LIVRO: TUDO VAI PRO VINAGRE
TUDO VAI
PRO VINAGRE
Veritatis simplex oratio /
A verdade dispensa enfeites.
Diante da Imensidão Cósmica, da Incomensurabilidade da Vida e da Inefabilidade da Existência, nos tornamos o que sempre fomos, Andarilhos Errantes. (K4n)
Parte 1: Nem só de pão viverá o homem
Nas ruas, haverá noites em que você não dormirá nem a pau. E haverá noites em que vai dormir feito pedra, como se tivesse levado uma paulada na cabeça. A vida é assim: num dia, você está cheio de vida, de vontade, de desejo. No outro, está perdido num labirinto de elucubrações, buscando o sentido do universo e se perguntando por que diabos tudo é como é. E quanto mais o tempo passa, mais louca a coisa fica.
Claro, nem tudo neste mundo é dor e ranger de dentes. Mas, na maioria das vezes, parece que vivemos no inferno. Exausto das andanças sem sentido e com as tripas fervendo pela bebida de quinta categoria, deito sob uma marquise, quatro da matina, torcendo pra dormir até mais tarde. Ou, quem sabe, com sorte, não acordar. Mas a vida é sacana e insiste em me manter por aqui, junto a tantos outros: jovens, velhos, crianças, mulheres, cães, gatos. Todos jogados, esquecidos, chutados pela sociedade fake e seu mundo cão.
Certa vez, um velho mendigo chamado Tango me disse: "Dormir nas ruas é como dormir no purgatório. Entre o Céu, o Inferno e lugar nenhum. E, mesmo quando a gente chora, não adianta. Ninguém ouve. Nunca haverá ninguém". Mas não pense que ele se entregava.
Alguns seres são invisíveis aos olhos do mundo, mas carregam a luz que nasce da escuridão, corre pelo abismo e desafia o vazio. É essa luz que os faz diferentes dos outros, independente da condição deles nessa dimensão da Vida. Tango era um desses. Um Andarilho iluminado, que passou pela Terra despercebido pela história dita oficial. Um homem de alma imensa, coração vasto e um amor cósmico que não cabia nele. Vi ele dividir sua marmita - paga com o dinheiro das latinhas que catava de domingo a domingo - com outros Andarilhos, com cães e gatos na calçada da igreja. Aquela cena nunca me saiu da cabeça. O rosto dele parecia transfigurado, sorrindo pela simples alegria de ajudar. Naquele dia, Tango sentou ao meu lado e cantou uma música mexicana:
"Com dinheiro e sem dinheiro Faço sempre o que quero E a minha palavra é a lei... Não tenho trono nem rainha Nem ninguém que me entenda. Mas continuo sendo o rei."
Tango dizia que as pessoas fazem barulho para abafar seus demônios. Mas os demônios estão dentro. E falava mais: "Otários. Todos bonecos, marionetes, pagadores de impostos que bancam a boa vida de políticos que não valem nada. A maioria já morreu e esqueceu de cair. Oscar Wilde já dizia: 'Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria apenas existe'”.
Eu retrucava: as ilusões são as tábuas de salvação da maioria. E Tango ria, com aquele jeito de quem sabe muito mais do que diz, mas prefere nem responder. Saía devagar, olhando para o chão, as mãos para trás, mergulhado em pensamentos.
E ele tinha razão. Mal o sol aparece e a cidade enlouquece: gente correndo, buzinando, gritando, tentando pagar boletos, tentando pagar a vida virando mercadoria e moeda ao mesmo tempo, fingindo que têm uma vida que nunca vai se realizar. Enquanto isso, os que já tem mais do que precisam para viver bem, continuam entupindo suas contas de dinheiro.
O mundo é cheio de loucos, mas não tem espaço pra tanta loucura. Na Idade Média, pensadores eram chamados de doentes mentais. Achavam que os "loucos" tinham uma pedra na cabeça. Bosch, o pintor, debochou disso em sua obra A Extração da Pedra da Loucura. Na verdade, era uma tulipa. Uma flor. Genialidade e ternura sendo confundidas com loucura. A história quase sempre se repete. E os canalhas no poder também, só que com outras fuças, outro tipo de malignidade.
Um dia, a bolha de misérias, injustiças, abusos criminosos misturada com a idiotização em massa, vai estourar. E quando isso acontecer, vai ser o salve-se quem puder. Talvez, quem sabe, os loucos geniais ainda salvem o mundo!?
Mas, até lá, uns fodem, outros rezam, alguns trabalham, outros são atropelados pela sorte. E os privilegiados, vez ou outra, dormem até mais tarde. Desde que não sejamos acordados pela luz, ou por algum desgraçado com um isqueiro e raiva da vida querendo incendiar um morador de rua.
O frio das cidades do Sul me lembra Moscou. Já estive lá. E em tantos outros lugares. Agora estou em mim mesmo. E dá no mesmo. A biblioteca só abre às nove. Até lá, troco umas moedinhas imundas por um café e um pãozinho. Todo trabalhador - mesmo o cerebral - deveria ter esse direito. Pelo menos isso.
Naquela manhã, caminhando sem rumo entre os zumbis apressados da cidade, avistei uma figura encostada na parede de um prédio antigo. Tinha um cheiro estranho, mas um sorriso que paralisava o caos ao redor. E curvas... daquelas que fariam até o mais centrado dos homens perder a linha. Vulnerabilidade, força e loucura num só ser.
Alguns poetas de boteco juram que o mais belo numa mulher é o sorriso. Besteira. Todas as curvas importam. As curvas onde os homens inevitavelmente se perdem, tombam, se quebram e, depois, se jogam de novo.
Ela se dizia hippie. E se dizia fora do sistema. Fiquei ali, alguns segundos, a observando conversar com dois malucos de rua. Curioso, me aproximei:
— Fora do sistema? Fora de qual deles? Porque tem sistema pra tudo: político, moral, econômico, religioso, ideológico...
Ela deu uma risada seca, debochada:
— Que o diabo me leve se tudo isso não for a mesma merda! Eu falo do sistema dessa vida idiota. Aquele que te ensina, desde pequeno, a ser “alguém”. E ai de ti se virar um Zé Ninguém! Te prometem o mundo, mas só te cobram. Te esfolam. Cagam pra gente. Depois querem julgar e apontar. Mas eu não participo mais disso. Minha vida é outra. Alternativa. Igual a sua, talvez. Você vive nas ruas, dorme onde der, vai à biblioteca, anda de cidade em cidade feito fantasma... Estamos fora do jogo. Fora do sistema da sociedade de idiotas comandada por cornos e canalhas. Somos invisíveis, Graças à Deus!
Pensei comigo: que mulher louca! Mas da loucura boa. Respondi:
— Entendo. Ou finjo entender. Tanto faz.
E era verdade. Para mim, tanto faz se a gente está dentro ou fora de qualquer coisa. Tudo vai virar poeira cósmica de qualquer forma. Conheci lugares, gente, amores e monstros tão convincentes que pareciam gente. Dormi em lençóis caros em camas de alto padrão e em panos velhos, junto de cachorros num papelão. Agora, ali, olhando aquele ser luminoso e estranho, com sorriso de quem engoliu um rádio como se fosse um anjo que foi cuspido do paraíso, me senti...digamos, ausente no presente pretérito mais do que imperfeito do futuro que é o Agora. E só. Só como sempre e como nunca.
Ela falou sem parar. Ideias alternativas, frases esquisitas, mas com aquele sorriso hipnótico. E eu ali, absorvendo. Como quem se aquece perto do fogo.
De repente, veio o convite:
— Que tal viajarmos juntos? Dividimos o que conseguirmos: grana, comida, bebida, etc e tals. Observamos o mundo passar como formigas com duas pernas. O que me diz?
Respondi, com cuidado:
— Parece interessante, mas...
— A vida é cheia de “mas”! — cortou ela, rindo.
Retomei:
— Eu ando sozinho. Gosto de estar com as pessoas, mas viver com elas... não consigo. Prefiro estar, como estou com você, agora. Depois, estarei em outro lugar. Talvez, em outra vida, ‘quando formos gatos’, a gente se encontre de novo e transe uma boa caminhada juntos. Mas nesta... não dá.
Ela franziu a testa, meio surpresa, mas sobretudo, irônica:
— Isso é estranho. Louco. Idiota. Solitário. Você estar e depois não mais estar. Ou você é um puta gênio ou um burro.
— Talvez os dois. — sorri. — Sabe aquele ditado: ‘Jesus te ama porque não convive contigo?’ Então. As pessoas acham que gostam de mim. Mas elas não me conhecem. Eu me conheço. E sou insuportável.
Ela caiu na risada:
— Você é diferentão. Um Andarilho meio limpinho, cheiroso. Fugiu de um manicômio? Você não é o que quer parecer ser.
— Que ironia. Também acho que você não é o que parece ser.
— Ninguém é, ela disse. Neste mundo, isso que chamam de corpo físico é apenas um disfarce. Somos outra coisa, mas temos de fingir ser outras coisas até sermos obrigados a ser quem somos. Talvez, noutra vida, eu casasse contigo. E depois te deixasse, te partisse o coração com o machado da minha loucura, como alguém picando lenha. Como fazem as mulheres honestas consigo mesmas.
— Então, você não é do tipo que promete amor eterno?, perguntei.
— Ela disse: Mais do que Poder e putaria, os homens gostam de mentiras. As mentiras sinceras são as que mais convencem os que se acham ‘inconvencíveis’. Mais do que dinheiro, as Mulheres gostam de serem lembradas que são mulheres. No fim, usamos uns aos outros para lembrar quem somos neste mundo.
— Isso é machismo ou egoísmo? Ironizei.
— Realismo. Mas tanto faz, ela disse.
Ela sorriu, aquela malandragem de menina-mulher. E completou:
— Mesmo assim, os homens servem para alguma coisa. Nem que seja para mostrar que nem o último dos inúteis é completamente inútil.
E rimos juntos. Afinal, não havia como não concordar com isso. Perguntei seu nome. Elisa. Disse o meu. Rúlio, com R.
Ela quis saber mais. Me chamou para sentar. Mas eu precisava ir. Tomar meu café e ir para o meu trabalho de trabalhador cerebral e entregador de Nada na Terra de todas as ilusões. Beber meu conhaque barato. Continuar sendo o que sou, um Ninguém Consciente, ou qualquer merda do tipo.
Ela insistiu. Já juntava seus troços hippies. Disse:
— Vamos, vai! Cada um paga o seu. Trabalha com o quê?
— Sou trabalhador cerebral e entregador de Nada.
— Ela sempre rindo de um jeito insanamente irresistível: Como assim?
— As merdas que penso não servem para nada. Então, eu entrego o Nada que eu mesmo produzo.
— Ah, vai nessa... Me conta no caminho?
Observei sua astúcia e, meio enfeitiçado, respondi:
— Já estamos indo, não é?
Parte 2: A padaria do gordão desbocado
Ao chegarmos à padaria, seu Manuel — o famoso portuga boca suja — escancarou a bocarra cheia de dentes tortos, alguns dourados, outros ameaçando cair, parecendo um louco de taverna vencida. E, mexendo aquele bigode ridículo que sempre tremelicava quando ele falava, largou sua costumeira recepção:
— Puto! Puto Rúlio! Quanto tempo! Encontraste uma bela puta, hein?! - - - era assim que ele se referia a qualquer mulher, alegando tratar-se de um velho costume de Portugal - - -. Eu o detestava por isso. Mas o que podia fazer? Ele nos aturava em sua birosca.
Confesso que temi pela reação. Achei que Elisa fosse saltar da cadeira e chamar o velho de tudo quanto é nome. E lá se iria meu café, porque padaria que aceita Andarilho já é raridade, imagina se rola barraco?
Mas, para minha surpresa, Elisa, parecendo imune às merdas do mundo e especialmente às merdas humanas, ignorou Manuel como quem ignora uma barata na parede. Sentou logo no meu canto de sempre. Mas, como sou desapegado até dos cantos que sento, deixei pra lá.
Fui ao banheiro conferir se os olhos ainda estavam no lugar, e ao voltar, Manuel, cara de pau como sempre, já havia deixado um pão e um café pra mim, e um sanduíche para Elisa.
— Pagaste? — perguntei.
Ela, sorrindo:
— O senhor bigodão disse que era cortesia.
— Mas que bondoso está o Manuel hoje...
Ela:
— Ele me fez uma proposta.
— Que proposta?
— Se eu for ali, atrás do biombo, e colocar minha boca onde ele indicar, ganho almoço, janta, banho quente e cem dinheiros.
Fiquei em choque por dois segundos, mas nem tanto. Conhecendo Manuel...
— Que grande filho da puta. — murmurei.
Ela deu risada. Uma risada de quem já viu de tudo e já não se abala mais com quase nada. Riu como uma dama da vida que se diverte com a hipocrisia alheia, sobretudo, como quem ri da maldade e da banalidade do mal:
— E então, o que você acha?
— Acho que, nesse mundo insano, algumas coisas são realmente mais fáceis para as mulheres...
Ela, arqueando a sobrancelha:
— Ei! Nem sempre faço isso! Só em fases de aperto. Muito aperto.
— Eu sei. E mesmo que pareça, não estou te julgando. Eu só... bom, não imaginava. E para ser sincero, faz tempo que não faço nada... além de pensar. Mas isso não conta.
— Eu também não. Faço quando preciso, quando quero, e quando estou a fim, faço com gosto, disse ela.
— E está afim agora? Perguntei.
Ela, com aquele sorriso lunático que já estava se tornando familiar:
— Espera aqui. Já volto.
Passei a mão no rosto, mais desiludido do que surpreso. Vi aquela ruiva escultural atravessar a padaria com um rebolado displicente, atravessar o biombo e sumir.
Não havia o que fazer. Respirei fundo. Pratiquei a ataraxia. Comi o pão que o puto Manuel amassou, tomei o café e lustrei minha garrafinha de conhaque.
Viver é isso: receber choques de realidade sem nunca estar pronto de verdade.
Minutos depois, Elisa voltou. Sorria um sorriso esquisito: lunático, silencioso, daqueles sorrisos que só quem vive no extremo possuem. Não havia vergonha alguma em seu rosto. Talvez uma mistura de loucura, tristeza e orgulho travestida de normalidade.
Ela sentou, me encarou:
— Não me olhe como pai ou marido. Não me julgue. Tem muita mulher por aí, considerada “séria”, que faz pior por muito menos. A maioria está presa a trabalhos que odeia, cuidando de maridos imbecis, filhos ingratos... E ainda brigam pelos direitos de todas. Eu faço o que quero, quando quero. Como a Belle de Jour.
— Conheço. Brooke Magnanti, a escritora.
— Exato. Foi puta de luxo em Londres. Teve clientes mais gentis que os namorados. Um otário tentou revelar a identidade dela. Ela mesma se revelou. E ficou famosa. Eu não sou puta. Mas, como ela, faço o que quero. Por dinheiro, por gosto. Ninguém tem nada com isso. É problema pra você?, perguntou.
