabalhadores árduos que estavam tentando sobreviver. Tirso, cuja paciência já estava por um fio, sentiu uma fúria crescente dentro de si, uma mistura de ódio, ressentimento e desespero.

Naquela noite, depois de terminar seu turno, Tirso não conseguiu dormir. Ele se viu à beira de um abismo, à beira de fazer algo terrível para finalmente se vingar. Mas, ao mesmo tempo, um sentimento de impotência e medo o tomavam de assalto: “Eu vou acabar em cana ou morto. Tudo bem que a minha vida não é grande merda, mas diz o ditado que ‘o ruim só é ruim enquanto o pior não acontece’”, pensava. Nisso, pegou um velho livro e ao virar as páginas para frente e para trás, imerso em pensamentos que pareciam rasgar seu cérebro, ele encontrou um enunciado que dizia assim:

[...] “Segundo a Worldometers, quase um milhão de pessoas se matam por ano em todo o Planeta. Se cada suicida resolvesse levar junto um politicopata, corruptopata, religiopata, dinheiropata, milionário-bilionário e demais estelionatários da existência, os tipos que se acham donos das cidades, Estados, Países, do Mundo e da verdade, estariam prestando um serviço glorioso para a humanidade e eu, como o ' O Homem que ri', 'O Coringa', ou o 'Tyler Durden de O Clube da Luta', os louvaria dia e noite, faria até altares para tais destemidos heróis da verdadeira existência, tocando Nirvana.” [...]. O texto maluco o tocou tão profundamente que parecia que mil demônios o possuíam. Foi quando ele teve uma ideia sombria: veneno de rato.

Nos dias seguintes, Tirso começou a pesquisar sobre veneno de rato na internet. Ele não sabia muito sobre o assunto, mas estava determinado a encontrar uma maneira de tornar sua vingança realidade. Depois de muito esforço, ele conseguiu adquirir uma pequena quantidade de veneno de rato sem chamar a atenção.

Agora, tudo o que ele precisava era de uma oportunidade. Aquela noite, com seu coração acelerado, suando frio, com raiva das humilhações e das piadinhas diárias, mas também com medo de ser preso ou morto, ele adicionou uma pequena quantidade do veneno ao prato de um cliente especialmente rude. Tirso não queria causar ferimentos graves, mas sim enviar uma mensagem clara: ele não aceitaria mais ser humilhado.

O cliente começou a comer e logo mostrou sinais de desconforto. Ele começou a suar, sua face ficou pálida e ele se levantou abruptamente, agarrando sua garganta. Os outros clientes e funcionários entraram em pânico, enquanto Tirso observava disfarçadamente, misturando-se à confusão.

A ambulância foi chamada e o cliente foi levado para o hospital. Todos suspeitavam de uma intoxicação alimentar, mas ninguém poderia apontar o dedo para Tirso, pois ele tinha sido meticuloso em suas ações. “O velho corno sobreviveu. Pelo menos não vai mais voltar aqui para me encher o saco”, Tirso disse mentalmente, dois dias depois do ocorrido. Como não tinha dado nada, nenhuma investigação ocorrera, Tirso pensou: “Vou botar sempre pequenas quantidades nos pratos daqueles cornos, só o suficiente para deixá-los lesados, não matá-los”. E assim, possuído pelo desejo de vingança, ele repetiu seu plano algumas vezes ao longo das semanas seguintes, sempre com clientes sacanas como alvos.

Mas, após um tempo, a notícia se espalhou sobre os incidentes misteriosos no "La Cavalleria", e as reservas começaram a diminuir. Os clientes ricos agora tinham medo de jantar lá, e o restaurante estava prestes a fechar as portas. Tirso estava triste com a possibilidade de falência do restaurante, mas, por dentro, bem lá no fundo, achava que finalmente tinha conseguido sua vingança silenciosa.

Contudo, à medida que o tempo passava, um estranho peso sombrio começou a se instalar em sua consciência. Ele começou a conjecturar que seu ato vingativo talvez não fosse a resposta. Em vez de se sentir aliviado, ele começou a se sentir ainda mais amargurado e vazio. “Eu não sou bandido, psicopata, maluco. Mas também não podia seguir sem me vingar daqueles desgraçados, que além de ficarem ricos roubando o povo, tratavam a mim e aos outros colegas como se fôssemos lixos! Eles tiveram o que mereceram!”, falava consigo na solidão da fria e precária kitnet alugada.

Então, uma noite, quando estava prestes a realizar mais um de seus planos, Tirso se viu no espelho e viu o rosto cansado e triste que o observava de volta. Ele foi ao “cantinho dos funcionários”, pegou o velho livro, começou a passar as páginas freneticamente outra vez e parou num trecho que dizia: [...] “Todos podem mentir para si mesmos e enganar a si mesmos por muito tempo, mas ninguém, nem mesmo o mais psicopata da Terra, consegue escapar da própria consciência. Em algum momento, cedo ou tarde, a consciência vai apertar tão forte que a única saída será a verdade. A verdade sempre será mais pesada e mais brutal que a mentira, com uma única diferença: ela será libertadora.” [...]. E então, mergulhado em pensamentos que ecoavam em sua mente exausta, Tirso chegou à conclusão de que a verdadeira vingança não estava em prejudicar os outros, por mais cruéis que fossem, mas sim, em encontrar a paz dentro de si mesmo.

E assim, encurralado pela esmagadora estranha força da Consciência, Tirso decidiu parar com seu plano maligno e enfrentar as consequências de suas ações. Ele confessou tudo aos proprietários do restaurante, foi demitido imediatamente e preso. Ao entrar no carro da polícia, Tirso, porém, surpreendentemente, se sentiu um pouco mais leve, como se um fardo tivesse sido retirado de seus ombros. Havia uma mistura de “dever cumprido” e “alívio por contar a verdade”, sobretudo para si mesmo. Com o tempo, após sair da cadeia, Tirso conseguiu encontrar um novo emprego em outro Estado, numa outra cidade, num lugar mais humilde e começou a reconstruir sua vida. Ele chegou à conclusão de que a verdadeira força mental, moral e espiritual estava em “aceitar o inaceitável”, superar a raiva e, principalmente, o ressentimento, em vez de se render a eles.

