Livro: Viajantes da Luz na Escuridão - histórias extrafísicas
VIAJANTES DA LUZ NA ESCURIDÃO
Histórias Extrafísicas
1ª e 2ª Temporada
E. E-Kan
Episódio 1 – Os Cães Que Esperam
Era terça-feira quando Otávio morreu. Sem aviso, sem doença, sem despedida. Simplesmente caiu enquanto tomava café na varanda de casa. A xícara rachou ao bater no chão e, segundos depois, o coração também. Não houve tempo de pensar em nada. Nem medo. Apenas um ruído surdo no peito, um escurecer breve e... silêncio.
Quando “acordou”, não era mais terça. Não era mais tempo. Era outra coisa — algo denso, pesado, feito de névoa. Estava de pé, parado diante do próprio corpo no chão. A boca levemente torta. A camisa amassada. O jornal ainda dobrado ao lado. Tentou tocar o próprio braço e passou direto. Tentou gritar, mas o som morreu nele mesmo. E então percebeu: tinha cruzado o rio. Estava do outro lado. O velório foi um fracasso, como quase tudo que tentou em vida.
A capela branca do crematório, com bancos de madeira gastos e ar-condicionado estalando, parecia mais uma sala de espera de hospital abandonado. Havia flores genéricas, as mesmas que a funerária colocava por padrão. Nenhum amigo. Nenhum parente distante. Só a esposa — sentada num canto, com os olhos secos — e três cachorros de rua na porta, abanando o rabo como se reconhecessem algo sagrado naquele corpo ausente.
Otávio observava tudo em silêncio. Ainda confuso. Tentava lembrar de quem era. Tinha sido bancário por décadas. Um homem correto. Sem escândalos. Sem glórias. Vivera como um peão civilizado. E agora ali estava ele: sozinho até na morte.
— É isso? — murmurou. — Trinta anos de serviço. Um apartamento quitado. Três planilhas de orçamento pessoal e nem um amigo pra carregar o caixão?
Ninguém respondeu. Nem precisava. Do lado de fora, um dos cachorros uivou, longo e triste.
A cremação foi rápida. A esposa ficou até o fim. Tocou o caixão antes de ser levado. Não chorou. Apenas disse:
— Que você encontre luz... ou pelo menos sossego.
Quando a chama começou, Otávio sentiu algo puxá-lo por dentro. Um tipo de torção invisível, como se estivesse sendo passado de uma dimensão a outra por um funil de silêncio e calor. Depois: a queda.
Acordou num lugar escuro. Um vazio com cheiro de ferrugem e eco de vozes distantes. (CONTINUA)
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