— Não. Pra mim, tanto faz. A vida é uma distração antes da noite eterna, como diria Raul, disse.
Ela, outra vez lunaticamente sorridente:
— Então nada de baixo astral. Olha só: tenho cento e cinquenta contos. Que tal um motel barato, uma distraçãozinha, e amanhã a gente vaza para outra cidade?
Eu olhei para ela. Sorri. Não disse nada. Porque às vezes, não precisamos dizer absolutamente nada.
Elisa dizia que sempre rola algo diferente, para o bem ou para o mal. ‘Aproveitamos o que é para o bem e chutamos o cu do que é para o mal!’, dizia ela.
Parece que Elisa já tinha chutado muito cu em sua vida alucinante. E então, nos mandamos...
Parte 3: Breve lembrança
Antes de sairmos da padaria, Manuel, o sem-vergonha, se aproximou, me deu um tapinha nas costas e disse com aquele sorriso de ouro falso reluzindo:
— Meu bom puto! Venha mais vezes. E traga sua amiga!
Olhei fixamente nos olhos daquele portuga desbocado e, de repente, fui tragado por uma lembrança grotesca de um episódio na África do Sul.
Na época, eu estava lá como pesquisador — sabe-se lá por quê — atrás de peixes exóticos e criaturas marinhas desconhecidas. Fiquei quase um ano em Zanzibar. Lugar peculiar, cenário da Partilha da África (1880–1913), que de reduto britânico e alemão virou um mosaico de culturas, invadido por árabes e outros povos.
Além de peixes raros, Zanzibar tinha cravo, canela, pimenta e outras especiarias que perfumavam o caos. Foi lá que conheci Harare.
Nunca vi uma mulher tão estonteante. Harare era esposa de um pobre pescador de pavio curtíssimo. O tipo de homem que prometia matar quem sequer olhasse para ela com intenção suspeita.
Mas, às vezes, o cara se fazia de burro ou realmente era. Ingleses apareciam com dinheiro e elogios, enchiam seu ego e levavam o peixe. E, com jeitinho, levavam Harare também. Convidavam o casal para “reuniões sociais”, mas só a mulher comparecia nessas reuniões, enquanto o marido ia pescar. Na verdade, eram orgias.
Os ingleses, canalhas de primeira, davam bebida, presentes e até umas substâncias esquisitas pra Harare, que, segundo ela própria me contou um dia — enquanto transávamos atrás da birosca do próprio marido —, virava uma deusa do prazer, encarnada e furiosa. Ela dizia que alguns deles eram até ‘do outro tipo de fruta’, mas participavam da festa assim mesmo.
Talvez o marido soubesse. Talvez gostasse de imaginar. Vai saber... Tem homem que goza só com a ideia. E tem idiota para tudo nesse mundo.
E a vida é isso: uma sucessão de insanidades, loucuras, cenas inverossímeis que se misturam à miséria e ainda assim deixam na boca um gosto de prazer proibido. Coisas belas e absurdas que se fundem num instante de carne, suor e perda.
Então, voltei do ‘transe momentâneo’ despedi-me de Manuel, o protervo, o portuga gordão e desbocado. E vazamos. Passamos o dia como cães de rua, e à noite, fomos parar numa pocilga mal disfarçada de hotel.
Parte 4: O hotel podrão
O lugar era um moquifo digno de filme de terror: parecia abandonado, infestado de ratos e baratas, e tinha aquele cheiro típico de velhos morrendo em silêncio. Mas ficava ao lado da rodoviária, o que tornava prático pegar o ônibus depois de uma noite de bebedeira — e, talvez, fodelança. Ainda que eu nem quisesse.
Tomamos banho num chuveiro que cuspia gelo, mas tudo bem — fazia um calor de fritar o cérebro. Jantamos umas maçãs que Elisa tinha escondidas na tralha hippie. Aí, ela tirou do bolso interno da velha jaqueta um embrulho estranho, desembrulhou com calma e revelou um pó branco.
Com um bingo quebrou as pedrinhas maiores e com um cartão velho fez duas carreiras perfeitas. E então, com ar teatral:
— Adivinha para que serve uma nota de dois reais?
Ela cheirou. Eu cheirei. Depois, brindamos com umas cervejas que ela tinha resgatado na portaria da pocilga. Falamos de tudo: andanças malucas, filosofia, sexo, tragédias e tesões.
Mesmo com a cabeça girando a mil, deitei num sofá velho, empoeirado e rangente. Elisa, ligada no modo "possessa", dançava ao som rouco de um celular com a tela trincada, tocando Johnny Cash — “Ghost Riders in the Sky”. Estava completamente doidona. Ela me encarava com um olhar que misturava desejo, loucura, tesão homicida.
Veio até mim. Tirou a jaqueta devagar e se deitou ao meu lado. Eu fingi dormir. Queria parecer estoico. Queria não ser atingido. Queria ser pedra. Mas ninguém é pedra por muito tempo.
Ela encostou seu grande traseiro em mim, esfregando-se como quem sabe exatamente o que faz. Eu tentei manter o estoicismo. Mas, como resistir à carne quente numa noite suada?
— Noite quente, hein? — disse ela.
— Tá calor mesmo. E você ainda deita aqui.
— Me deu vontade.
— Sei.
— Ficou pensando em mim e o Manuel, não ficou?
— Porra, tentei não imaginar. Já tenho traumas suficientes, disse.
— Ele disse que tem mulher. Mas que ela não dá mais pra ele, então não aguenta mais olhar na cara dela, Elisa comentou.
— O velho papo de sempre, respondi.
— Rúlio, quanto tempo um homem aguenta sem meter, sem transar, sem gozar de verdade? Ela perguntou.
— Depende. Eu, por exemplo, já tô numa fase em que tanto faz. Nada mais me dá prazer, respondi.
— Se masturba só com a tua filosofia maluca, então? Ela indagou.
— Talvez. Ela é a única que me impede de ser igual ao resto.
Ela riu, apertando por cima da calça:
— E essa coisa aqui crescendo, é o quê? Filosofia dura?
— Não...
— E agora, com minha mão em cima?
— Ainda nada.
— E se eu tirar e enfiar tudo na minha boca?
— Tanto faz...
Ela fez. Com uma entrega quase sagrada e um fogo animalesco.
— Que coisa enorme você tem, Rúlio. Adoro isso!
— Puta que pariu, Elisa!
— Viu? A vida ainda dá uns presentinhos. Uns bem gostosos...
Ria como uma maluca. Subia e descia com fúria e prazer. Sabia exatamente como conduzir o corpo e o outro.
Naquele momento, pensei: nem Ulisses amarrado ao mastro resistiria a Elisa. Com aquele corpo de curvas fatais, o sorriso vadio e o olhar que hipnotizava, ela poderia estar na alta sociedade, trucidando corações de velhos ricaços, milionária se quisesse. Mas não. Elisa preferia o caos. E dominava o caos.
Mesmo com o corpo reagindo, por dentro eu era apatia. Um boneco de plástico sendo usado por uma tempestade vermelha. No fim daquilo tudo, só me restava pensar que, sim, talvez a frase esteja certa: “Nem só de pão viverá o homem.”
Parte 5: Prisioneiros do acaso
Rúlio falava como quem atravessa um deserto de ideias: entrecortado, meio sussurrado, até que se calou, mergulhado num silêncio denso. Parado sob a janelinha gradeada da cela, fixava o pequeno recorte de céu que ainda podia ser visto.
O companheiro de cela que o escutava, Digão, quebrou o silêncio:
— Caralho, mano... como é que tu veio parar aqui?
Rúlio respirou fundo, pensativo:
— Meu caro amigo desconhecido... uma mulher pode levar um homem ao céu ou ao inferno mais rápido que um raio ou uma diarreia, só com o sorriso ou a curva de um quadril. Muitas vezes nem é por maldade. Lembra de Adão e Eva?
— Ih rapaz..., disse Digão.
— Dormimos num hotel podre. Acordamos cedo e seguimos pra rodoviária. Quando ainda bebia um gole do meu conhaque, fomos abordados por uns homens que se diziam policiais. Vasculharam as tralhas de Elisa e encontraram o tal pó que liga as ideias no 220. Resolveram levar ela. Eu gritei:
— Ei, tô com ela!
Ela me olhou surpresa:
— Você é doido?
— É bem provável que eu seja. — respondi sorrindo.
E aqui estamos. Sem documentos, me deram um crachá e me acusaram de coisas que nem um roteirista de filme B pensaria. Uma semana aqui, contigo, e sem notícias dela. Elisa sumiu nas engrenagens do sistema.
Digão me olhou firme:
— Cê não tem cara de bandido, Rúlio. É só um Andarilho. Isso aqui tá errado.
— Tanto faz... — respondi.
— Como assim, porra? Deixa de ser burro! Disse Digão.
— Amigo, já rodei o mundo. Vivi tanto que nem vi a vida passar. No fim, tudo parece uma distração. Nem sei se é perda de tempo, porque nem sei se a gente realmente tem tempo para perder. Acredita em Deus? Perguntei.
— Depende... e você? Disse digão.
— Acredito no que você acredita. Respondi.
— E se eu não acreditar?
— Ainda assim, acredito em você que não acredita. Viu? Tanto faz.
Digão ficou mudo. Eu continuei:
— Cada um vê a vida de um jeito. O problema é que a maioria abandona seus próprios pensamentos para repetir as baboseiras dos outros. Acham que isso é coexistir. Mas não é. Isso é ser papagaio de pirata de ideia alheia.
— Tá falando de quem?
— Tô falando de todos esses caras que muitos acham que são santos fodões inquestionáveis. Os caras pregaram a paz entre todos. Mas, seus seguidores derramaram e ainda derramam sangue em nome deles. Por quê?
— Vontade de ser mais que o outro?
— Talvez. Mas, amigo, como bilhões de pessoas podem seguir cegamente a ideia de um homem e chamá-la de verdade absoluta? Isso é parvo!
— Parvo?
— Uma burrice poética. Quando você entende que tua existência tanto faz pro universo, você se torna tão indiferente quanto ele.
— Tu é um parvo então.
— Todos somos.
— Tu acredita que tem ‘ET’ por aí?
— E se tiver? Como ficam nossos deuses, infernos, pecados e moralismos? Se os ETs forem mais evoluídos, talvez vejam a gente como um bando de psicopatas.
— E se forem piores que Hitler?
— Stephen Hawking alertou: "Se eles vierem, talvez aconteça como quando Colombo chegou na América."
— A gente se fode.
— Sim. E aí, tudo aquilo em que acreditamos vira fumaça.
— E como a gente sabe o que é verdade então?
— Ciência, meu caro. Mas não idolatre a Ciência. A ciência também tem seus corruptos, seus farsantes. É por isso que precisamos de outra ferramenta: a Filosofia. Pesos e contra-pesos. O que é certo hoje, amanhã estará errado. O que parece errado hoje, amanhã poderá estar certo. Pensar sobre tudo que é, é a tarefa mais importante de todo o trabalhador cerebral.
— Mas tu falou que era tudo babaquice!
— A filosofia chata das faculdades, sim. Uma babaquice. Mas a Filosofia Verdadeira, aquela selvagem, aquela que não foi capturada e domesticada dentro das Universidades, aquela que busca o esclarecimento com sangue nos olhos, indomável, essa ainda serve para alguma coisa.
— E Sócrates?
— O velho dizia que nada sabia. E isso deixou os ricaços da Grécia putos. Porque, se ninguém sabe nada, nem eles sabiam. E isso fere o ego. Então, mataram o cara.
— Filosofia perigosa essa tua. Você sabe que vivemos num tempo que falar certas verdades, duvidar, questionar, ter ideias e opiniões próprias, às vezes, é pior que matar alguém ou roubar os pobres, disse Digão.
— Toda verdade é perigosa. Toda mentira é confortável. Em todos os tempos.
— E como tu vê a morte?
— A morte? É a mais escura das luzes. Quando tudo se apaga. E se não der tempo de puxar a tomada, tanto faz.
— Tu é muito doido, Rúlio.
— É por isso que a gente se entende, Digão.
— E tu acredita em espírito, fantasma, essas porras?
— Acho que herdamos o medo dos homens das cavernas. Temos necessidade de acreditar em qualquer merda que nos distraia da realidade. Por isso temos crenças, horóscopo, influencer, coach, essas coisas.
— E a verdade?
— ‘A verdade é simples e dispensa enfeites’, como ironizava Sêneca. Isto é, a verdade do nosso tempo é simples: somos meras partículas de poeira cósmica pensantes, tentando fazer nossa existência e não-existência terem algum sentido.
— Foda.
— Por isso, para mim tudo tanto faz. Livros, uma boa caminhada sem pressa, conhaque, ciência, filosofia, música, cães e gatos, são só o que me resta, ‘nesta festa’. O resto é perfumaria para o caixão.
— Tu não tem fé em nada?
— Tenho fé no conhaque e no vinho barato, nos livros sujos e nos vira-latas que lambem as feridas da vida.
Digão olhou pela fresta da janelinha. Suspirou:
— E se tiver algo depois?
— Que venha. Mas, sinceramente, duvido. A vida já é mágica demais por si só.
— E se amanhã a humanidade sumir?
— O universo não derramará uma lágrima.
— E o sentido da vida humana?
— É seguir até onde der, fazendo o que dá pra fazer. Depois, sumir. Como os dinossauros.
E naquela noite, Rúlio dormiu. E sonhou que acordava em outro mundo onde a humanidade era apenas uma nota de rodapé — mal escrita — da história cósmica.
Parte 6: Mais um dia na existência
Digão: Rúlio! Rúlio!
Rúlio: Que gritaria é essa? Me acordando às 10 da madrugada?
Digão: Levanta aí, mano! Os caras tão vindo!
Rúlio: Amanheceu mais uma noite da existência!
Digão: Ih, rapaz... é o delega!
Rúlio: Nossa! Quanta honra! Visita ilustre... devo me curvar?
Digão: Não faz ironia não, senão ele te desce a porrada!
Rúlio: Tanto faz.
Digão: Tá loucão, mano?
Rúlio, rindo feito um doente mental: Talvez. Finalmente, me tornei o que sou: um loucão!
Digão: Bom dia, doutor!
Delegado: Bom dia, Digão. Sussa? Cadê o vagabundo do Rúlio?
Digão: Tá deitado. Acho que passa mal...
Rúlio: Nem bem, nem mal. Estou como estou: em mim mesmo.
Delegado: Mas que raio de conversa é essa? Venha até aqui, doidão!
Rúlio: Fala daí mesmo. Não sou surdo, tô ouvindo.
Digão: Não leve a mal, doutor. Ele amanheceu meio estranho. Não tá falando coisa com coisa. Acho que está enlouquecendo.