A "La Cavalleria" acabou fechando as portas devido ao escândalo e Tirso nunca soube o destino dos clientes ricos que o haviam humilhado, nem dos colegas de trabalho. Contudo, estranhamente, em sua mente, ele achava que finalmente encontrou a paz que tanto buscava, dizendo a si mesmo: “deixei para trás o veneno do ódio que consumia a minha alma. FIM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

== O homem que detestava

dizer bom dia  ==

 

Roberval Ébrio, sobrevivente do mundo cão, caminhava e pensava, pensava e caminhava. Todo tropeço causa um tremendo hiato no pensamento.

Buracos do djanho! Um após o outro, todos os antigos amigos já se foram. Uns mortos, jazem no além, mas sobretudo, debaixo de sete palmos de terra. Outros mortos em vida, jazem em vida, os mais desgraçados. Antes, eu também achava que vestiria o paletó de madeira “aos vinte e sete” como “Janis, Jim e Jimi”. Agora, porém, pelo visto nem aos quarenta e quatro como “Raul e Paulo”, ou então aos quarenta e seis como “Albert”.

De fato, pensava que, pelo andar da carruagem, já teria me acabado bebendo, fumando, me drogando, fodendo tudo que é coisa que se mexesse e pesasse mais que trinta e cinco quilos. Agora, no entanto, aos quarenta e dois, caminhando na praça com os velhos que a toda hora dizem ‘bom dia’, como se essa porra fosse um ‘mantra’, cogito se a vida tem mais sacanagens guardadas para mim.

Será que chego aos setenta e três como o velho “Charles”? Não sei, sinceramente, não sei nem se quero. Desde que chegue bem, isto é, bebendo um bom vinho, fumando um bom charuto, fazendo amor com uma boa e muito bondosa mulher, lendo e escrevendo, fazendo a inquieta massa cinzenta funcionar sempre em alta rotação. Mas, quem de fato saberá? Não sabemos nem o que nos acertará daqui a cinco minutos, que dirá daqui a vinte ou trinta anos!

Há uns vinte anos atrás, um sujeito bêbado me disse que eu viveria até o ano de dois mil e cinquenta e dois e morreria exatamente no mesmo dia e hora que nasci, doze de maio de dois mil e cinquenta e dois, às quatorze horas e dezesseis minutos, aos sessenta e nove anos de idade. E sem ‘acreditar acreditando’ nessas coisas espiritualistas, principalmente quando a espiritualidade provém de um indivíduo perdido na manguaça no boteco prestes a fechar, alguns anos depois, repensando sobre essas coisas que envolvem bater as botas, encasquetei que assim seria. Por mais fodida que seja a vida de uma pessoa, e por mais que ela reclame e amaldiçoe o dia que foi parida nesse mundo, bem no frigir dos ovos, ela quer viver. Todos querem viver ao máximo e o máximo. Então, por que não? Afinal, a gente acredita em tanta merda durante a vida, que mal tem em acreditar numa coisa que parece ser ‘boa’? Ademais, para quem já abraçou a ‘Dante’, uma merda a mais ou a menos, uma ilusão a mais ou a menos, não fará a menor diferença. Curiosamente, de lá para cá, já me ocorreu de quase tudo, e por incrível que pareça, ainda estou aqui. Será que  o pinguço tinha razão? Será que os pinguços sempre tem razão? Há sabedoria na manguaça? Veremos.

O fato é que a vida passa voando. Desde a primeira gozada nas calças olhando a jovem vizinha pernuda que fingia dormir no sofá, intencionalmente e ‘safadamente’ mostrando a calcinha, até a última lembrança do último ‘nhéco nhéco’ meia boca, já se foram mais de trinta anos! Parece que depois dos trinta e cinco as coisas vão perdendo o total sentido de ser, de existir, é um troço louco o que acontece a cada ano que passa. Talvez seja a nossa mente, os milhares de neurônios trucidados por uma vida devassa, talvez seja só o tempo que, como um rolo compressor passar por cima de nós, talvez seja um tumor no cérebro, um Alzheimer, uma sequela da ‘grande pandemia’, ou talvez seja só a coisa da idade, não sei. Quem saberá dizer? Não estou dizendo que ‘tudo perde graça’, embora muitas coisas realmente percam a graça.

E no meio disso tudo, eu que já poderia estar na cidade dos pés juntos, ainda caminho na praça com a velharada. Só o que salva é que vez ou outra aparece uma mulher boazuda ou uma coroa enxuta para embelezar o cenário decadente. Essas, não dizem bom dia, nem tomar no cu. Só os velhos e velhas que a cada encruzilhada da praça, abrem seus sorrisos decrépitos e dizem: “bom dia, bom dia, bom dia”. Na maioria das vezes, nunca respondo, ou respondo com a maior rabugentíce possível. Às vezes, até me pergunto: pra quê? Pra que ser tão rabugento? Mas, ao mesmo tempo me indago: porque eles tem que ficar me falando: “bom dia, bom dia, bom dia”, toda hora? Sei que é ‘coisa dos antigos’, ‘respeito’, mas para mim é uma puta chatice. Ninguém é amigo de ninguém, ninguém é conhecido de ninguém, ninguém é nada para ninguém. Então, para quê fingir cordialidade, respeito e educação?

Outro dia, levantei meia hora mais cedo, às seis da manhã e fui lá caminhar, esperando não encontrar nenhum ‘tagarela do bom dia’. Depois de cruzar uma das curvas-esquinas da praça, uma mulher de uns cinquenta e três anos, cabelo ruivo, cheia de belas sardinhas no rosto, parecendo uma jovem ninfeta de corpo, olhou direto em direção ao meu pé de mesa como se tivesse visão de raio X; sorriu levemente e, passando por mim, disse: “bom dia”. Naqueles segundos, fui da rabugentíce ao tesão, e quase ficando de imediato de barraca armada, lhe respondi, mas ainda rabugento: “bom dia”, e segui. Afinal, nos dias atuais, com tantas câmeras para todo lado, se uma mulher disser que você a assediou, ainda que tenha sido só um ‘bom dia com tesão’, até você explicar que focinho de porco não é tomada, já está chupando a pica de alguém no presídio ou sendo encontrado ‘suicidado’ numa cela, ou então, morto num ‘confronto com a polícia’, mesmo sem nunca ter tido uma arma.

