LIVRO: ANDARILHOS ERRANTES
Veritatis simplex oratio /
A verdade dispensa enfeites.
Diante da Imensidão Cósmica, da Incomensurabilidade da Vida e da Inefabilidade da Existência, nos tornamos o que sempre fomos, Andarilhos Errantes. (K4n)
Parte 1: Nem só de pão viverá o homem
Nas ruas, haverá noites em que você não dormirá nem a pau. E haverá noites em que vai dormir feito pedra, como se tivesse levado uma paulada na cabeça. A vida é assim: num dia, você está cheio de vida, de vontade, de desejo. No outro, está perdido num labirinto de elucubrações, buscando o sentido do universo e se perguntando por que diabos tudo é como é. E quanto mais o tempo passa, mais louca a coisa fica.
Claro, nem tudo neste mundo é dor e ranger de dentes. Mas, na maioria das vezes, parece que vivemos no inferno. Exausto das andanças sem sentido e com as tripas fervendo pela bebida de quinta categoria, deito sob uma marquise, quatro da matina, torcendo pra dormir até mais tarde. Ou, quem sabe, com sorte, não acordar. Mas a vida é sacana e insiste em me manter por aqui, junto a tantos outros: jovens, velhos, crianças, mulheres, cães, gatos. Todos jogados, esquecidos, chutados pela sociedade fake e seu mundo cão.
Certa vez, um velho mendigo chamado Tango me disse: "Dormir nas ruas é como dormir no purgatório. Entre o Céu, o Inferno e lugar nenhum. E, mesmo quando a gente chora, não adianta. Ninguém ouve. Nunca haverá ninguém". Mas não pense que ele se entregava.
Alguns seres são invisíveis aos olhos do mundo, mas carregam a luz que nasce da escuridão, corre pelo abismo e desafia o vazio. É essa luz que os faz diferentes dos outros, independente da condição deles nessa dimensão da Vida. Tango era um desses. Um Andarilho iluminado, que passou pela Terra despercebido pela história dita oficial. Um homem de alma imensa, coração vasto e um amor cósmico que não cabia nele. Vi ele dividir sua marmita - paga com o dinheiro das latinhas que catava de domingo a domingo - com outros Andarilhos, com cães e gatos na calçada da igreja. Aquela cena nunca me saiu da cabeça. O rosto dele parecia transfigurado, sorrindo pela simples alegria de ajudar. Naquele dia, Tango sentou ao meu lado e cantou uma música mexicana:
"Com dinheiro e sem dinheiro Faço sempre o que quero E a minha palavra é a lei... Não tenho trono nem rainha Nem ninguém que me entenda. Mas continuo sendo o rei."
Tango dizia que as pessoas fazem barulho para abafar seus demônios. Mas os demônios estão dentro. E falava mais: "Otários. Todos bonecos, marionetes, pagadores de impostos que bancam a boa vida de políticos que não valem nada. A maioria já morreu e esqueceu de cair. Oscar Wilde já dizia: 'Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria apenas existe'”.
Eu retrucava: as ilusões são as tábuas de salvação da maioria. E Tango ria, com aquele jeito de quem sabe muito mais do que diz, mas prefere nem responder. Saía devagar, olhando para o chão, as mãos para trás, mergulhado em pensamentos. (CONTINUA)
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