Rúlio: Louco? Louco é você, meu amigo! E mais louco é esse delegado aí que acredita ser mesmo doutor! A menos que tenha doutorado, tem?
Delegado: Espere que já lhe tiro o couro, seu abestalhado!
Digão: Por favor, doutor, não o machuque. Ele tá doidão!
Delegado: Você vai ver só, seu patife! Te arrebento a fuça!
Rúlio: Deixa que venha! Afinal, o mundo já me bateu tanto... mais uma surra de um animal que evacua como eu não fará diferença! Vinde a mim as criancinhas!
Delegado, irado: Ora, seu idiota!
(O delegado abre a cela e, fulo da vida, agarra Rúlio pelo colarinho do trapo que vestia.)
Delegado: Só não quebro essa bosta que chama de cara porque não vale a pena!
Rúlio: Para mim, tanto faz. Você que sabe.
(O delegado o joga ao chão.)
Delegado: Tu é um patife mesmo, rapaz! Vim aqui pra libertar você, e parece que tá detestando isso. Acaso é retardado?
Rúlio: Talvez sim. Ser ou não ser, tanto faz.
Delegado: Tanto faz! Tanto faz! Se pudesse, te deixava apodrecer aqui!
Rúlio: Tanto...
Delegado: Vamos, seu louco fodido! É hora de desinfetar esse lugar!
Rúlio: E o senhor doutor delegado, acaso vens junto?
(O delegado lhe dá um tapa na cabeça.)
Delegado: Seu animal!
Rúlio: Os semelhantes se reconhecem!
Delegado: Não vai se despedir do seu amigo de cela?
Rúlio: Tchau, Digão. A pizza e o papo estavam ótimos.
Digão: Vá em paz! Viva a vida, irmão!
Rúlio: Viva!
Delegado: Tem sorte de eu estar de bom humor senão teria afundado a tua moleira!
Rúlio: Não o fez porque não quis. Não porque é bom.
Delegado: Ah, eu sou bom sim! Gente de bem! Semana que vem vou ao Vaticano ver o Papa!
Rúlio: Tem gente que gosta de perder tempo...
Delegado: Falou o mendigo! O Papa é santo e você é só um lixo humano fazendo peso sobre a Terra!
Rúlio: Ah claro... você, eu, o Papa, Balzac...Hitler, Netandiabo, Hamas, Putin, Xi, Zelensky, Trump, as Big Tech, O Homem que Ri, a Corte das Corujas, todo mundo é santo! Todos têm ‘grandes e inabaláveis justificativas’.
Delegado: Tu é engraçadão, né doido?
Rúlio: Os semelhantes se reconhecem mesmo...
Delegado: Graças a Deus estou livre de você, seu animal! Vá, suma daqui!
Rúlio: E a Elisa? Onde ela está?
Delegado: Só o diabo sabe! Cai fora, seu animal fodido!
Rúlio: E como é que você sabe que “só o diabo sabe”, se só o diabo sabe? Acaso és mais diabo que o Diabo?
Delegado: Cara! Vaza daqui antes que eu te mande direto pra ele!
Rúlio: Nossa, que medo! Patético!
Na saída da cadeia, Rúlio, apesar da altivez, estava visivelmente triste e preocupado. Andou alguns metros, sentou-se num meio-fio sob uma árvore, e olhou para o céu como quem não vê nada, mas finge que vê.
Rúlio (para si mesmo): Mas que vida estranha é essa a minha... só me falta cair um raio na cabeça. Maldita hora do meu nascimento. Mas agora... tanto faz.
(Elisa surge na esquina.)
Elisa: Rúlio! Rúlio!
Rúlio: Elisa? Onde você se meteu, mulher?
Elisa: Adivinha? Fui comprar uma roupinha nova pra você! O delegado me disse que você sairia hoje... então, resolvi fazer uma surpresa!
Rúlio: As mulheres são surpreendentes... como a morte.
Elisa: O quê?
Rúlio: Nada, esquece. Você me intriga, Elisa. Como saiu da cadeia? E de onde tirou dinheiro pra me dar presente?
Elisa: ...nesse mundo, para as mulheres, algumas coisas são mais fáceis...
Rúlio: Entendo, mas...
Elisa: O delegado. Fomos a uma mansão, ele me apresentou a uns amigos e nos divertimos o fim de semana inteiro... bebida, música, pó e putaria, só coisas que fazem bem para a saúde.
Rúlio: O santo que vai ver o Papa...
Elisa: O quê?
Rúlio: Nada, esquece.
Elisa: Aluguei uma casa aqui perto. Não faça mais perguntas bobas. Vamos para lá! Quero ver você nessa roupa. Vai ser divertido!
Rúlio, ainda meio abismado: Aposto que sim. Vamos!
Na casa que Elisa alugara com seus próprios recursos — não se sabe bem quais — Rúlio vestia a nova roupa com um ar de descrença e ironia, enquanto divagava sobre política. Lembrou-se de Platão e de sua ideia do Político como Tecelão, aquele que entrelaça os melhores e os piores fios, formando a vestimenta que protege a alma coletiva. "A política", dizia ele, "é o manto que deveria nos cobrir da selvageria". No entanto, olhando para o Brasil e para o mundo, sentia que estávamos nus. Os políticos, além de não protegerem nada, ainda roubavam nossas vestes, nossas posses e nossa paciência.
Apesar de seu niilismo assumido — achava que tudo é perda de tempo e que o mundo logo iria para o vinagre —, Rúlio esboçava um raro contentamento com a nova vestimenta. Talvez porque, mesmo que tudo fosse ilusão, era uma ilusão ‘mais bem’ costurada.
Elisa, percebendo o sorriso contido, zombou: — Esse Platão devia ser um gênio ou um baita de um idiota!
Rúlio riu com ternura: — Talvez a soma das duas coisas! O mestre dele, o velho Sócrates, também não era muito certo da cabeça...
— Esses caras só falavam de política e moral? Que vida tediosa!
— Falavam de tudo, mas com profundidade. Não ficavam jogando conversa fora como quem compartilha porcarias nas redes umbrais sociais. Falavam até de amor, acredita?
— Amor? Agora fiquei curiosa. O que eles diziam sobre isso?
— Muita coisa. Mas vamos ao essencial: Platão dizia que o amor era o motor de tudo. Que existe um Mundo Ideal — perfeito, belo, intocável — e que tudo o que temos aqui é uma cópia imperfeita. O amor que sentimos aqui, nesse mundo de merda, seria apenas um reflexo pálido do verdadeiro Amor, que existe somente no Mundo Ideal, no Mundo das Ideias.
— Ah, tipo uma Matrix filosófica?
— Exatamente. Platão acreditava que já tivemos acesso a esse mundo, mas fomos jogados para esse Hospício chamado Terra. A saída desse Hospício onde estamos agora, seria nos purificarmos através da sabedoria, da filosofia, da busca incessante pela verdade. Uma vez elevados, poderíamos retornar ao convívio dos deuses, gozar do Amor Supremo, do Belo em si.
— Que roteiro... e a passagem para esta viagem, custa quanto?
— Segundo ele, bastaria uma vida de autoquestionamento, de aperfeiçoamento moral e intelectual. Sócrates já dizia: uma vida sem exame não vale a pena ser vivida. Purifica-se o corpo, eleva-se a alma, e então: voilà! De volta ao Paraíso das Ideias.
— Parece mais papo de crentelho, hein?
— E é por isso que o cristianismo o adorou! Usurpou a estrutura e meteu céu, inferno, purgatório, redenção, pecado e salvação. Tudo com o selo Platão de qualidade.
— Mas aí, o tal do Amor Platônico... é o quê então?
— Não é um amor impossível. É um amor verdadeiro, mas que só pode ser vivido no plano das ideias. O pessoal por aí só repete o que ouviu sem nunca ter lido o desgraçado do Platão.
— Então, todo mundo está errado?
— Quase sempre. É por isso que esse mundo me cansa. Um monte de gente falando ‘com propriedade’ sobre coisas que mal compreendem. Ignorância é uma pandemia maior que qualquer pandemia viral.
Elisa, que podia parecer apenas mais uma pirada largada na vida, era surpreendentemente lúcida. Olhou para Rúlio e disse: — A roupa te caiu bem. Parece até um Doutor. Mas, olha... o mundo sempre foi essa palhaçada. As pessoas são o que não são e fingir ser o que nunca serão. Falam uma coisa, fazem outra. Quando descobrem que não sabem porra nenhuma, inventam uma mentira qualquer, acreditam nela e seguem vendendo essa merda como se fosse a verdade revelada. Mentimos porque encarar a verdade é insuportável. E todos somos canalhas em alguma medida.
— Sábias palavras, moça...
— E quem garante que Platão não mentiu pra ele mesmo? Vai ver ele era só mais um derrotado tentando aliviar a própria dor com filosofices. Essa ideia de purificação para alcançar o amor perfeito me parece uma grande baboseira. Platão podia ter escrito novela na porcaria da TV.
— Concordo. Nunca gostei de Platão. Idealista demais. Viajandão.
— Mas me diga, filósofo de boteco... você acredita em alguma coisa?
— Acredito em você.
— De novo essa ladainha? E se eu estiver mentindo o tempo todo?
— Ainda assim, acredito em você.
— Você não acredita em Deus, céu, inferno, carma, essas paradas?
— Tanto faz.
— E a morte? Não sente medo?
— Medo do quê? Quando eu morrer, já não estarei mais aqui. E se tiver algo depois, que seja bom! O que vier, se vier, é lucro.
— Você fala da vida como se ela não valesse nada. E isso vindo de um cara tão doce...
— Elisa, não confunda cu com bunda, eu tenho uma visão crítica da vida, possivelmente, uma visão de merda, mas isso não significa que sou contra a vida ou não goste da vida. A vida é o que é, dura, fria, indiferente, mas às vezes, ela também pode ser boa, bonita e excitante. O que digo apenas é que com ou sem dinheiro, a desgraça é democrática. Acreditar que tudo vai melhorar é a maior mentira vendida pelo sistema. É a cenoura do burro, do sistema. E o pobre, o burro do sistema, ajuda a manter o espetáculo de sua própria miséria. Sempre andando atrás da cenoura inalcançável. A História, como ferramenta da Filosofia, prova e comprova: as maiores tragédias só acontecem porque a massa é alienada e permissiva. E quando resolve lutar, faz um monte de merda para depois se contentar com as migalhas dos’ novos senhores feudais’ de sua época.
— O povo é uma mistura de burros e covardes. Mas e Platão? Disse Elisa rindo.
— Idealista vendedor de ilusão. Tentou convencer um tirano da Sicília sobre o sua ideia de Rei-filósofo, que seria um modelo de governante, e acabou vendido como escravo. Se não fossem os amigos ricos, teria morrido comendo pão mofado no porão de um navio, levando rolas. Platão é o avô dos coachs de todos os tempos.
— Pois é... e os idiotas continuam comprando mentiras. A indústria da enganação não fecha nunca, disse Elisa.
— Nunca. A cada nova (in) verdade, uma antiga desmorona. É a dança eterna da ignorância. E cá estamos nós, partículas de poeira cósmica achando que entendemos alguma coisa.
— Então nem no amor você acredita?
— Elisa... o que é o amor? Até hoje não consegui entender. Como posso acreditar em algo que nem sei o que é? Disse-lhe.
— Talvez só sejamos sinceros na cama. No resto, é só fingimento. Guerra fria, chifre e competição. Disse Elisa.
— E tem gente que finge até na hora do gozo..., asseverei.
— Elisa sorriu e disse: Com você, não fingi nunca. Gozei mesmo. E muito. Uma delícia!
— Eu sei. Fiquei deliciosamente lambuzado, disse-lhe.
— Mas é triste, né? Não sabermos se o amor é real, Elisa indagou.
— Para mim, tanto faz.
— Você nunca vai acreditar que possa amar?
— Isso mesmo.
— Por quê?
— Simples: você eu vejo, toco, provo. Então você existe. Agora, se me dissessem que existe uma mulher chamada Elisa e me mostrassem um retrato, eu duvidaria. Sem te conhecer, sem te viver, você seria só uma ideia vazia. Amor, para mim, é isso: uma ideia vazia. Uma abstração.
— Mas você já foi amado, não foi? Ela perguntou.
— Talvez. Mas, como você mesma disse: quem nunca mentiu? E o pior é acreditar na própria mentira. Não é? Respondi.
— Então o amor é só mais uma dessas mentiras?
— Talvez a mais sofisticada de todas.
— E mentir não é errado?
— Errado? Certo? Quem definiu isso? As elites? As igrejas? Os ricos que dominam tudo? Esses conceitos são invenções para controlar a massa. E, de novo, se a vida não tem sentido algum, tanto faz o que é certo ou errado.
— Então por que você vive? Por que acredita em mim?
— Porque, quando criança, perguntei aos meus pais por que eu existia. E me disseram: para sermos uma família, para te amar, para te ensinar, para você herdar nossos bens, ser respeitado... Mas isso é só retórica. Eles queriam satisfazer o desejo de ter um filho. Como todo mundo. A verdade é crua. O amor é um disfarce. E o mundo... um grande palco de farsas.
— Então você acha que tudo vai se perder?
— Tudo já está se perdendo. O mundo inteiro é uma distração diante do abismo. E enquanto ‘o grande nada’ não chega, a gente inventa coisas: arte, religião, ciência, moral, poesia, memes. Tudo isso são distrações. Uns se afogam nelas, outros boiam. Mas ninguém sai seco dessa travessia.
— Então tudo é só... distração?
— Exatamente. A vida, sobretudo, a vida humana, é uma tragicomédia sem direção. A alegria é breve, a tristeza é patética. Por isso prefiro o silêncio. O silêncio me parece mais verdadeiro que qualquer discurso humano.
— Sabe, às vezes você parece o anjo da morte.
— Pode ser. Mas prefiro ser o anjo do silêncio.
— Chega! Vamos nos distrair! Vamos viver o agora!
— Pois então, que venham todas as distrações! Sejam elas sorrisos, gemidos ou goles de vinho...
Parte 7: Um novo dia, um novo adeus
Rúlio havia adormecido e se perdido no corpo de Elisa, mais uma vez. Sempre se surpreendia com a tenacidade dela — aquela estranha força de quem vai atrás do que quer, mesmo que precise sorrir para quem despreza ou se curvar ao que detesta, claro que não era este o caso comigo. Mas, era clara a miscelâneia de força, doce e amarga.
Elisa: Por que veste a calça? Ainda é cedo...
Rúlio: Porque se eu andar pelado por aí, é certo que volto pra cela e reencontro o Digão. Cedo ou tarde, minha cara, todos temos que partir.
Elisa: Drama logo de manhã?
Rúlio: Isso não é drama, é só... realidade.
Elisa: E pra onde vai?
Rúlio: Qualquer lugar serve. Estive tempo demais com você. Isso... não é bom pra mim.
Elisa: O quê?
Rúlio: Não entenda mal. Mas preciso ir. Como disse o Sobrinho de Rameau, do Diderot...