Mas, a ruiva cinquentona foi a única ‘beata do bom dia’, que encontrei naquele momento. Terminei minha auto-tortura e fui ao mercado. Chegando lá, quando olho de soslaio, vejo a ruiva fatal entrando no mercado, com seu calcãozinho colado, mostrando o apetitoso e convidativo capô de fusca. Peguei o carrinho, entrei e fui pegar umas frutas. “Da pinga à vida saudável”, “nem só de cachaça vive um homem”. Chegando na sessão das frutas, lá estava ela. Fiz de conta que não a reconheci, para não parecer um tarado, louco para saciar todas as vontades sexuais mais insanas. Enquanto empacotava a banana, ela se aproximou e com aquele tipo de sorriso e olhar, sobretudo, o olhar que faz qualquer homem abandonar família e filhos, ela disse outra vez: “bom dia”. Então, esbocei um sorriso Matt Damon e respondi, já sem nenhuma rabugentíce: “Bom dia, como vai?”. Ela: “vou bem, obrigada. Mora por esses lados?”. “Moro, moro. Faz tempo que caminha na praça?”, indaguei. Ela: “Não, comecei hoje, na verdade”, respondeu. Então, ‘idiotamente’ disse: “Certo, certo. Caminhar é bom, faz bem para saúde, etc”. Ela sorriu, certamente me achando um lelé da cabeça. Terminei de pegar as frutas e disse-lhe: “Beleza, então, a gente se vê por aí”. Ela: “Tudo bem, a gente se vê, tchau”, e se mandou com aquele traseiro maravilhoso, todo suado.  

Lá fora, enquanto eu ia para o carango, vi ela botando suas compras no porta-malas. Diminuí os passos para ver aquele belo movimento de uma mulher madura de uns cinquenta e poucos, com um corpinho de no máximo vinte e cinco. Ela viu que eu estava passando, olhou diretamente, fez sinal com a mão para eu me aproximar. Fui lá, como um tarado que ronda uma vítima, mas exalando testosterona, dopamina e ocitocina. Ela já veio me dando um beijo no rosto. Sorrindo, me disse: “Você entende de fiação elétrica?”. Eu: “Depende, do que você precisa?”. “É que queimou meu chuveiro, e não consigo trocar sozinha, será que você poderia me ajudar?”, disse. Respondi: “Claro, quando você quer que eu vá?”. Ela: “Já, você pode?”. Então, disse: “Posso”. Ela: “Então me segue”. Eu: “Beleza”. E fomos.

Como quase toda mulher, que tem pezinho pequeno mas pesado, e que acelera para caralho, ela voou até a casa. Eu fui na minha, observando à distância. Chegamos. Desci do carro, ajudei ela tirar as compras. A casa era grande, bem arrumada, super limpa, silenciosa, com alguns quadros nas paredes. “Tudo imitação, meu marido adora essas porcarias”, ela disse. Parei e rapidamente pensei: “marido”? Então, olhando seriamente para ela, disse: “Marido”? Ela: “É, marido, viajou, foi pescar no Mato Grosso, só volta semana que vem”. Eu: “Entendi”. Ela: “Não se preocupe, não tem nada demais, e você é só o homem que veio arrumar o chuveiro”. Sorri e disse: “Tá certo, então, vamos ver esse chuveiro”. Ela sorridente, andando meio rebolando, como uma fêmea no cio, louca para ver a vara entrar rasgando, foi na frente e abriu a porta do banheiro, um belo banheiro, banheiro de rico, diria. “Está aí, o chuveiro”, ela disse. Peguei uma cadeira que tinha do lado, subi para ver o chuveiro. “Não parece estar queimado”. Ela, se fazendo de tonta: “Nossa, será? Ele parou de funcionar”. Eu: “Já vi chuveiros com problemas parecidos”. Ela, sorrindo, meio tarada: “Já viu é? E já viu isso?”, disse, passando a mão na minha perna e subindo até meu grossão”. Olhei para aquela carinha de safada e sorri. Ela sorriu de volta, baixou meu calção com a cueca e tudo, e sem nem pensar duas vezes, caiu de boca abraçando minha bunda enquanto mamava. Desci da cadeira, ela se ajoelhou e continuou a chupar meu cacete todo suado, lambendo meu suor do saco até a cabeça, masturbando e cuspindo nele, deixando em ponto de bala, feito um aço. Então, peguei ela e a carreguei até a cama do casal. Joguei ela na cama. Cai de boca em seus seios fartos, mordiscando seus bicos, pegando em seu corpo todo, beijando sua boca, roçando entre suas pernas; tirando seu calção meti a língua na sua xaninha toda rosadinha, apertadinha, com grelinho pequenino saltando para fora, parecendo uma menina de uns dezoito anos. Lambi, chupei, enfiei o dedo nela com gosto, depois enfiei o dedo suavemente atrás, até ela não aguentar mais, então, subi em cima e meti meu pé de mesa, grande e grosso, até ela gemer e encharcar de gozo. Depois, ela me pediu para por atrás, enquanto sacava um vibrador e enfiava na xana, gemendo alto e me chamando de safado, caralhudo, gostoso, e dizendo “goza dentro de mim, gostoso, vai”. E gozamos muito, nos lambuzamos.