Elisa: Ih, já começou com essas porras de filosofia...
Rúlio: Então tá, me vou.
Elisa: Para com isso. Termina o que começou a dizer.
Rúlio olhou como quem vai tossir um pedaço da alma, mas engoliu seco e soltou:
Rúlio: Disse o Sobrinho de Rameau: “Você demonstra interesse por mim porque sou um pobre diabo simpático, que no fundo você despreza, mas que te diverte”. E é isso, Elisa. Esse mundo é um mercado persa de interesses. Não precisa ser rico para levar facada nas costas, basta alguém perder o interesse por você. Mas quando se é rico e depois deixa de ser, a coisa fica escancarada. As tetas da fartura secam e os que juravam amor eterno somem como ratos em nau afundando. E nem adianta se revoltar. A verdade é que ninguém apoia ninguém sem um motivo escuso, nojento até. Veja Quasímodo, Jean Valjean, Gilliatt, Gwynplaine — os personagens de Victor Hugo. Todos esmagados pelos interesses dos outros. Nós somos eles todos ao mesmo tempo, isto é, os detestáveis do mundo, detonados por interesses dos outros.
Elisa: E o que você quer dizer com isso tudo?
Rúlio: Que não tenho interesse escuso por você. Não quero te esfaquear pelas costas e também não quero ser esfaqueado. Por isso disse que estar aqui é ruim pra mim.
Elisa: Isso soa como ingratidão...
Rúlio: Não te devo gratidão. Não te pedi nada.
Elisa: Você é doido mesmo. Mas... fica mais um pouco. O sol tá lindo. Nasceu um novo dia. Vamos aproveitar.
Rúlio: Por que quer tanto que eu fique, porra? Você me vê como o teu mendigo de estimação?
Elisa, sempre rindo feito louca: Mendigo pirocudo de estimação. Falando sério, acho que estou apaixonada por você...
Rúlio: Tem algo mais útil pra dizer?
Elisa: É sério, caralho! Me apaixonei.
Rúlio: Eu te avisei desde o começo, Elisa. Não sou de ninguém. Nem de mim mesmo. Amor, vida, morte... tudo me dá no mesmo. Quanto mais tempo as pessoas passam juntas, mais viram âncoras umas das outras. E âncora, minha cara, é o que afunda.
Elisa: Discordo, âncora afunda, mas também dá estabilidade ao navio, seu animal! E eu não sou âncora, porra nenhuma! Sou uma força da natureza! Mas, tá ok, você é a porra de um ‘espírito livre’. Pode ir, sumir, continuar a ser filósofo de merda nenhuma. Mas saiba: mesmo longe, você sempre poderá voltar para mim. Porque mais do que tudo, eu sou tua amiga. E te quero bem. Mesmo você achando que isso não existe mais no mundo.
Rúlio: Sei que você tem algum carinho por mim. Porque de algum modo... eu te divirto.
Elisa (rindo de nervoso): Como você é filho da puta, meu safado ingrato.
Rúlio: É o que é.
Elisa: Louco, lunático... insensível, caralho!
Rúlio: Por isso que não posso viver com ninguém. Eu sou um erro de encaixe social.
Elisa: Eu te odeio... mas acho que amo mais do que odeio, seu desgraçado!
Rúlio: Só se pode odiar aquilo que se ama, dizem.
Elisa: Vou te ver de novo?
Rúlio: Não sei. Talvez. Ou nunca mais. Mas gostei da roupa, viu? Obrigado.
Elisa: Não me deve nada... nem ingratidão.
Rúlio: Essa eu te dou de presente.
Elisa: Louco!
Rúlio: Se Eurípedes estiver certo, “quando nascemos, morremos; quando morremos, nascemos”. Então cada dia é um novo adeus. Cada chegada, uma nova partida. E cada partida, uma nova chance de nascer de novo. Elisa, teu amor é Parmênides. A minha loucura, Heráclito.
Elisa: Que assim seja. Que meu amor seja tua âncora e tua loucura o mar que nunca para. No fim, sempre restam só as lágrimas de quem fica. Vai, meu querido Andarilho Errante.
Rúlio: A única coisa que temos é o passado. O presente é acidente. Uma cagada cósmica. Mas... levo um pouco de você comigo. Acredite ou não, é sincero.
Elisa (com os olhos marejados): Seu louco! Te odeio!
Rúlio: Eu não. Até a próxima, Elisa...
E ele se foi. Como todos os que vêm e vão.
Como um cão sem dono, Rúlio deixou Elisa para trás e seguiu seu caminho. Na primeira esquina, passou diante de um cemitério. Havia uma aglomeração ali. Vozes, barulho, confusão.
Mas não era um enterro. Era uma greve. E não era uma greve qualquer. Era uma greve dos coveiros.
Parte 8: A Sina dos Coveiros
Rúlio aproximou-se da capela, curioso com o burburinho. Viu gente em volta do caixão e padres discutindo com homens de uniforme marrom e botas sujas de terra.
Rúlio: Olá, amigo. O que está acontecendo aqui?
Homem: Uma greve. Um velório em meio a uma greve. Uma greve em meio a um velório.
Rúlio: Quando achamos que já vimos de tudo, a vida arranja um quase. E você, o que faz aqui?
Homem: Nada. TV estava um lixo. Liguei o rádio, estava outra porcaria. Abri a janela, vi confusão, pensei: “alguém importante morreu”. Vim ver. Agora vejo que é um impasse com os coveiros.
Rúlio: E não é pouca gente...
Homem: Olha ali, um dos coveiros! Vamos perguntar.
Rúlio: E aí, amigo? O que acontece?
Coveiro: Meu caro, nada. Nada acontece. Sou coveiro de três gerações. Bisavô, avô, pai... todos enterraram gente com honra. Mas agora somos tratados pior do que o lixo. Uns nascem pra viver, outros pra morrer, outros vivem mortos. E nós? Enterramos todos no final.
Rúlio: Entendo. Mas por que esse tumulto?
Coveiro: Querem impedir que o pobre seja enterrado entre pobres. Querem levá-lo pro cemitério ucraniano, que é particular.
Rúlio: Mas se é municipal...
Coveiro: Exato. Velamos o homem a noite inteira. Cavamos a cova. Temos código de ética: é dever de todo coveiro, enterrar todo brasileiro, sem discriminação.
Homem: Então o problema são os padres?
Coveiro: Eles dizem que o morto era ucraniano. Querem levá-lo. Querem fazer o nosso trabalho. Esses ladrões de defuntos!
Rúlio: Entendo... mas quem paga por isso tudo?
Coveiro: A prefeitura. Por ser indigente. Aí os padres aparecem, às vésperas do sepultamento, querendo obter lucro com um defunto.
Rúlio: A religião... bela desculpa para muitas máfias.
Coveiro: Nunca mostram o Cristo vivo, né? Sempre o morto, pendurado. É mais fácil vender medo do que redenção.
Rúlio: E você, com essa sabedoria toda?
Coveiro: Leio desde guri. Não terminei o colégio, mas herdei o ofício. E o gosto pelos livros velhos.
Homem: Mas se vocês enterram qualquer um, por que não deixam levar?
Coveiro: Porque é um insulto. Querem dizer que ele é de fora, que não pertence ao Brasil. Isso nos ofende. Não é sobre regras. É sobre identidade.
Rúlio: Vamos resolver isso. Chamem o prefeito.
O prefeito chegou, gordo, suado, meio às tontas. Foi puxado para um canto da capela com coveiros, padres, Rúlio e o Homem.
Padre: Senhor prefeito, cuidamos da alma. Agora cuidamos do corpo. Ele é nosso. Queremos enterrá-lo.
Prefeito: Coveiro, o que diz?
Coveiro: Quando ele estava vivo, ninguém ligou. Agora, querem cuidar dele por dinheiro. Se decidirem por eles, que eles o enterrem.
Prefeito: Ai, ai... Que situação. Que seja. Padres, levem o morto. Falem com a Secretaria sobre o pagamento.
Padre: Amém! Nos lembraremos do senhor na eleição.
Coveiro (triste): Quem pode com a igreja e os políticos? Somos só coveiros...
Rúlio: Não se abale. Eles não se importam com a tua tristeza.
Coveiro: Mesmo assim... certas filhadaputagens machucam.
Rúlio: Mas vocês não perderam o dom de enterrar. Enterrem com orgulho. Façam o que amam, mesmo sem aplausos. Aplauso maior é viver o dom com coragem. Eu que não sou ninguém, aplaudo vocês. E vocês que são importantes, deveriam se aplaudir mais!
Homem: Cavem amigos, abram as covas, mas cavem com dignidade. Aplaudam-se!
Coveiro: A natureza não exige que o lobo se torne cordeiro. E os padres? Que se envergonhem.
E os coveiros aplaudiram-se.
Rúlio, falando em sua própria mente: Não sei quem mais enterra brasileiros: padres, políticos ou coveiros...
Homem: Talvez o próprio povo se enterre sozinho.
Rúlio: Tanto faz. A vida humana é uma distração antes do nada.
Padre (passando): Tuas palavras me fazem rir, andarilho.
Rúlio: A tua existência me faz o mesmo.
Homem: Padres... quem precisa de intermediários pra Deus?
Rúlio: E o Papa? Fingindo estar triste com a miséria do mundo, enquanto entope o bucho com as melhores comidas e bebidas, nada lhe falta... e nós é que somos os otários e palhaços.
Homem: É.
Rúlio: Mas tanto faz. Todos e tudo voltará ao nada.
Homem: Então por que você anima os outros, se tudo é uma piada?
Rúlio: Me diverte. Me distrai.
Homem: Que pensa da vida, afinal?
Rúlio: Todo mundo fica me perguntando isso. Penso que A Vida, que é Luz, nasce da Escuridão e corre em direção ao vazio. Haverá alguma coisa além do Vazio? Quem de fato pode dizer? Não há nada mais? Quem saberá? O fato é que neste mundo, para todos nós, é ‘tela preta’ no final, sem chance de salvação. A vida humana pode ser uma tremenda ironia, um erro cósmico. Mas pode ser bela, se fingirmos que não é uma completa desgraça em toda a parte. No fim, tudo será enterrado. Como os dinossauros. Como a Terra. Como o próprio Universo que, segundo a Ciência, um dia colapsará em si mesmo.
Homem: E o suicídio?
Rúlio: Poder. Liberdade. Coragem. Covardia. Fuga. Às vezes, lucidez, às vezes, inevitável. Sobretudo, um direito natural, assegurado pelo Livre Arbítrio.
Homem: E se houver algo do outro lado?
Rúlio: Então riremos disso também. Rir é tudo o que nos resta.
Homem: Você perturba. Mas, é uma perturbação verdadeira.
Rúlio: Distração, meu caro. Tudo é distração.
Homem: Bom, eu me vou para minha vidinha simples de todo santo dia. E você, vai... vai te distrair da Vida com a Vida, meu amigo Andarilho...
Rúlio: Adeus.
E seguiu ladeira abaixo, sem rumo. Por isso mesmo, talvez estivesse no rumo certo. Pensava, e ria. Era seu aniversário. "Mais um ano... mais um grau de burrice." Riu, como um louco que finalmente entende a piada.
Parte 9: A praça da igreja
Entre abismos e mundos ensolarados do pensamento, Rúlio chegou à praça da cidadezinha. Uma praça como tantas outras nas pequenas cidades do Brasil: velhos jogando baralho, xadrez ou dama de um lado; jovens fumando maconha do outro; bêbados, nóias e mendigos sob as marquises da igreja e do salão de festas; algumas pessoas sentadas na grama ou nos bancos de concreto. O decadente ‘paraíso’ urbano contemporâneo.
Visualizou um banco vazio sob a sombra de uma árvore, sentou-se e observou o movimento pacato do lugar, misturado ao ar frio de inverno de um domingo pela manhã. Voltou a refletir sobre a vida humana e sua falta de sentido, quando um sujeito estranho e meio engraçado passou olhando-o de soslaio.
— O que foi, homem? Me achaste bonito? — disse Rúlio.
O sujeito riu e respondeu:
— Se você é bonito, então eu sou galã de Hollywood.
Ambos riram. Era outro mendigo, outro andarilho, mais um errante que o mundo ignorava.
— Venha! Senta aqui e vamos bater um papo! — convidou Rúlio.
O sujeito, desconfiado como um cão de rua, aproximou-se acompanhado de um cachorro e sentou-se ao lado dele.
— Como se chama? — perguntou Rúlio.
— Hoca. E você?
— Rúlio, com R mesmo.
— Nunca vi mendigo tão limpo por aqui.
— Também noto que você não é um mendigo desleixado — respondeu Rúlio, observando o sobretudo tipo Blade Runner surrado, mas razoavelmente limpo que Hoca usava.
Ambos ficaram contemplando o movimento silencioso da praça.
Rúlio quebrou o silêncio:
— E esse cachorro? É seu?
— Não. Os cães de rua são como nós, mendigos: se enturmam fácil. Esse é o Ruffos.
— Como sabe o nome dele?
— É da dona Ivone, uma velhinha que mora logo ali. Ruffos sai para dar uma volta e fica sempre com os mendigos. Nunca se aproxima de outras pessoas. Nem de crianças.
Rúlio sorriu, olhando o sol:
— Então, Ruffos que não é cachorro mendigo, dá uma de cachorro mendigo, e sabe se encaixar.
— E tu? No que se encaixa? Perguntou Hoca.
— Não me encaixo. Nunca fiz questão de me encaixar. Não faço o que não quero, mas também não quero fazer nada. A morte chegará. Todos morreremos. A menos que um milagre da Ciência nos salve, estamos todos fadados ao fim. O Universo não se importa com a nossa existência. Por isso, penso: tanto faz. Encaixar-se ou não, tanto faz.
— Aposto que se tivesse muito dinheiro e amor, pensaria diferente. Asseverou ironicamente Hoca.
Rúlio riu internamente:
— Será? Será que viveria numa bolha de conforto, cego à dor do mundo? Talvez não. E você, Hoca, o que faria se tivesse muito dinheiro?
— Não sei. Acho que não nasci pra isso. A miséria me moldou. Respondeu Hoca.
— Já tive muito dinheiro. Enchi um ônibus com tudo e joguei janela afora. Disse Rúlio.
— Fala sério!
— Falo sim. O que possuímos nos possui. O apego é o pior dos males. Ter coisas como meio de realização não é viver, é viver escravizado pelas coisas.
— Cada um com sua loucura. Cada um com seu inferno. Mas diga: quer ouvir minha história? Perguntou Hoca.
— Habla, hombre. Me distraia! Disse Rúlio.
Hoca puxou um litrinho de conhaque do bolso do sobretudo. A garrafa trazia escrito: "Conhece-te a ti mesmo". Rúlio gargalhou, tomou um gole e disse:
— Agora sim, fala!
Hoca respirou fundo e começou a narrar sua vida, marcada por fugas, dores, abandonos, violências e sobrevivências. Uma trajetória que o arrastou desde os horrores da guerra à brutalidade de um seminário, das traições da política à miséria nas ruas. Falou de sua mãe, da fé dela em Deus, no Papa, em Hitler, da brutal desilusão que sofreu, da violência que ceifou a vida dela e da irmã, da morte do irmão, das dores incontornáveis, dos abusos religiosos, do desprezo do mundo e do abandono das instituições. Uma história longa e surreal.
Rúlio ouviu tudo calado. Não disse nada. Não havia o que dizer. Apenas olhou para o céu e deixou o silêncio pairar.
Hoca continuou, agora com voz firme e olhos acesos:
— Apesar de tudo, meu amigo, sonhei. E mais que sonhar, vivi os sonhos que pude viver. A liberdade do desapego, o poder de dizer "não" ao Poder, dizer não para a farsa religiosa e, sobretudo, o poder de dizer não para a politicagem barata. O mundo só pode melhorar se cada um de nós for a revolução que deseja ver nele. Pode parecer utopia, mas ainda prefiro viver com esse pensamento do que morrer como um idiota conformado.
Rúlio sorriu:
— Uma bela ilusão, meu caro. Mas talvez seja melhor que a minha baboseira que apelido de verdade. Eu, que acredito que tudo irá para o vinagre.
Hoca respondeu com leveza:
— A humanidade é canalha, sim. Mas é das pequenas centelhas de gente que ainda vale a pena que o mundo pode renascer. O desapego é o poder dos deuses. E sonhar, apesar de tudo, desapegado, sem esperar nada de ninguém, isso ainda me dá motivo para seguir.
Rúlio, finalmente, disse:
— Te compreendo, Hoca. E embora ache que teu otimismo sirva apenas para ti, talvez sirva para mim também... E quem sabe, para todos.
Hoca riu:
— Somos tudo o que pensamos. E pensar grande é melhor do que apodrecer pequeno.
Rúlio concluiu:
— A vida humana pode não ter sentido. Mas a distração é o que nos resta. Sigamos, pois, nos distraindo.
E os dois riram, como dois deuses falidos num mundo que nunca os quis.
Parte 10: A segunda vinda de Colombo
Ainda no banco da praça, Rúlio refletia: — Sabe-se que a Terra é apenas um pequeno planeta entre zilhões de outros, como o Sol é apenas uma estrela entre trilhões. Ainda assim, tem idiota que insiste em dizer que a Terra é plana.
Hoca balança a cabeça: — Vivemos a Idade das Trevas na Era da Mídia. Desde Eratóstenes, na Grécia Antiga, sabemos que a Terra é redonda. Mas tem crentelhão que acha que ela é o centro do Universo e que a verdade científica é pecado.
Rúlio: — Também tem crentelhão que acha que a ‘a ciência é tudo e mais um pouco’. Pobres Copérnico, Giordano Bruno, Galileu... sofreram nas mãos da Igreja, com a vista grossa dos ‘amigos’ que se achavam cientistas em sua época, por dizerem o óbvio. Talvez, pior que a fogueira era ter que lidar com a ignorância coletiva e a vista grossa dos que podiam abrir a boca e não abriram.
Hoca: — Interesses. Todos defendem seus interesses e não se metem na briga dos outros. E o mais assustador é que hoje o negacionismo não vem só de ignorantes: tem PhD falando merda e sendo ouvido como gênio!
Rúlio: — A humanidade ainda é uma errante, uma indigente sideral. Mesmo com Darwin, Newton, Einstein, Hawking e tantos outros apontando caminhos, seguimos rastejando.
Hoca: — Ao menos não somos mais queimados em praça pública. Mas ainda somos mortos nos olhares dos moralistas, dos religiopatas canalhas, dos "cidadãos de bem" que exalam o pior do inferno.
Rúlio: — E se um dia a humanidade colonizar outros planetas, quem você acha que vai primeiro? Os pobres? Não. Os ricos e podres de alma. O resto vai apodrecer num lixão radioativo chamado Terra. Esse será o preço da tal evolução, sobretudo, esse será o preço da exploração/colonização/invasão humana de outros mundos.
Hoca: — Evolução? Destruir o planeta, escravizar os outros e levar a latrina moral da humanidade para fora da órbita é evoluir?
Rúlio: — Carl Sagan dizia que deveríamos evoluir juntos, com respeito à Terra. Utopia linda. Mas a real é Hobbes: "o homem é o lobo do homem". A verdade é simples: Isso poderia ser Àquilo, se não fosse apenas Isso.
Hoca: — O apego doentio às coisas é a ruína. A humanidade acredita que Ter é Ser. Quem não tem, não é. O vazio existencial é preenchido com coisas. Uma fome espiritual insaciável. A humanidade se ‘coisificou’.
Rúlio: — Será esse o legado da humanidade? Dancinhas e burrice? É isso que vamos levar para Marte? Apego, ganância, ignorância?
Hoca: — A "segunda vinda de Colombo" será pior que a primeira. Em vez de levar espelhos para os nativos, levarão algoritmos de idiotização em massa, miséria e destruição.
Rúlio: — Rousseau, que abandonou os próprios filhos e escreveu livro sobre ‘como educar crianças’, também dizia: "Os frutos são de todos, e a Terra de ninguém". E ele tinha razão nesse ponto, já que preferimos transformar tudo em mercadoria e matar por uma coisa que chamamos de dinheiro.
Hoca: — E o povo? Sempre massa de manobra, berrando como gado, se orgulhando de defender os algozes. Às vezes, dá vontade de explodir tudo e recomeçar do zero, se fosse possível.
Rúlio: — Já era. Agora, só resta rir. Rir da tragédia, rir da burrice, rir da dancinha e de toda a idiotice antes do apocalipse.
Hoca: — O desapego é a única saída. Não o desapego zen, romântico, idealizado, mas o desapego feroz que liberta do ciclo de Ter e Ser.
Rúlio: — Bela ideia. Mas, a humanidade ama a coleira que botaram nela. Prefere obedecer e consumir como glutões.
Hoca: — A juventude talvez...
Rúlio: — Se a juventude é a esperança, estamos fodidos, definitivamente.
Hoca: — E as crianças?
Rúlio: — Abandonadas e abusadas dentro da própria família, moldadas pela hipocrisia e a indiferença dos pais e pelo lixo das redes sociais. Criadas por religiosos fanáticos, megalomaníacos, conservadores canalhas. Doutrinadas em escolas e universidades, por libertinos ou defensores de politicopatas, para ganhar no grito. E falemos a verdade: salvo raríssimas exceções, o que são as escolas e as universidades, senão prisões da criatividade, campos de extermínio de talentos, masmorras da genialidade, cemitérios de mentes? E tem outra, ainda tem crianças abandonadas no mundo, exiladas ou pelas ruas da amargura, vítimas e reprodutoras da violência que afunda este mundo. Então, não, as crianças, as novas gerações, coletivamente, não serão a salvação deste mundo, porque estão iguais ou piores que as gerações anteriores. É duro falar isso, mas é a realidade.
Hoca: — Pois é... Conheci gente mais família nas ruas do que no sangue. E a pior violência é forçar uma criança a ser cópia de seus pais, que são meros produtos e mercadorias de um sistema desumanizador e falido.
Rúlio: — É meu amigo, tudo o que resta são velas acesas no escuro. Quanto mais iluminam, mais se consomem.
Hoca: — E seguimos... errantes do Universo. É uma vida de exames, como dizia Sócrates. Uns viram crentes, outros céticos, outros loucos. Poucos viram conscientes.
Rúlio: — E tudo acaba. Como os dinossauros, seremos varridos. Logo, por isso penso que tudo o que importa é o Agora. O depois? Tanto faz.
Hoca: — Eu ainda acredito. Acredito no agora como base para um amanhã. Mesmo que trágico, esse mundo me diverte. Às vezes, até quando sofro. A gente se fode, mas se diverte, diz o ditado popular. Não é?
Rúlio: — Pois eu sonho, mas lúcido e acordado. Que a Filosofia e a Ciência nos liberte de nós mesmos. Com ou sem Deus, com ou sem Além, tanto faz. Desde que evoluamos. Que saibamos o que somos. Que toquemos o fundo da Existência.
Hoca: — O Ser forte é aquele que vive mesmo sem certeza.
Rúlio: — O depois é nada. O agora é tudo. Teorias não nos salvam. Certezas são ilusões.
Hoca: — Até 2300, seremos os mesmos: uns crentes, outros céticos, raríssimos conscientes. E nós, apenas... Andarilhos do Universo.
Rúlio: — Sabe, Hoca... acho que vou para as montanhas.
Hoca: — E eu, para as florestas. Quando a Dama de Preto chegar para me levar para o Além, que me encontre deitado sob as árvores, agradecido pela vida e sem peso no coração.
Rúlio: — Além...Pode ser tudo uma mera ilusão cerebral, segundo alguns Cientistas Médicos entendidos do assunto. Um filme final projetado por nossos neurônios moribundos. Mas quem se importa?
Hoca: — Existir é um risco. E viver acreditando que há algo maior talvez seja o maior de todos os riscos. Mas, esse é um risco que aceito correr.
Rúlio: — Já está tarde meu amigo, e depois dessa, eu vou dormir ali debaixo da marquise. Que nossas ideias ecoem, nem que seja no véu entre os mundos. Ou que virem piada no além ou aqui no aquém.
Os dois se deitaram na calçada debaixo da marquise da igreja, junto aos cães da praça.
Hoca: — Quando jovem, sonhei em escrever um livro...
Rúlio: — Sobre o quê?
Hoca: — Sobre um filósofo e um religioso que viraram mendigos.
Eles riram. Eram espíritos livres opostos, mas coexistiam. Ali estavam: dois Andarilhos, duas histórias, duas consciências... errantes sob a noite fugaz.
Parte 11: Final
O que é a vida humana, senão um milésimo de distração, num segundo de ironia, dum minuto da existência?
Era isso que pensava Rúlio, já no dia seguinte à sua despedida de Hoca — que havia partido para sua última caminhada pelo mundo.
Ao atravessar a rua, os olhos de Rúlio pousaram sobre a vitrine empoeirada de uma velha banca de revistas.
Ali, uma capa lhe chamou a atenção: uma edição especial de ‘A ficção científica do ano’, com o seguinte título em letras metálicas:
"A Era do Homo Intergalacticus
Da mesma forma que suplantou o Homo Neanderthalensis, o Homo Sapiens foi superado pelo Homo Technologicus. Essa transcendência milenar culmina na novíssima humanidade do futuro.”
Atônito diante da ousadia da teoria futurista — como se tivesse sido arremessado direto para o ano de 2300 — Rúlio não resistiu. Com o pouco de dinheiro que lhe restava, comprou a revista, sentou-se no meio-fio e leu atentamente.
“Nota do Futuro – Introdução à Teoria Zero
Como o Homo Sapiens um dia extinguiu o Homo Neanderthalensis e evoluiu de maneira desigual, sob a lógica impiedosa de uma seleção cega e descontrolada, algo semelhante agora se anuncia. Uma fração mínima da população — menos de 1% — usando da força, inteligência, frieza, loucura e beirando a total psicopatia, dominou o Planeta. Controlando 99% das riquezas da Terra, essa elite explorou os recursos naturais até o esgotamento, dizimando ecossistemas inteiros e condenando bilhões de seres humanos a uma existência miserável. Tudo em nome do lucro, do controle e do acúmulo desmedido de riquezas. Esse domínio da Elite Planetária, sustentado por governos de fachada e regimes manipulados, se estendeu por quase um século. Com isso, consolidou-se o império da idiotização em massa, da servidão voluntária, da brutalização do pensamento. E a humanidade, majoritariamente, foi arrastada para o estágio final da Humanidade Zero. Mas, dentro desse império do caos, outra fração emergiu. Mais fria, lógica, tecnocrata. Sem paixões, sem ilusões. Apenas cálculo, algoritmo, simulação, estatística. Foi essa nova casta que deu origem ao Homo Technologicus. Com racionalidade brutal, suplantaram até mesmo os senhores do capital. Assumiram o controle da natalidade, dos fluxos migratórios, das pandemias, das crises climáticas, das guerras, das narrativas. Passaram a gerir a própria evolução da espécie por meio da eugenia científica e da manipulação genética silenciosa. O Homo Technologicus, ainda que poderoso, é ponte. É o prenúncio da segunda vinda de Colombo. É o limiar de uma nova odisseia cósmica. Dessa ponte surgirá, após cinco séculos de experimentos e catástrofes, a próxima mutação: o Homo Intergalacticus. Ser consciente da sua pequenez cósmica. Ser re-humanizado. Ser em perpétua busca pelo conhecimento, pela coexistência e pela harmonia com o infinito. Será esse novo humano, talvez, quem restaurará a Terra — berço e ruína de tantas civilizações — e partirá rumo ao desconhecido, cruzando galáxias, explorando mundos, superando-se. E então, um dia, surgirá o próximo salto: o Homo Cosmicus. Ser capaz de coexistir com o próprio mistério do Universo. Ser que transcende o espaço-tempo e compreende que toda a existência é uma dança entre o pó e o infinito”.
Rúlio fechou a revista, ficou por alguns instantes em silêncio e olhou para o céu, como quem busca uma confirmação no abismo azul.
Do outro lado da rua, um catador de papelão empurrava sua carrocinha. Sobre ela, duas crianças. Ao lado, quatro cães fiéis seguiam o homem em sua silenciosa romaria urbana.
Rúlio sorriu, sem palavras. Um sorriso irônico, mas sereno. E disse baixinho para si mesmo:
— Do jeito que vai… até a humanidade chegar ao Homo Cosmicus, esse suposto redentor da espécie, não vai mais existir humanidade na humanidade.
Então, levantou-se. E como havia prometido a Hoca, partiu para as montanhas. Fim.
E. E-Kan
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/LIVRO II
ENTRE VIDRO
E PERIGO
Et vitrum et mulier sunt in discrimine semper
/ Mulher e vidro sempre estão em perigo.
Parte I - O Velho que diziam ser santo e sábio
Faz muito tempo, existiu um homem que diziam ser santo. E sábio. Um velho calado, de olhar fundo, que subiu as montanhas e por lá ficou quase setenta anos. Vivia no mato, entre livros velhos e animais selvagens, longe de tudo que se chama civilização. Por quê? Só ele sabia.
Amava os livros como amava uma boa cachaça com mel e limão. Desde criança era assim. Sisudo, excêntrico, leitor compulsivo — e cansado. Cansado da sociedade que enxergava em ruína: idiotice em alta, crueldade institucionalizada, líderes vaidosos e burros, materialismo patológico, desigualdade crescente, violência rotineira e uma hipocrisia milenar travestida de igualdade e solidariedade.