As melhores coisas da vida acontecem assim, de uma hora para outra, sem pensar, sem calcular, sem esperar. Por isso não espero nada desse mundo e de ninguém, assim, o que vier de bom é lucro. E aquele dia, foi um baita lucro. Não é fácil achar alguém que saiba transar e transe bem, que transe só por transar,  sem papo furado de sentimentalismo, mas com tesão, com fogo, com toda a loucura que vier à mente, sem nenhum conceito ou pré-conceito, moralismo e outras coisas brochantes, sem limites, dando vazão a todas as fantasias e vontades. Isso, é que nem acertar na loteria.
Depois de uma hora e meia, mais ou menos, fui embora, como se nada tivesse acontecido. Ela ficou lá deitada na cama, rindo como uma louca. No outro dia, na praça, não a vi. Pensei: “Menos mal”. E os dias se passaram. Nunca mais a vi por lá, na praça, só a velharada e os nóias de sempre. Também não a vi mais no mercado. Passado um mês, andando pela cidade, quando olho para o outro lado da rua, uma outra praça, lá estava a ruiva fatal, conversando com um jovenzinho, toda sorridente. “Variando o cardápio”, pensei. O sinal abriu, acelerei e vazei. “Bom dia, só se for pra foder”. FIM.

===Thomaz===

História baseada em fatos reais.

"O ser humano gosta de pensar que está no controle de sua vida. Eu tenho uma teoria sobre o porquê as pessoas fazem coisas terríveis. É a mesma razão pela qual as crianças se empurram no pátio da escola. Se é você quem está empurrando, então não vai ser aquele que é empurrado. Se você é o monstro, nada vai estar esperando nas sombras para pular em cima de você. É muito simples: as pessoas fazem as coisas terríveis que fazem, por medo. E também para elas é melhor ser um monstro, pois na esquina nenhuma força das trevas estará contra você". (AllieHYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz", HYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz"SérieHYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz" HYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz"TakenHYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz", HYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz"deHYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz" HYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz"StevenHYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz" HYPERLINK "https://www.google.com/search?q=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&client=firefox-b-d&ei=qssxYr22JcPH5OUP-peasAY&ved=0ahUKEwi9s9CPxcr2AhXDI7kGHfqLBmYQ4dUDCA0&uact=5&oq=assistir+S%C3%A9rie+Taken%2C+de+Steven+Spielberg+&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAMyBggAEBYQHjIGCAAQFhAeMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgcIABBHELADOgUIABCiBEoECEEYAEoECEYYAFCyDVj6KWCuPGgCcAF4AIABngGIAcMMkgEEMC4xMZgBAKABAcgBCMABAQ&sclient=gws-wiz"Spielberg).

 

A história de João Thomaz

Como fazia havia meses, João Thomaz acordou cedo. Vestiu a roupa surrada, calçou o tênis rasgado, alimentou os dois vira-latas — Nínive e Tigre — companheiros de sua solidão e testemunhas silenciosas de sua tragédia: a perda da esposa e da filha para a COVID-19.
Apesar da dor, ele ainda lutava. Vivia de bicos, carregando nos ombros anos de experiência como auxiliar de escritório que não valiam nada diante das portas fechadas. Talvez fosse a idade. Talvez a cor da pele. Talvez a pobreza. Talvez o endereço num bairro esquecido. Talvez apenas a antipatia gratuita de quem o julgava à primeira vista.
Mesmo assim, dia após dia, caminhava a pé até o centro da cidade em busca de emprego. Seu destino era sempre a Agência do Trabalhador — apelidada com ironia pelo povo de “Agência do Vereador”, já que mais servia de palanque para politicagem do que de socorro aos desempregados. O trajeto, de duas horas, era sua via crucis cotidiana.
Na saída de casa, os portões sempre carregavam um amontoado de cobranças: luz, água, boletos vencidos. João apenas empilhava os papéis, sem coragem nem forças para abri-los. Sabia que não havia nada ali além de lembretes cruéis de sua impotência.
A Agência era sempre a mesma cena: lotada de almas à beira do abismo, todos tão desesperados quanto ele. Na entrada, o velho mural exibia dezenas de vagas ilusórias. Quase nunca havia trabalho real. Era uma armadilha: obrigavam o povo a gastar os últimos trocados com transporte, madrugar em filas, disputar senhas, apenas para ouvir de um atendente — muitas vezes cínico, às vezes até rindo — que “não havia a vaga pretendida”.
Alguns servidores, menos sádicos, chegavam a oferecer uma alternativa miserável qualquer. Mas a regra era outra: devolver a Carteira de Trabalho com indiferença e mandar o pobre coitado enfrentar a fila de novo, como se fosse castigo. Quem ousava se revoltar era esmagado: xingava, quebrava cadeira, chutava computador… mas terminava espancado pelos seguranças fardados e pelos guardas municipais, gente igualmente pobre, obrigada a bater no próprio povo para garantir o pão de cada dia.
A farsa era pública e notória. Vagas direcionadas para parentes de políticos, cabos eleitorais, puxa-sacos, amantes. O povão denunciava, mas nada mudava. A Agência do Vereador continuava firme como vitrine da hipocrisia.
João, já sem ilusões, ia apenas pela teimosa esperança de um café ralo e um pedaço de pão amanhecido oferecidos aos cem primeiros da fila. Em época de eleição, a bondade crescia: pão com mortadela, café adoçado, e uma mocinha distribuindo santinhos do “chefe” da Agência, sempre sorridente.
Naquele dia, João sentia um peso estranho. Um sonho ainda latejava em sua cabeça: multidões em surto, quebrando tudo, incendiando Prefeitura e Câmara. Anarquia até os ossos. Ele riu sozinho. Talvez fosse apenas a mente pregando peças, mas a sensação não largava o peito.
Depois de engolir o pão seco e o café no copinho minúsculo, sentou-se para esperar. Sua senha: 101. No fundo, sabia que era inútil, mas não tinha para onde ir. Restava-lhe apenas a esperança, mesmo que fosse uma esperança idiota, quase vazia.
No canto da sala, uma estante capenga exibia livros velhos, revistas amassadas e jornais do mês passado. Sem nada a fazer, João passou os olhos pelos títulos até encontrar um pequeno livreto remendado com fita adesiva. O nome era provocador e risível: “Carta aos ricos e aos políticos gananciosos e corruptos”. O autor, um professor local, conhecido mais pelos bares do que pelas salas de aula, já havia morrido — vítima de cirrose hepática, consequência de anos de cachaça.
Ao lado do livreto, quase como ironia cósmica, uma revista de saúde com uma reportagem do Dr. Drauzio Varella sobre os efeitos do álcool. Uma das respostas saltava aos olhos de João: “Um indivíduo pode desenvolver cirrose hepática se beber cerca de 80 gramas de álcool por dia durante dez anos. Para as mulheres, a metade dessa dose já basta.”