Enquanto quase todos aceitavam o absurdo como normal, ele dizia: não. Mas depois de tanto tempo imerso em sua própria solidão — trágica, escura, quase utópica — decidiu descer a serra e ver o que havia mudado. A cidade lhe pareceu, de início, um delírio encantado. Prédios espelhados, outdoors gritantes, carros silenciosos, gente vestida de tudo e de nada, praças com estátuas de homens importantes, enfeitadas como se fossem santos.
Admirou, como uma criança, o movimento hipnótico da multidão. As mulheres — belas, vaidosas, sorridentes — pareciam clones de um mesmo molde. Por um momento, achou que tinha voltado para algum tipo de paraíso artificial.
Até olhar sob as marquises. Especialmente as das igrejas.
Ali, como sempre, os mesmos: mendigos, andarilhos, invisíveis. No país da promessa de um paraíso na Terra, a miséria seguia obrigatória — indispensável.
O Velho lembrou de algo que lera: os “antípodas” são necessários. Precisamos dos opostos, dos miseráveis, dos que apontamos o dedo e condenamos, em nome da moral, da fé, do bem comum. Assim podemos seguir ilesos, com nossos discursos de amor e virtude intactos.
Entre o vai e vem dos “escravos modernos”, ele se aproximou de um dos tais “ninguéns” e perguntou:
— Homem, que vida vive?
O homem, sujo, magro, afundado numa poça de água e urina, levantou os olhos fundos:
— Que vida eu vivo? A que me resta. E o que você tem a ver com isso? É da polícia? Serviço social? Fica tranquilo, não tenho medo não. Eu vivo mais do que esses idiotas correndo de um lado pro outro sem saber onde vão parar — se é que vão parar. Eu? Tanto faz.
Fez uma pausa e, franzindo a testa, reconheceu o visitante:
— Espera aí... Você é aquele velho que vive com os bichos na montanha! O santo louco! Como é que ousa voltar pro meio dessa palhaçada, se tanto despreza isso aqui?
O Velho respondeu, calmo:
— Como poderia me encontrar, se já nasci perdido? E que paraíso é esse onde ninguém se salva? Loucura? Talvez. E você? Faz o quê nesse lamaçal? Se orgulha de ser miserável?
O mendigo soltou uma gargalhada bêbada:
— Miserável? Eu tenho tudo. Porque não preciso de nada. A diferença é que eu fiquei aqui, dormindo nas marquises, enquanto você subiu a serra — mas espalhou a mesma lama pelo caminho. Eles... eles vivem com suas coisinhas e vidinhas. E acham que são melhores. Eu não pago imposto, não pago água, nem luz. E durmo ao relento. Gosto disso. Liberdade. Meu único medo é ser queimado vivo por algum “cidadão de bem”, desses que dizem ser de Deus, de família... Esses são os piores.
O Velho: — Diógenes Laércio do século XXI. Só que ainda vestido.
O Mendigo: — Ninguém é o que parece. Hoje sou mendigo. Mas também li livros. Já fui parte dessa desgraça chamada sociedade. A miséria é uma forma de violência. E esses apressados aí, esses escravos do relógio? Precisam de nós. Pra ensinar às criancinhas o que é fracasso. Somos o exemplo negativo. O espantalho humano. “Olha lá o bêbado, olha o velho vagabundo. Se não quiser acabar assim, meu filho, estude, trabalhe, seja de bem.” Palavras de formigas com duas pernas.
Mas e eles? O que são? Santos? Gente boa? Gente certa? Vão pro céu? Acham que sim. Mas estão no mesmo abismo que nós. Só não perceberam. Ou fingem.
O Velho: — Estão ocupados demais pra pensar no abismo que os engole.
O Mendigo: — Isso. E todos os dias colocam suas fantasias, suas máscaras. Escondem-se atrás do que possuem. Vivem mentiras diárias. Quando muito, pequenos surtos de idealismo religioso. Depois, voltam pra suas grades — chamam de segurança — e convencem as paredes de que tudo vai melhorar. Que um dia Jesus vai voltar.
E dormem.
Mas sabem, no fundo, que não vai.
Eu não tenho esse problema. Prefiro mentir dizendo a verdade, do que viver verdade nenhuma. Estamos numa pandemia. E ainda escuto: “tanta gente boa morrendo e esses trastes continuam vivos, na base do Corote!” Vacina pra quê? Já têm máscara demais. Estão podres por dentro.
Diga, santidade: sou eu o louco?
O Velho, admirado: — Que tua loucura se espalhe por toda essa cidade, amigo. Vivemos na era da “moral chifrológica”, da hipocrisia com diploma. (É tudo um bando de corno mesmo.)
O Mendigo: — Quê?!
O Velho ri.
— Bom seria resolver tudo numa conversa só, mas preciso voltar pra floresta.
O Mendigo, com olhar sombrio: — O tempo não importa. Só a vida. Talvez já estejamos mortos. Talvez tudo isso seja só eco. Talvez nada disso exista. Só um rastro de consciências.
O Velho: — Tanto faz.
O Mendigo: — É... tanto faz.
O Velho fez um sinal de adeus.
— Adeus.
O Mendigo respondeu: — Adeus, louco amigo... Que Deus o acompanhe.
Mas o Velho pensava: Deus está longe demais pra acompanhar qualquer coisa. E se existe, já cumpriu seu papel há muito tempo. Agora, é só espectador. Inútil como essas elucubrações matutinas.
Voltou pra estrada rumo à serra, refletindo sobre a cidade moderna — mais reluzente, mais barulhenta, mas com as mesmas velhas dores. De cima da ladeira, olhou pro lado oposto do centro bem cuidado. E viu o que chamam de periferia.
Resolveu seguir por uma das ruas da favela. E o abismo apareceu: barracos empilhados, esgoto a céu aberto, crianças sujas, velhos esquecidos, ruas esburacadas, cheiro de medo e de miséria. Gente com fome tocando a vida no improviso. A promessa do progresso, ali, era piada.
Perdeu o encanto. Decidiu que nunca mais voltaria. Queria terminar seus dias na mata, entre os bichos, onde ao menos a selvageria não mente. Subia por uma viela próxima à rodovia quando alguns moradores o notaram. Aquele sujeito de túnica branca surrada, barba longa, descalço, cajado na mão... parecia saído de um livro velho.
Apressou os passos, desconfiado. Mas ao cruzar um pequeno cruzamento antes do asfalto rumo à serra, um carro desgovernado surgiu. Jovens bandoleiros, entorpecidos e covardes, ignoraram o sinal vermelho e o atropelaram.
O corpo do Velho voou. Eles fugiram. Sem olhar para trás. Populares correram para socorrê-lo. Estava todo arrebentado, mas consciente. Sentia a presença da Morte. Ela vinha.
Naquela agonia silenciosa, lembrou-se de Sócrates. O Filósofo dizia que quem vive com virtude e busca pelo saber que não se sabe, encontra no outro mundo um destino melhor que aqueles que se afundam em ignorância, corrupção e vaidade.
Foi quando surgiu um homem. Tinha cerca de trinta e três anos, cabelo e barba compridos, também descalço. Ajoelhou-se ao lado do Velho e disse:
— Você vai ficar bem. Dou minha palavra de andarilho.
O Velho, entre dores e sangue, riu:
— Viver e rir de si mesmo — mesmo sem saber se o próximo minuto será o último — é uma virtude rara. Aceitar o incerto é uma façanha.
A ambulância chegou. Levaram-no ao hospital público. Os socorristas — guerreiros invisíveis desprezados pelos canalhas de terno — reconheceram a gravidade. Colocaram-no numa maca.
O Cabeludo Desconhecido, como o chamariam depois, foi junto.
No hospital, uma enfermeira soltou a verdade:
— O milagre não é ele estar vivo. É ter conseguido um quarto só pra ele.
Duas pernas quebradas. Um braço destruído. Dores que arrancariam a lucidez de qualquer um. Mas o Velho ainda brincava:
— Oh, dona Vida, poupe-me da outra vida!
Nem todo mundo se desespera à beira do fim. Alguns riem. Uns por coragem. Outros por desespero. Ou por entenderem que a vida é transformação constante. E a morte é apenas mais uma.
A maioria, no entanto, entra em colapso. Gritam, se arrependem, lembram dos pecados secretos, dos podres enterrados. Medo de um inferno ou de um julgamento. Tolice? Talvez. Somos todos tentativa e erro. E errar é parte do caminho.
O Cabeludo tentou distraí-lo.
— E o que Sócrates dizia sobre a morte?
O Velho, com ironia:
— Rapaz, eu fui atropelado, mas quem bateu a cabeça foi você. Filosofia agora? Bom... já que me olha como um espelho quebrado, te digo: o que se sabe sobre Sócrates é pouco e é incerto. Sabemos por Platão, que era fã demais. E Sócrates falou tanto que nem uma vida de setenta anos seria suficiente pra explicar.
— Muita gente ignorante — mais do que maldosa — pegou pedaços das ideias daqueles velhos loucos que chamavam de filósofos, misturou com outras, e fundou religiões, seitas, crenças. Sim, até o cristianismo. Plágio disfarçado de revelação.
O Velho apertou a mão do Cabeludo.
— Você me lembra o filho que nunca tive. E os irmãos que tive mas nunca estenderam um dedo. Porque filho da puta é o que mais tem — inclusive na família.
Fez sinal para ele sentar.
— Sabe... a Terceira Guerra Mundial já começou.
— Quê? Como assim?
— Um dia, procurando lenha na mata, vi um homem em cima de uma árvore. Juro. Era noite. Não sei se era real ou delírio. Mas o que ele disse fez sentido:
"A Terceira Guerra não será entre nações. Será dentro das casas. Guerras armadas são demoradas e caras. Um vírus resolve mais. E as pessoas já estão se matando em casa: pai contra filho, mulher contra marido. E pior: tragédias ocultas, violências silenciosas. O mundo está doente. Não só pela ignorância. Tem coisas sinistras acontecendo."
Perguntei: — Rapaz, por que você tá na árvore me dizendo isso? Nem família tenho!
E ele respondeu:
— Aí que está, velho bobão. Você veio de uma mulher. Onde está sua mãe? Onde estão seus irmãos? Sua casa foi destruída há muito tempo. Hoje vive só na mata, mas antes já vivia só entre quatro paredes. Um dia você vai entender.
E sumiu.
O Velho: — Nem sei por que estou te contando isso.
Cabeludo: — Caraca, que doideira. Mas deve ter um sentido.
Velho: — Minha mãe morreu quando eu era bebê. Meu pai, nunca conheci. Me largou num bordel. Fui criado por uma dama da vida. Ela era generosa, lia muito, me ensinou a ler cedo. Aos quatro anos eu lia sem parar. Aos quinze, já tinha devorado os clássicos.
Cabeludo: — E depois?
Velho: — Ela foi assassinada por uns canalhas. Estavam bêbados, queriam forçá-la a transar com todos. Ela resistiu. Apanharam-na. Ela morreu.
Antes de morrer, me disse: "Thomaz, nunca busque vingança. Mas nunca confie nos homens. Tem muito filho da puta no mundo."
Depois disso, saí pela estrada. Vi a Serra Esperança e corri pra lá. Vivo entre bichos desde então.
Mas chega de miséria. Vamos falar de Sócrates. Melhor do que chorar.
Cabeludo: — Quem não sofreu neste mundo, né? Então fala aí do tal Sócrates...
Velho: — Nada melhor do que terminar a vida falando dos últimos momentos do velho Sócrates. Sábio mesmo. Sabia que não sabia muita coisa — e o pouco que sabia, dizia, não valia tanta coisa assim. Isso incomodava. Incomoda até hoje. Especialmente os que acham que sabem tudo. Os donos da verdade. Os profetas das certezas absolutas.
Por isso o calaram. Acusaram-no de crimes que não cometeu e o condenaram à morte. Mandaram-no beber veneno.
Nos seus momentos finais, recusou a fuga. Disse que não existia cidade no mundo onde se escondesse da morte. Preferiu ficar. E ali, à espera do carrasco, falou da alma. Dizia que era imortal. Que não morre com o corpo. Mas que o corpo — esse trapo de desejos — nos distrai, nos corrompe. A alma, para ele, devia ser cuidada. Lapidada. Livre da ignorância. Só a busca pelo verdadeiro saber poderia purificá-la. Essa era a missão da filosofia. Uma busca sem fim. Incerta. Mas necessária.
Quando viu o carrasco se aproximar com a taça do veneno, Sócrates reafirmou: a melhor sorte é dos que fazem o bem. Os que fazem o mal, bem... esses se complicam.
Aceitou a morte com firmeza. Sem temor. Quem teme a morte, dizia ele, não confia no próprio saber. E se a alma vive além da morte, então que ela parta limpa, consciente, altiva. As almas más? Essas não escapam. Só têm uma chance: se tornarem melhores. O julgamento não seria apenas moral, mas também intelectual. Ser ou não ser sábio: essa era a questão.
[O Velho olha o Cabeludo nos olhos.]
— Me diga uma coisa, rapaz. Que vida estamos vivendo? É a vida que escolhemos? Ou a vida que empurraram pra nós? O que é a tal consciência? A gente pensa com a própria cabeça ou com o que pregaram nela? O que é certo e errado, foi a gente que definiu? Ou alguém plantou isso aí dentro?
Tá tudo resolvido já? Ou ainda tem coisa pra perguntar? É pra aceitar tudo? Dizer amém? Ou duvidar? Pensar não dói. Só machuca quando a gente apanha por isso.
Cabeludo: — Cada um faz seu próprio caminho.
Velho: — Mais ou menos isso. Sócrates dizia, através de seus mitos excêntricos, que quando morremos, um Guia — que nos acompanha desde antes do útero — nos conduz até o julgamento. Depois disso, outro guia nos leva ao nosso destino. Alguns voltam. Outros... não.
Cabeludo: — Sinistro. E esses abismos aí? Como são?
Velho: — Ah... explicar, até se explica. Todo mundo tem uma teoria. Mas provar? Quase impossível. Sócrates dizia que os abismos do Hades eram muito piores que esses aqui que a gente vive.
Cabeludo: — Fala logo, antes que você morra de verdade!
Velho: — Calma, engraçadinho. A juventude tem sede, mas nem sempre sabe do quê. Então ouve: no Hades há vários destinos. Os bons — justos, éticos, sensatos — vão para templos lindos onde os deuses descansam. Ali é só beleza e paz. Mas os maus... ah, os maus vão conhecer outros caminhos. Fogo. Rios de fogo. O Tártaro é o pior deles. Um lugar para almas criminosas, cruéis. Há também rios como o Oceano, o Aqueronte — onde os arrependidos se lascam. E o Periflegetonte — puro fogo e terror. Nele, monstros horrendos atormentam os que erraram feio. Perto dali, está o lago Estige. É onde esperam os algozes. Quem os leva? Caronte, o barqueiro. As almas cruzam por tormentos, redemoinhos, lamentos — até chegarem ao Cocito, o rio das queixas.
Cabeludo: — Se isso tudo existir mesmo... melhor cuidar da alma, né?
Velho: — O medo move mundos. Depois da morte, todas as almas são julgadas. Algumas vão por bem, outras são levadas à força — tapa na cara, choque, arrasto. Cada um colhe o que plantou. Quem levou uma vida morna, sem muito bem ou mal, volta. Reencarna. Recomeça.
Cabeludo: — Parece reencarnação mesmo...
Velho: — Parece. Platão falava disso. Muita doutrina se alimentou dessas ideias. Misturaram tudo. Virou caldo de crença, dogma, religião. Pode ser verdade. Pode não ser. E mesmo que seja, nunca é como dizem os fanáticos.
Cabeludo: — E quem viveu uma vida reta, pura, justa?
Velho: — Segundo Platão, esses não voltam. Esses vivem na Vida Verdadeira, livres do corpo, em lugares perfeitos. Mas descrever isso? Difícil. A taça do veneno já está nas mãos. Sócrates bebe. Morre. E talvez, só talvez, tenha encontrado respostas que nós ainda buscamos.
Cabeludo: — No fim, só saberemos depois que morrermos, né?
Velho: — Exato. E mesmo que o outro lado exista, talvez já tenha mudado. O céu e o inferno podem ter mudado também. O mundo mudou, por que o além não mudaria?
Ainda vivemos no pântano das ideias cristãs de céu e inferno. Deus, anjos, luz de um lado. Diabo, trevas e castigo do outro. A humanidade é uma criança crescida — tecnológica, mas ainda amedrontada por lendas.
Cabeludo: — E você? Se for tudo verdade... pra onde acha que vai?
O Velho ri. Lamenta que os mitos gregos tenham sido engolidos pelos dogmas cristãos. Preferia o Hades ao céu gospel. Mas suspira:
— Já nem sei. No fundo... tanto faz.
Então, num gesto súbito, agarra o Cabeludo pela camisa. Olha fundo nos olhos dele.
— Desconhecido... Desconhecido... Desconhecido...
Cabeludo: — Diga. Estou aqui. O que é?
Velho: — Estou sentindo o frio da morte. Acho que está perto. Vou conhecer o verdadeiro Desconhecido.
Sorri. A máquina apita seu lamento fúnebre. A enfermeira e o único médico presente correm. Tentam reanimá-lo. Choques. Massagens. A luta contra o fim começa.
Parte II – Realidade ou Ilusão?
Depois de um tempo, o Velho sentiu tudo escurecer e esfriar. Quando retomou a consciência, já não estava mais no hospital, nem no asfalto, nem nas montanhas. Estava em outro lugar. Confuso. Assustado.
Dois brutamontes surgiram.
Ele os observou se aproximando, sentindo no fundo que talvez estivesse morto.
— Onde estou? — perguntou. — O que está acontecendo?
Os brutamontes riram, zombando:
— Claro, ninguém nunca sabe que lugar é esse!
— É o Hades! — disse o Velho, tentando entender. — Estou morto, cheguei ao mundo espiritual!
— Que gênio! — retrucaram os brutamontes. — Vamos logo. Mesmo que o tempo rasteje aqui, temos pressa.
— Para onde me levam? São meus guias?
— Guias! Essa é boa!
— Vou ver Minos, Radamanto, Plutão? Quem vai me julgar?
Os brutamontes zombaram:
— As coisas mudaram, velho. Hoje chamamos de céu, inferno, purgatório ou simplesmente "o além". Cada um vê o que consegue ver, de acordo com o que compreendeu da vida. Simplificado.
— Imagino que já tiveram problemas com algumas almas…
— Algumas? Héracles, Alexandre, César, uns papas safados como Alexandre VI, uns fanáticos como Gregório VII, santos loucos tipo Joana D’Arc, Teresa de Calcutá, gente esquisita como Napoleão... e claro, o mais tragicômico: Hitler.
— Hitler?
— Sim. Mas pior que ele foi a multidão de judeus que o esperava. Tivemos que trazer o próprio Cérbero para conter o caos.
Enquanto caminhavam rumo ao tribunal, os brutamontes relatavam casos bizarros com almas humanas. O caminho era sombrio: fogo, correntes, lamentos à distância. Mas o Velho seguia calmo. Sentia que algo de bom o esperava.
Chegaram à torre de marfim. No alto, um ser iluminado, com voz de trovão, lia o “livro da vida”. Nele, os méritos e deméritos decidiriam o destino da alma: paraíso ou abismo.
No palco, um suicida era interrogado.
— Por que tiraste tua própria vida? — rugiu o Juiz.
— Por amor! — respondeu o homem. — Fui romântico… deprimido…
— Romântico, é? Então diga, o que é o amor?
O homem gaguejou, se enrolou. O Juiz riu:
— Matou-se por algo que nem sabe explicar? Ignorante! Vai ter uma chance de aprender. Quer voltar como um asno ou ir para o inferno?
— Só tenho essas duas opções?
— E ainda quer mais? Vai para a Lagoa Aquerúsia! Lá terá tempo de sobra para pensar.
O homem sorriu, achando que tinha escapado. Mal sabia que lá, as almas sofriam caladas, com as bocas costuradas.
O Juiz gargalhou. A terra tremeu.
Chegou a vez do Velho. Um homem solitário, autoexilado da hipocrisia humana.
O Juiz leu sua vida.
— Filósofo autodidata… Livros… Reflexões… Nenhuma grande maldade. Mas também, nenhum grande bem. Posso mandar você pra onde eu quiser.
Chamou os brutamontes:
— Lembram dos filósofos que quase mataram o céu e o inferno de tanto rir?
— Sócrates, Platão, Aristóteles… Nietzsche!
— Esse! Nietzsche! “Deus está morto!” Que figura… O céu e o inferno quase entraram em guerra por ele. O bigodão era ridículo, mas genial.
O Velho sorria. Se sentia em casa.
— E você, acredita em Deus? — perguntou o Juiz.
O Velho: — Que diferença faz?
Risos ecoaram.
— Você é maluco, mas inofensivo — disse o Juiz. — Tentou provar que o maior mal da humanidade é o Apego. Mas falhou.
— Ninguém quis ouvir — respondeu o Velho. — O apego como posse, como dominação, destruiu tudo. O mundo virou um hospício de materialistas. Ninguém sabe coexistir. Essa é a palavra-chave: coexistir. Viver junto. Evoluir juntos. Mas não… preferiram a ganância, a ignorância, a arrogância. Resultado? Uma merda generalizada. Desculpe a expressão.
— Maluco, mas com razão — disse o Juiz. — Os infernos estão lotados. Catervas de almas burras, arrogantes, se dizendo representantes de Deus! Dá vontade de rir. E quando pergunto o que fizeram de útil... é só pantomima!
— Mas... o que tenho a ver com isso?
— Tudo! Eu devo uma moeda a Lúcifer, Pyriel, Radamanto e outros. E encontrei a moeda: você!
— Mas senhor…
O Juiz o silenciou com um gesto:
— Vai mudo para o inferno. Quando chegar lá, poderá falar. Se ajudar, eu te devo uma moeda. Levem-no!
E assim foi. Mandado ao inferno para ajudar o Diabo. Mudo, sem poder reclamar das piadas dos brutamontes pelo caminho.
Chegando ao portão do inferno, viu inscrições:
Primeiro portão: “Criado por Deus.”
Segundo: “Filhos Amados.”
Terceiro: “Colônia de Férias Eternas SQÑ.”
Ao atravessar o último, a voz voltou. Podia falar de novo.
E o inferno, finalmente, começava.
Os brutamontes desejaram-lhe boa sorte e voltaram, rindo como sempre.
Logo, um jovem elegante, de cabelos longos, terno preto e bengala de ouro se aproximou. Era Lúcifer. Nada monstruoso, ao contrário do que diziam na Terra — parecia um francês educado e sofisticado.
Com um sorriso cordial, apertou a mão do Velho:
— Finalmente! Um amante da filosofia. Vai ser útil.
O Velho, confuso, se perguntou em que poderia ser útil no inferno. Lúcifer, lendo sua mente, respondeu:
— Estamos com um problema sério. O inferno está lotado. Milhares chegam todos os dias. Claro, nos divertimos. Mas algo incomoda…
— Todas as almas alegam que não são más. Que se foram cruéis ou mentirosas, é porque não podiam ser diferentes.
— Fizemos uma pesquisa. Descobrimos uma coisa curiosa: quase todos os homens aqui culpam o casamento.
— Para verificar, mandamos um de nós viver como humano. Casou-se. E… em parte, os danados tinham razão. Mas não me convenceu. Por muito tempo, pensei que a mulher fosse a causa. Mas os homens... ah, os homens! Para provar força e poder, fazem qualquer besteira. Até se matarem.
— Então pedi sua vinda. Quero saber a causa real disso tudo. E se sua filosofia se sustenta.
O Velho respondeu:
— Acho que sim. Mas sozinho não posso. Precisam seguir minhas orientações.
Lúcifer arqueou uma sobrancelha:
— E o que te incomoda?
— Se eu ajudar o Diabo... não corro o risco de ser barrado no céu? Minha evolução espiritual não será comprometida?
Parte III – As Ideias do Diabo
Lúcifer aproximou-se do Velho com um sorriso nostálgico:
— Você me lembra de mim mesmo, quando ainda sonhava em subir. Mas não se preocupe. Aqui ou lá, estamos todos no mesmo barco. Nada para. Tudo é choque, alternância, transformação. Até aqui, no inferno.
O tempo ali era diferente. Um minuto equivalia a uma eternidade na Terra. Lento, mas constante. E se tudo desse certo, quem ficaria devendo uma moeda não seria mais ele, mas o próprio Juiz.
— E então? — perguntou Lúcifer. — O que podemos fazer?
O Velho sugeriu uma reunião. O Diabo acatou.
Convocaram todos. Lúcifer discursou:
— Zombam de nós! Mas o que seria do céu sem o inferno? Quem acusariam? Quem julgaria os maus? Sem mim, outro tomaria esse trono. Somos necessários. Fomos escolhidos para aplicar justiça espiritual. Cada um segundo suas obras.
Enumerou os horrores: rios de fogo, almas aos milhões, desde papas como Gregório IX e Alexandre VI até multidões anônimas. Todos reclamando.
— Dizem que estão aqui por causa do casamento. Por causa da mulher. Já testamos essa hipótese. Enviamos um de nós para viver entre os humanos. Ele voltou convencido.
Mas Lúcifer não estava. Por isso, propôs novo experimento:
— Desta vez, enviaremos um de nós como mulher. Uma mulher irresistível. Vamos ver se os homens são realmente vítimas ou cúmplices das próprias escolhas.
Houve alvoroço entre os demônios.
— Quem aceitará isso? — gritou um deles.
— Belfagor! — disse Lúcifer.
— O quê? Como mulher?
— Por uma boa causa.
Lúcifer transformou o demoníaco Don Juan dos infernos na mais bela mulher já forjada. Deu-lhe um encanto para esquecer temporariamente sua identidade demoníaca. Ensinou-lhe a ser dócil, submissa, perfeita — uma dama segundo os ideais da sociedade.
Belfagor, agora Ana Bell, foi enviado à Terra. Tornou-se uma jovem advogada, recém-formada, e caiu direto no gabinete de um dos senadores mais poderosos de uma nação das Américas.
No primeiro dia, parou o trânsito da Avenida dos Ministérios. Fez marmanjos tropeçarem e corações tremerem. O Senador logo quis conhecê-la.
Quando ela entrou em seu gabinete, ele perdeu o fôlego. Nunca vira mulher igual. Estava encantado, arrebatado. Em pouco tempo, Ana virou obsessão, loucura, perdição.
Convidou-a para um jantar reservado. E naquele jantar, Ana Bell deu o golpe final. Jantou o Senador, o capturou em suas redes. O plano do inferno começava a funcionar.
Parte IV – A Experiência de Ana Bell
Agora era hora da verdade: seriam as mulheres realmente a causa de todas as lamentações no Inferno?
O tempo passou. Ana Bell e o senador se casaram. Ele estava prestes a se tornar ministro. Mais poder. Mais influência. E Ana, sem conhecer todos os esquemas, foi, aos poucos, assumindo o controle. Mandava. Sabia demais. Tinha poder sobre ele.
O homem, antes enfeitiçado, agora se sentia ameaçado. Começou a fugir de casa, trai-la. A paixão morreu.
No início, ela era celebrada: bela, poderosa, desejada. Mas, como toda mulher enganada, passou a desconfiar. Até descobrir a traição. Não era amada, era um troféu. O homem não roubava para ela. Roubava para si. Para inflar seu próprio ego, sua fortuna, sua imagem. Um patife.
Desiludida, Ana também traiu. Virou amante de um empresário corrupto. E foi se esquecendo de que era Belfagor. Apegou-se à vida de luxo, prazer, bajulação. Mesmo sabendo que seu novo parceiro era mais um destruidor da Terra — mais um homem obcecado pelo próprio umbigo.
O ministro, com medo, mandou matá-la. Planejou uma armadilha: uma festa em uma ilha. Ela embarcou… e voltou ao Inferno.
O ministro, depois exposto por corrupção bilionária, tirou a própria vida. E foi parar lá embaixo, onde Belfagor já se divertia.
Na volta, o demônio Belfagor relatou tudo a Lúcifer e ao Velho. Contou que mesmo sendo a mais bela mulher, mesmo tendo poder, charme e influência, sentiu-se usada. Nunca foi prioridade. Foi desejo. Foi objeto. Mas nunca amor.
Havia experimentado o vazio — aquele que nem poder, nem dinheiro, nem bajulação preenchem. Sentiu compaixão pelas pessoas pobres, enganadas, sem perspectivas. Viu como homens em posição de poder são capazes de transformar o mundo em um inferno real.
No fim, concluiu:
— A mulher não é a causa. Nem o casamento. A verdadeira raiz está no apego. Na obsessão cega por posse, domínio, vaidade.
Lúcifer ficou em silêncio, fingindo estar chocado, sempre irônico.
— Está provado. Não é a mulher. Nem o casamento. Mas… o que é, então?
O Velho respirou fundo:
— Não é a política. A política, bem usada, é instrumento de felicidade coletiva. O problema está em quem a corrompe. O poder não é o mal. É a ignorância. E mais ainda: o apego. O apego doentio às coisas, ao status, ao controle, ao "ter". Essa é a raiz. E por isso o céu está vazio e o inferno lotado — concluiu. — As pessoas trocam tudo por bens materiais. Por ilusões. Jogam fora a existência por migalhas de vaidade. Viste Sócrates, Diógenes, Gandhi, Buda, Marx ou Nietzsche nos abismos? Não. Eram loucos, sim. Mas buscavam o bem. Queriam coexistência. Uma felicidade autêntica.
— Lênin e Stalin estão lá embaixo… — murmurou Lúcifer.