João sorriu amargo. Vida, morte, tragédia e deboche, tudo misturado na mesma estante.
João pensava, quase rindo para dentro:
— “Se for assim, não tenho mais fígado então. Tudo mata, até a vida mata. Como diz a música: ‘Eu bebo sim e tô vivendo, tem gente que não bebe e tá morrendo.’ Seja como for, a morte vai nos pegar de qualquer jeito… foda-se.”
Depois desse diálogo desolador com o próprio cérebro, pegou o livreto do professor morto de cachaça e pensou: “Tenho tempo de sobra”. Era um texto curto, quase uma crônica — não mais que 30 páginas.
O livro começava com uma citação de Bobby Kennedy no dia do assassinato de Martin Luther King, em 4 de abril de 1968. João leu com atenção:
“Eu trago uma notícia triste para vocês, para todos nós e acredito que para todos os cidadãos dos EUA e amantes da paz em todo o mundo. A notícia é que Martin Luther King foi baleado e morto hoje à noite em Memphis, Tennessee. Ele dedicou a vida ao amor e à justiça entre os seres humanos. Morreu por essa luta.
Para aqueles dentre vocês que são negros e tentados a se deixarem preencher pelo ódio e pela desconfiança, eu digo que também tenho no meu coração esse mesmo sentimento. Um familiar meu foi assassinado, e foi morto por um homem branco.
Meu poeta preferido é Ésquilo. Ele escreveu: ‘Mesmo quando dormimos, a dor que não pode esquecer cai gota a gota no coração, até que, em nosso próprio desespero, contra a nossa vontade, venha a sabedoria através da terrível graça de Deus’.
O que precisamos nos EUA não é divisão, nem ódio, nem violência e desordem, mas amor, sabedoria, compaixão e um senso de justiça para aqueles que ainda sofrem, sejam brancos ou negros.”
Bobby também seria assassinado meses depois, em 5 de junho de 1968, com três tiros disparados por Sirhan Sirhan, logo após vencer as primárias para presidente.
João Thomaz lembrou-se de um documentário sobre Bobby Kennedy, em que uma mulher, chorando, dizia à câmera:
“É inacreditável! Sempre que alguém tenta fazer o certo pelos pobres, algo horrível acontece. Mataram o irmão dele, mataram o Dr. King e agora mataram Bobby. Este mundo não tem mais esperança.”
João, que perdera a esposa e a filha para a COVID-19, sentado na fila do 101, não podia discordar do livreto: “Esse mundo não tem mais esperança”.
Entretido, parecia fora do corpo. Nem reparava nas pessoas grudadas ao seu lado, sem máscara, tossindo, em plena pandemia. Talvez já não se importasse com a morte. Virava as páginas devagar, como virava os dias.

Em certo ponto, encontrou citações de Alice no País das Maravilhas:

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”

“Não posso voltar para o ontem porque lá eu era outra pessoa.”

Por um instante, uma tristeza fina tomou conta dele. Imaginava como seria voltar no tempo, meses atrás, impedir a morte dos seus. Seria possível? Ou tudo já estava escrito, como o destino de milhares? Ou poderia ter sido evitado se politicopatas, corruptopatas e ignorantes não tivessem empurrado o povo ao abismo? Como uma única pessoa poderia, mesmo voltando no tempo, salvar todos e mudar a história?
O som metálico da senha o arrancou dos devaneios: número 58. O dele era o longínquo 101.
Foi ao banheiro imundo — privada entupida, água inexistente, cheiro de abandono — cenário típico dos serviços públicos.
Nas paredes rabiscadas, telefones de garotas oferecendo “companhia”, frases sem nexo, desenhos obscenos. E um poema, anônimo, que chamou sua atenção:

Poemas Rabiscados
Agora estamos aqui
Não sei por que, nos deixamos levar
Às vezes me divirto cortando a grama de casa
Às vezes me encontro me perdendo no jardim
Em meio aos espinhos
Em meio às flores
Em meio aos insetos
Em meio aos tocos de cigarro
Que você jogou da tua boca
Agora, ainda estou aqui
Às vezes me divirto lendo coisas antigas
Às vezes me encontro no espelho de um banheiro público
Em meio ao lixo
Em meio aos odores
Em meio aos fungos
Em meio aos rabiscos nas paredes
Que alguém deixou como um último recado…

João sorriu por dentro e repetiu as duas últimas linhas: “em meio aos rabiscos nas paredes, que alguém deixou como um último recado”.
Voltou ao seu lugar. Metade da fila já tinha ido embora. Ao seu lado sentou-se uma mulher de uns 45 anos. O painel chamava o número 65. Só dois guichês funcionando.
Ela se virou para João:
— “Quer pegar outra senha? É a 89. Alguém desistiu.”

Ele agradeceu, mas recusou. Ela não entendeu, nem insistiu. João não tinha para onde ir e o livreto já estava no fim.

Entre senhas chamadas e páginas viradas, ele mergulhava cada vez mais fundo. A história era maluca: citações de Bobby Kennedy, Alice, relatos de injustiça. O autor narrava a trajetória de um homem revoltado, em busca de justiça social, que no fim escrevia uma “carta aos ricos e políticos gananciosos e corruptos” — título do livreto.
A carta, sinistra, era mistura de loucura, terror, desabafo e adeus. O personagem se jogava na frente de um trem ao final. Nela, dizia:

Carta aberta aos ricos e políticos gananciosos e corruptos

Por vossa ganância, corrupção e desumanidade, vocês nos arrancaram tudo. Levaram nossos familiares, nossos amigos, nossos empregos, nossos sonhos; roubaram nossas noites de sono, nossa sanidade, nossos sorrisos. Arrancaram a fé, a esperança, a alegria — a própria vontade de viver.
Agora que não temos mais nada a perder, resta-nos a voz. E com essa voz faremos justiça — não apenas por nós, mas por todos que vocês mataram, prejudicaram e destruíram. Somos muitos. Estamos onde vocês menos imaginam.
Nós que limpamos o chão das vossas festas; nós que servimos o café nas manhãs apressadas de vossas salas; nós que lavamos a roupa que vestem; nós que empurramos carrinhos, varremos ruas, plantamos, assamos, dirigimos, cuidamos de crianças, ensinamos em escolas e rezamos em igrejas para que vocês não percebam a sutileza do que é fato: sem nós vocês não existem. É nas rotas humildes dos nossos passos que se construiu o seu conforto. É com a nossa vida que sustenta a sua ostentação.
Estamos nos lugares que desprezam: nas cozinhas onde comem, nas salas onde decidem, nas filas onde riem de nós. Estamos nas telas que alimentam suas vaidades, nas conversas que descartam nossos nomes como se fossem pó. Estamos nas favelas e nos condomínios, no asfalto, na terra, no ar acondicionado e no vento que traz os cheiros dos mercados. Estamos nos olhos de quem vocês trataram como invisível. Somos a memória viva de cada afiliado que vocês reduziram a estatística.
O que nos falta em bens, nos sobra em presença. Sabemos seus nomes; conhecemos suas rotas; guardamos imagens, documentos, testemunhos, provas que dormem — por enquanto — em gavetas e corações. Não proclamamos aqui planos sórdidos; afirmamos uma certeza simples: ações têm repercussões. Suas escolhas colhem frutos amargos que, cedo ou tarde, voltarão como colheita.
Vocês acreditaram estar acima das leis e até da moral; ignoraram que existe uma justiça mais antiga, tecida no fio invisível das consequências. Essa justiça pode vir em muitas formas: a exposição pública das suas mentiras, a perda do prestígio e do poder, o boicote das ruas, a retomada dos espaços que vocês usaram para enriquecer. Pode vir na ruína das reputações que venderam ao melhor lance; na virada de olhares que antes os louvavam; na recusa das comunidades que sustentaram vossas fortunas.
E, sim, haverá também quem retribua do mesmo modo em que foi ferido — não como manual de vingança, mas como resposta humana, uma reação que vocês fomentaram ao esmagar vidas. Haverá a fúria dos que perderam tudo; haverá a sanha dos que viram seus futuros virarem pó. Vocês sentirão, em seu corpo e em sua consciência, o peso do que fizeram. Terão medo, insônia; verão seus descansos interrompidos por lembranças que não se apagam. Serão expostos à luz, à crítica, ao julgamento público que vocês sempre acreditaram dominar.

Saibam que não somos apenas vítimas reclamando num canto. Somos multiplicidade — vozes, movimentos, dedos apontando; somos a história que vocês tentaram enterrar, voltando com força. Vocês plantaram desespero. Nós plantaremos memória. Vocês criaram privilégios; nós criaremos responsabilidade. Vocês cobraram silêncio por favores; nós devolveremos palavras e atos, amplificados.
Se houvesse um caminho diferente — menos ganância, menos roubo, menos indiferença — muitas tragédias não teriam acontecido. Vocês poderiam ter sido diferentes. Mas escolheram a podridão. Por isso vos dizemos: o tempo em que sorriam impunes está chegando ao fim. As vozes que vocês calaram levantam-se agora; o Karma que desdenharam toma forma: não como vingança primitiva, mas como balanço inexorável da equação que criaram.
Somos legião. Estamos em toda parte. Mais perto do que imaginam. E cedo ou tarde — inevitavelmente — cobraremos a dívida que vocês contraíram com a vida. Estamos a caminho.

Assinam: As vozes dos injustiçados — O Karma vivo — A Legião das Sombras.


João Thomaz terminou de ler e ficou arrepiado. Um frio percorreu-lhe a espinha. Que tipo de mente escreveria uma insanidade daquelas? Ainda assim, algo obscuro e poderoso já se aninhava em sua alma detonada. Perguntas sem respostas, revolta sufocada, tristeza comprimida. Um vulcão à beira da erupção.
No fim do livreto, descobriu algo mais sinistro: o personagem da carta, chamado Sansão, acreditava que, ao se suicidar na frente de um trem, se tornaria um mártir e, no além, contaria com espíritos antigos para empreender sua vingança contra os ricos e os políticos corruptos. Sansão imaginava influenciar mentes, incitar loucura, depressão e tragédias entre aqueles que julgava culpados pelas desgraças do povo.

João fechou o livreto. Sua senha finalmente aparecia no painel: 101. Levantou-se, caminhou até o guichê. Recebeu a mesma resposta de sempre:
— “Não tem vaga para o seu perfil.”

Saiu sem discutir, ébrio de pensamentos.

Seria justo? Que poucos tivessem tudo — dinheiro, hospitais, tratamentos — enquanto milhares morriam nos corredores públicos, faltando medicamentos, com médicos exaustos? Seria justo que parentes de políticos fossem favorecidos em vagas? Que 1% dos humanos detivesse 99% da riqueza do planeta? Que grandes filhos da puta vivessem impunes, ricos e poderosos, enquanto pessoas boas, como sua esposa e sua filha, jaziam mortas?
As perguntas martelavam enquanto gastava a sola do tênis de volta para casa.
Ao chegar, a realidade bateu: luz cortada. Sem dinheiro para religar. Os cachorros sem ração. O dono da mercearia não vendia mais fiado. Sabia que João estava desempregado, quebrado.
Um desejo profundo de se matar tomou-lhe a mente. Mas, estranhamente, decidiu adiar o pensamento. Fez arroz e macarrão com o pouco que restava e dividiu com Nínive e Tigre. Os cães olhavam com olhos tristes, abanando os rabos, como se entendessem que o dono tentava escapar daquela vida e que, apesar de tudo, era um homem bom.
João chorava, olhando para os bichos. “Que farei desta vida desgraçada?”, perguntava-se. Os animais aproximavam-se, lambendo-lhe as mãos, apoiando as patas nos braços como quem diz: “Força, João.”