O Velho:
— Pois é. Os desapegados suportam conviver até com seus opostos. Os apegados, não. Estão todos aqui, nos abismos, afogados na vergonha de terem desperdiçado sua liberdade… E tudo isso para quê? — completou. — Para alimentar uma mentira sobre si mesmos. Foram o que não eram. Nunca tiveram coragem de ser o que são. Talvez apenas… seres em busca de algo maior.
Lúcifer voltou-se ao Velho:
— Thomaz, meu caro. Os homens aqui mentiram. Culpavam o amor. Culpavam as mulheres. E não era nada disso. Diz-me, afinal: o que é que leva tantos ao inferno?
— Todos fazem o bem e o mal — disse o Velho. — Não há santos. Isso é invenção humana. Por que matam, roubam, enganam? Por preguiça de pensar. Preguiça de serem humanos. Mergulham na animalidade. Consomem. Acumulam. Acham que isso é força, poder, realização. Veja onde estão todos eles agora. Se fossem desapegados, a Terra seria um céu, não um inferno.
Lúcifer o encarou:
— Não sei não. Você acredita mesmo que os humanos seriam melhores sob esse ideal de desapego? Eu duvido. O inferno é grande. Sempre haverá lugar para esses infelizes.
— O desapego é maior que o apego — retrucou o Velho. — E o próprio inferno está aqui para provar. Afinal, apesar de tudo, o Diabo não mente. O apego é inevitável, mas o desapego é mais inevitável ainda. Ou será que o Diabo acumula riquezas na Terra?
Lúcifer sorriu.
— Tua parte terminou, Thomaz. Agora vá até aquele que te deve uma moeda. Diga-lhe que sou grato pela cortesia.
O Diabo o acompanhou até os portões do inferno. No caminho, passaram por uma máquina sinistra — uma espécie de cadeira elétrica.
— Para quem é isso? — perguntou o Velho.
— A cadeira do choque eterno — respondeu Lúcifer. — A alma que ali sentar será eletrocutada por toda a eternidade.
— E quem será o escolhido?
— Ninguém escolheu. Ele mesmo está se preparando. É um homem que acredita que seu poder vem dos céus. Comanda uma das maiores nações do planeta. Acha que tem o "mandato divino". Pois bem… quanto mais alto o galho, maior o tombo. Não é assim que dizem?
Chegando aos portões, os dois brutamontes o esperavam.
— Pode voltar quando quiser — disse Lúcifer. — Ajudou o Diabo. Agora tem passe livre por aqui.
O Velho, curioso, não resistiu:
— Você pretende tomar a Terra?
Lúcifer riu:
— Por que eu tomaria algo que não pertence a ninguém?
— E você e Deus? São inimigos?
— Inimigos? — disse Lúcifer, com um sorriso enigmático. — Quem disse que somos? Talvez sejamos a mesma pessoa. Pense nisso, meu caro pensador.
Os portões do inferno se fecharam.
Os brutamontes, à sua espera, informaram:
— O Juiz está muito satisfeito.
O filósofo sorriu de canto. Talvez fosse só mais uma ironia.
Parte IV – Voltando para o Inferno da Terra
— Como vocês se chamam? — perguntou o Velho.
Um dos brutamontes respondeu: — Eu, com um chifre, sou Ibo. Ele, com dois, é Obi. Antes éramos um só, mas o Juiz nos dividiu.
— Para quê?
— Não sabemos — disse Ibo.
O Velho então partiu para o Tribunal. Lá, a voz de trovão o saudou: — Pensador! Que bom vê-lo de novo! Soube que teve êxito no inferno. Lúcifer está contente. Mas ainda há algo inacabado. Sua filosofia do desapego precisa ser semeada na Terra, não acha?
— Nunca darão ouvidos a um velho esquisito e pobre que vive sozinho no mato — retrucou o Velho. — Na Terra, quem manda é o apego, a ilusão, a ignorância e o mal. Só nos resta continuar tentando, mesmo que ninguém escute.
— Então esse é o seu papel — disse o Juiz. — Vou mandá-lo de volta para a Terra para incomodar a caterva de abestalhados.
— Com a idade que tenho, só vou ganhar apelidos e piadas. É perda de tempo. Só deixo minhas matas quando a Dama de Preto vier me buscar.
— Te enganas — disse o Juiz. — Sua frase “O desapego é maior e melhor que o apego” vai atravessar os séculos. Nem precisa sair andando pelo mundo. Quando voltar dos mortos, as pessoas virão até você.
— Quanto a isso, até o Diabo duvida — resmungou o Velho.
— E ele sempre duvida — disse o Juiz. — Por isso é o Arcanjo, o Primeiro, o Diabão!
— Talvez todos devessem ser como ele...
— Seria chato demais! E você, aliás, é mais chato que ele! Sua filosofia do desapego é um inferno para as almas da Terra. Preferem suas ilusões materiais, acreditando que estão no céu, quando vivem em uma mentira confortável. E aí você chega e tenta tirar isso deles? O que você esperava?
O Velho fez uma pausa, então perguntou: — Juiz, qual o sentido final de tudo isso? Para quê existe o universo, as vidas sucessivas, as formas de existência, a evolução? Para onde vamos com tudo isso? Qual a resposta para o grande "pra quê"?
— Só os Deuses devem saber — disse o Juiz.
— Você é um Deus?
— Não.
— Lê pensamentos?
— Não.
— Sabe tudo sobre tudo, presente, passado, futuro?
— Não. Só os Deuses sabem.
— E então?
— Então o quê?
— Como é que você sabe que só os Deuses sabem?
O Juiz silenciou. Pensou. Refletiu. Por fim, admitiu: — Não sei. Talvez nem os Deuses saibam…
O Velho sorriu: — Bem-vindo à filosofia.
De volta à Terra, um corpo com aparência cadavérica era velado numa capela pública. Assistentes sociais, vagabundos, andarilhos, bêbados e desconhecidos dividiam o silêncio com o morto — o Velho, agora apenas um corpo em repouso.
Entre eles, o Cabeludo Desconhecido, aquele que segurara sua mão no hospital. Alguns comentavam: “Coitado, foi atropelado.” Outros filosofavam: “É assim mesmo... uns atropelam, outros são atropelados.”
Foi então que, dentro do caixão, o Velho voltou a si. Não conseguia abrir os olhos, mas ouvia. Em silêncio, pensava: “Sonho ou realidade? Estive morto? Foi delírio? Inferno? Céu? Não vi alienígenas... Será que o além é só humano? Talvez tudo tenha sido só... um lampejo.”
Logo, concluiu: “Se nem o céu, nem o inferno têm as respostas, o que tem? O que somos no meio disso tudo? Planetas, dimensões, ciclos de vida... Pra quê?”
Abriu os olhos. Estava no caixão. Mas não se alarmou.
Sentou-se. Os presentes fugiram em disparada — todos, menos o Cabeludo Desconhecido.
— Não morreu? — perguntou ele.
— Não sei, meu preclaro. E você, vive? Eu... só sei que não consigo parar de pensar. Qual o sentido da vida humana? O que é o homem diante da imensidão cósmica?
— Não são perguntas fáceis — respondeu o Cabeludo. — Ainda mais num caixão. Levanta-te e anda!
— Justo. Boa piada pós-ressurreição. Mas imagine... e se nem Deus e nem o Diabo souberem? Talvez sejam apenas peças menores de algo muito maior. Então, quem ou o quê nos leva às respostas?
— Talvez a busca. Talvez a união. Cada um por si ou todos juntos. Juntos, podemos mais. Sozinhos, nos perdemos.
— E só com o Desapego poderemos coexistir. A Coexistência... é o segredo.
— Está mais sábio do que antes...
— Menos burro, talvez. A dor... é essencial.
— Não precisamos da dor!
— Talvez não, mas sem ela, eu não teria mergulhado em mim mesmo. Ali encontrei meu Juiz, meu Inferno, meu Diabo... minha chance de Céu. Morri e renasci.
— Profundo.
— E no fundo, descobri algo: “Isso poderia ser um Paraíso se não fizéssemos dele um Inferno. Isso poderia ser aquilo, se não fosse apenas isso.”
— O que não temos de belo... é o que temos de belo.
— “Só podemos nos tornar o que realmente somos”, dizia Nietzsche. Agora, não sei se nos encontramos ou nos perdemos. Mas sei que comecei a ser o que sou.
— Mas o que é a vida diante do Infinito? Grandes mentiras ou pequenas verdades?
— Quem dera saber... Mas há algo: essa vontade esmagadora de algo mais. Isso nos move.
— Será?
— Que outro impulso teríamos? Mas antes de mais filosofias... vamos sair desse caixão. É excêntrico demais.
— Concordo. Vem, eu te ajudo.
O Velho saiu do caixão. A multidão, atônita, olhava de longe.
— Busquemos nos encontrar no agora. Aqui. Em carne e osso. Antes de procurar nas coisas, nos outros, em outros mundos.
— O velho dilema: o que veio antes? O ovo ou a galinha? Os Deuses ou o Universo? E antes disso tudo?
— Não sabemos. Talvez nunca saberemos. Mas precisamos parar de nos devorar por ilusões. Resta conviver. Coexistir. O agora é tudo o que temos.
— E as verdades absolutas?
— Suspeito que são só invenções humanas. Mas quem sou eu para afirmar?
— Mesmo assim, pensar vale o risco. Mesmo que o fim seja o nada.
— Distrações. A vida na Terra é uma distração diante da morte. É preciso que essas distrações aconteçam no Agora. Sem “mais tarde”.
— No mais profundo abismo, conversei com o futuro... Ele disse: “O passado presente é meu futuro.” E que o passado é o maior presente do futuro.
— Mas meu passado é só guerra, ruínas...
— Isso é o que você vê agora. Não é o que ainda pode ver.
— Tudo o que fizer em Verdade, agora, será o maior presente para o próximo futuro. Nada de lamentar os dias vividos. Os ventos da vida nunca pararam. Eles conduzem quem vive e ama sem medo, sem apego, além de todo bem e mal.
Silêncio.
O Velho compreendia.
Nem tudo foi tragédia. Nem tudo comédia. Sempre foi preciso escalar os montes para sentir os ventos. Sempre foi preciso chutar o balde.
Antes de uma nova aurora, surgiu um novo Agora. E esse Agora... era uma mulher. E ela concebeu o passado e os filhos do futuro. O Futuro a tomou pela mão e disse: “Eis a minha mais amada amante.” E se foram.
— O que quero dizer com isso, meu caro? Simples: os ventos da vida sempre soprarão. Cabe a nós subir aos montes e escolher a direção.
A vida sempre será uma insana montanha-russa.
Agora, sei: é preciso pensar no que vamos deixar. Qual o sentido de termos passado por aqui?
Vivo o Agora, não por falta de amanhã, mas porque ele é para sempre.
E isso exige radicalidade. Chutar o balde. Fazer o que parece fazer sentido nesse caos todo. Viver com intensidade. Observar o detalhe de cada coisa, palavra e pensamento. Ser cobaia de mim mesmo.
Tomado por essa tragicômica clareza, o Velho saiu da capela. A multidão gritava:
— Santo! Santo! Voltou dos mortos!
Irritado, ele respondeu:
— Sobrevivi a mim mesmo, seus tolos! Da morte ninguém escapa! Se eu sou santo, vocês também são! Se existissem santos e sábios de verdade, este mundo seria um paraíso. Olhou em volta. Procurou pelo Cabeludo Desconhecido. Ele já não estava mais lá. Fim.
Kaus Arkiteto
NOTA À POSTERIÓRI
Aqui estão dois livros: “TUDO VAI PRO VINAGRE, antes chamado de “Andarilhos Errantes” e “ENTRE VIDRO E PERIGO, antes chamado de “Diabo Mulher”. Ambos os textos buscam desacomodar aqueles que julgam um livro pela capa e ao mesmo tempo, é uma oportunidade de reflexão sobre os valores considerados moralmente corretos e inquestionáveis, sobre os nossos conceitos e preconceitos, e sobre as várias faces da violência e da maldade travestidas de amor ao próximo, igualdade, liberdade e fraternidade. Em suma, é uma indagação filosófica simples e que ao mesmo tempo tenta ser divertida, jocosa, satírica e irônica sobre a cultura e a decadência da humanidade em vários aspectos. Os textos também fazem um resumo da filosofia em geral, o debate entre o que é útil e inútil, sentidos e significados da vida; também tenta alargar o entendimento sobre a filosofia platônica, e ainda realiza um diálogo entre o "Diálogo Fédon de Platão" e o livro "Belfagor, o Arquidiabo" de Maquiavel. Algo mais...É o que essas singelas obras pretendem ajudar a encontrar. Logicamente, em tempo, esses texto, diretos e retos, prestam um tributo às mulheres que através dos tempos foram e ainda são violentadas. Filosofia sem frescura para todos, questionamentos dos valores, viagem ao desconhecido, é o que estas obras, em seu quadro geral, propõem.
Indagações de uma manhã de inverno
Onde o ser humano pode encontrar A Verdade?
Quer dizer, é possível encontrar A Verdade em cada coisa?
O que é A Verdade, afinal?
Ela é absoluta, irrefutável e inquestionável?
Qual é a origem de tudo?
Qual é a origem do Universo?
E qual é a origem daquilo que originou o Universo?
E, ainda, qual é a origem da origem daquilo que originou o Universo?
Há um Deus? (Ou Deuses)?
De onde surgiu esse Deus (Ou Deuses)?
Quem criou o Deus (ou Deuses) que criou (criaram) tudo?
Quem é o pai (s), o avô (s), o bisavô (s), o trisavô (s), tataravô (s) de Deus (ou Deuses) e assim por diante?
Ah, não existe Deus (ou Deuses)! Então, de onde surgiu tudo?
E qual é a origem desse 'onde'?
Qual é a finalidade do ser humano sobre a Terra?
Só fazer peso sobre a Terra? Só nascer, existir, procriar, pagar impostos, enriquecer meia dúzia de canalhas, envelhecer e morrer ou morrer antes do tempo, ou ainda, morrer em vida?
Há uma razão, um sentido para a vida humana? Sim, qual?
Não? Nenhum sentido, motivo ou razão?
Então devemos criar um sentido, uma razão de ser, ser a nossa própria motivação de existir?
Qual será o ponto final de todo o ser humano? A morte?
Não? Há algo mais? O quê? Como é esse algo mais? Alguém pode provar a existência desse algo mais?
Não há nada mais? Então, 'para que' existimos?
Não há um 'para que' ?
Nós inventamos, criamos e ressignificamos constantemente uma existência sem sentido e que, um dia, tal como os dinossauros, será exterminada da face do Universo?
O Sol, a Terra, os demais Planetas, a Galáxia Via Láctea e todo o Universo colapsarão em si mesmos um dia.
Até lá, seguiremos fazendo perguntas, esperando encontrar respostas, mesmo que, lá no fundo, já saibamos, de alguma forma, quais são as respostas.
E. E-Kan
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