Profundamente triste, João foi dormir.
No dia seguinte, a mesma via-sacra. Mas agora havia um papel sobre a mesa. Nele, João escreveu:

“Por favor, quem encontrar este recado saberá que estou morto. Eu tentei, mas não consigo mais. Peço que cuidem de Nínive e Tigre, pois nem comida consigo comprar para eles. Não aguento voltar para esta casa e vê-los sofrer de fome. Não posso soltá-los na rua. Essa é a merda que sou.

Já perdi tudo. Meu tempo aqui acabou. Só me resta puxar a tomada e me desligar desta vida, na esperança de renascer um dia melhor, para fazer mais pelos bichos e pelas pessoas. Adeus. Quem encontrar este recado pode ficar com a casa. Apenas cuide deles por mim. Fiquem bem.”

João escreveu, chorou, fumou um cigarro. Olhou para as árvores, para o céu. Calçou o velho tênis, pegou uma faca, afiou-a. Saiu de casa rumo à Agência do Trabalhador. Na mente, uma frase martelava: “Pelo menos levo um desses desgraçados comigo.”

Caminhando, olhava as pessoas, os bichos nas ruas, o céu, os pássaros, o movimento dos carros. Tentava se convencer de que o que faria “não era certo, mas necessário”.


Na Agência, João repetiu o ritual: pegou senha, tomou café, comeu o pão com mortadela. Era tempo de eleição. Pensava: “Espero o desgraçado chegar. Quando entrar na sala, fecho a porta, enfio a faca no pescoço dele e depois corto minha própria garganta.”
Dito e feito: o chefe politiqueiro chegou e se trancou no escritório. João esperou a oportunidade. Antes, passou no banheiro imundo, olhou-se no espelho quebrado. Pensou na esposa, na filha, no olhar triste de Nínive e Tigre, na luz cortada, no livreto maldito. Tudo o pressionava para o gesto final.
“É agora. Chegou a hora do adeus.”
Saiu com a faca escondida na manga da jaqueta. Ao abrir a porta, um homem o viu — olhos marejados, suor frio. João já não estava no mundo real. Seguiu direto até a sala do chefe.
Entrou. O político falava ao telefone. João deslizou os dedos na lâmina escondida. “É agora, é agora, é agora.” Ia fechar a porta quando ouviu:
— “Você não é aquele que vem sempre aqui? Tenho te observado.”

Surpreso, João respondeu que sim. O chefe pediu seu currículo.
— “Você tem toda essa experiência? E ninguém nunca te encaixou em nada?”
Ainda atordoado, João ouviu. Passava os dedos na lâmina. As vozes em sua cabeça gritavam: “Mata logo! Acabou pra você! Não tem saída!”

Mas, inesperadamente, o chefe lhe ofereceu um emprego como auxiliar de manutenção da própria Agência. João sentiu como se tivesse levado uma pancada na cabeça.
— “O quê? Um emprego? Agora?”
Desnorteado, aceitou no ato. Entre a vida e a morte, entre o abismo e a última réstia de esperança, um raio de luz lhe atravessava. Contou parte de sua história. O homem, surpreendentemente comovido, deu-lhe também dinheiro para religar a luz, pagar a mercearia, alimentar Nínive e Tigre.
Com a faca ainda na manga, João agradeceu. Saiu vivo. E recomeçou.
Um mês depois, já empregado, soube da morte do chefe por COVID. Atônito, ouviu da nova gestora:
— “Você é João Thomaz, não é? O Rodrigo disse que via potencial em você. Segunda você começa como atendente. Depois treinaremos você no guichê.”
Sem palavras, João apenas assentiu. Dos portais da morte, das sombras mais densas, ele voltava à vida — ainda cercado de dor, mas de pé.
Naquele mesmo dia, guardou consigo um trecho do livreto: o discurso de Bobby Kennedy sobre Martin Luther King. Reescreveu-o à mão e passou a lê-lo todos os dias — ao acordar, antes de dormir, diante dos túmulos da esposa, da filha e até do chefe da Agência.
E sempre repetia, em voz baixa:

“O que precisamos neste mundo não é divisão, nem ódio, nem violência ou desordem. Precisamos de amor, sabedoria e compaixão pelos outros, sobretudo em memória dos que já partiram. Precisamos de justiça para aqueles que ainda sofrem, sejam brancos ou negros.”

De frente para os túmulos, ao lado de Nínive e Tigre, dizia consigo mesmo:
— “Todos temos ódio e amor no coração. O meu amor venceu o meu ódio. Não me sinto vivo como antes, mas me sinto melhor como espírito. Espero, um dia, voltar a viver de verdade. Até lá, sigo, um dia como se fosse mil anos, de cada vez.”

E assim, entre perdas irreparáveis e pequenos recomeços, João Thomaz seguiu. FIM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

===Panda e ‘os home da luz’====

A história de Panda

Diz o amigo e vizinho Panda: “Rapaz do céu, segundona daquelas, acordei numa deprê braba. Desempregado, sem grana, só com o pó do borso. Pensei: que se foda, vou dormir até meio-dia só de raiva. Mas quem disse que pobre no Brasil tem direito de ficar triste? Quando tentei virar pro lado, a cachorrada começou a latir feito doida.
Achei que era gato de rua. Mas o latido não parava. Puto da cara, levantei pra xingar os bichos. Quando abri a cortina, lá estavam os home da luz: um já trepado no poste cortando minha energia e da vizinha, e outro embaixo só de vigia.
Puta merda! Saí de chinelo arrebentado, pedindo pra esperarem até eu pagar no boteco do Carlão. Mas os caras, na maior calma: ‘Ih, vizinho, já cortei. Tamo só cumprindo ordem do dotor…’
A vizinha xingava o coitado do eletricista. Ele poderia até aliviar? Poderia. Mas não. Era o trampo dele. Fazer o quê? Agora só religando depois de pagar os três meses atrasados.
Voltei pra dentro, puto da cara. Peguei o tênis rasgado, juntei os caraminguás e fui pagar a maldita conta. Cheguei no boteco do Carlão, quitei a dívida e já liguei pra Companhia. “Religa em até 24 horas”, disseram. Ou seja, já sabia: sem luz e sem internet até o outro dia.
Carlão, vendo minha desgraça, mas também vendo oportunidade, ofereceu uma pinga. Tomei três goles direto. Do lado de fora, uma mesa vazia me chamou. Pedi:
Carlão, traz um litrão da mais barata.
Paguei com o último real que sobrou da conta de luz. A cerveja era quente e ruim, mas desceu como se fosse a melhor do mundo. Pedi outro, dessa vez fiado. Carlão olhou pra placa na parede: ‘Fiado só pra maiores de 90, acompanhados dos pais’. Bufou, mas trouxe.
E é sempre assim: fiado de pinga é mais sagrado que conta de luz. Foi por isso que atrasei — ela que espere. O golão ajuda mais que chorar no canto da casa.
Logo chegaram uns parças da vila. Conversa vai, cachaça vem, quando vi já era meio-dia, depois cinco da tarde, depois onze da noite. A conta, claro, explodiu. Carlão fechou a birosca puto, mas já tinha anotado tudo.
Voltei pra casa escura. Dei ração pros cachorros, troquei a água, vomitei um pouco, fiz um miojo e despenquei no sofá. Até amanhã, mundo do diabo!
Na terça, ressacado, acordei quase meio-dia de novo. Ainda sem luz. Quando pensei em voltar a dormir, chegaram os home da Companhia pra religar. Saí todo zuado, fedorento de pinga. Vomitei no gramado. Eles riram, ligaram a energia e foram embora.
E foi aí que pensei: tristeza? Depressão? Foi pro esgoto junto com o vômito. Nesse país fodido, nem tempo a gente tem de ficar triste. Melhor a raiva. Raiva empurra pra frente.
Porque, no fim das contas, o Brasil é uma grande usina de merda: dívidas, desemprego, políticos ladrões, e o povo, sempre puxando saco deles. Parece um hospício-presídio, cheio de idiotas dançantes nas redes sociais.
Mas a lição é essa: por mais fodida que esteja a vida, uma hora melhora. Ou não. E se não melhorar, paciência, segue meia-boca. O que não dá é se matar de tristeza, porque o mundo não tá nem aí pra você. Tanto faz viver, morrer, rastejar ou sorrir.
Então, apenas viva — do seu jeito. Ligue o foda-se. Brinde a vida, mesmo que fiado.

Alguns dizem que existe karma, justiça cósmica, expiação no além. Outros dizem que não há nada, que no fim tudo vai pro vinagre: você, eu, a Terra, o Sol, a galáxia. Se for assim, tanto faz.
O que resta é aceitar. Aceitar os problemas, os inimigos, os vizinhos idiotas, os colegas cobras, até quem torce pela sua queda. Aceitar, e de vez em quando desligar-se de tudo. Viver como quem já não é afetado pelas desgraças do mundo.
Seja como Diógenes, o cínico: desapegue, nem que seja por um dia. Saia, beba, ria, fale besteira. Ligue o botão do foda-se. Às vezes, é só isso que sobra num país tragicômico como o nosso, onde 1% detém quase tudo e o resto se afoga em miséria.
O caldeirão do mundo ferve, a batata de todos assa. Enquanto isso, o povo se gadeia nas redes, dançando ao som da algoritmia do caos.
Esse é o mundo, meus amigos. Nem o diabo dá conta da humanidade.
Então, se o mundo quiser cortar tua luz, diga: foda-se! — e vá tomar um golão. FIM.

  E. E-KAN

 

Nota informativa sobre a tradução da citação feita por Bobby Kennedy: A tradução utilizada no presente texto acima, é da tradução da Série da Netflix: 'Bobby Kennedy para Presidente'.

A BBC Brasil, em uma publicação, fala sobre o trecho citado por Bobby Kennedy do Poema de Ésquilo. Diz a BBC:

[...] "Meu poeta favorito é Ésquilo", disse Kennedy à plateia, antes de citar um trecho de Agamemnon, tragédia grega de autoria do dramaturgo, traduzida pela historiadora Edith Hamilton em 1930: "Em nosso sono,a dor que não se pode esquecer cai gota a gota no coração até que, em nosso desespero, contra nossa vontade,a sabedoria vem a nós pela sublime graça de Deus."

Kennedy cometeu, na verdade, um equívoco ao fazer a citação, substituindo "despeito" (despite, em inglês) por "desespero" (despair). Na gravação, em meio aos soluços na multidão, você pode observar que ele faz uma pausa em 'des', como se não tivesse certeza da segunda sílaba. Como Christopher S. Morrissey escreveu, é difícil saber "se ele citou erroneamente deliberadamente, fortuitamente ou infelizmente".

Mas o fato é que suas palavras moderadas tiveram um efeito poderoso. O público em Indianápolis se dispersou em silêncio, diferentemente do que aconteceu em outras 110 cidades dos EUA em que houve tumulto após o anúncio da morte do ativista negro.

Na manhã seguinte ao assassinato de Luther King, Kennedy falou em Cleveland, no Estado de Ohio, sobre "a ameaça insensata da violência". Ele condenou não só a violência das balas e das bombas, mas "a violência das instituições; a indiferença, a inação e a lenta decadência", assim como a alienação que nos leva a "olhar para nossos irmãos como alienígenas: homens com os quais compartilhamos uma cidade, mas não uma comunidade; homens ligados a nós por uma moradia em comum, mas não por um esforço comum ".Luther King pregava sobre estarmos "entrelaçados em um único tecido do destino". E Kennedy estendeu a metáfora: "Sempre que rasgamos o tecido da vida que outro homem de forma dolorosa e desajeitada teceu para si próprio e para seus filhos, toda a nação é degradada". [...] HYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-44035726"(HYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-44035726"BBCHYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-44035726" HYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-44035726"BrasilHYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-44035726")

 



E.K


 

 

 

 

 

 


                                         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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