Eles só pensam no tigrinho
A dificuldade de aprendizagem e os lapsos de memória na adolescência não podem mais ser explicados apenas pelas transformações biológicas do cérebro. É verdade que, nessa fase, ocorre uma intensa reorganização das conexões neurais, o que pode afetar temporariamente a atenção, a memória, o controle emocional e a capacidade de concentração. Entretanto, limitar a explicação à neurociência seria conveniente demais para um sistema que insiste em ignorar os problemas que ele próprio ajuda a produzir.
Enquanto o cérebro do adolescente tenta reorganizar suas conexões, a sociedade faz questão de desorganizá-las. A reportagem "Tigrinho vai à escola: apostas invadem recreios e salas de aula" mostra que estudantes têm levado a perversão das apostas para dentro das escolas, chegando a gastar recursos do programa Pé-de-Meia em jogos de azar e transformando recreios e até salas de aula em tabernas de jogatinas. Em alguns casos, a própria família normaliza ou participa desse comportamento, revelando que a educação doméstica já não consegue competir com algoritmos, influenciadores digitais e plataformas cujo objetivo é capturar atenção e dinheiro.
O resultado é quase uma caricatura da educação contemporânea. A escola tenta ensinar funções do segundo grau enquanto disputa a atenção de vídeos de quinze segundos, apostas instantâneas e redes sociais projetadas por especialistas para manter adolescentes conectados o maior tempo possível. Depois, quando o rendimento escolar despenca, a culpa recai, quase sempre, sobre o professor, como se ele fosse o único responsável por um ambiente construído para instruir o 'mais do mesmo' e distrair adolescentes viciados em jogatina e outras coisas.
Os pais, muitas vezes exaustos ou ausentes, entregam o celular como babá eletrônica. Os preceptores e parte das instituições educacionais, pressionados por burocracias e índices estatísticos, frequentemente limitam-se a administrar sintomas em vez de enfrentar as causas. O poder público, por sua vez, alterna discursos sobre educação de qualidade com uma fiscalização insuficiente sobre plataformas digitais, publicidade e jogos de azar acessíveis a menores, permitindo que interesses econômicos avancem exatamente sobre o público mais vulnerável.
Nesse cenário, não surpreende que adolescentes apresentem dificuldades de memória, atenção e aprendizagem. O espantoso seria esperar o contrário. Cobra-se concentração de uma geração treinada para consumir estímulos contínuos, reflexão de jovens cercados por recompensas imediatas e pensamento crítico de estudantes que convivem diariamente com um ecossistema digital cuja lógica é impedir justamente a reflexão.
Assim, compreender o adolescente significa reconhecer que seu cérebro está em desenvolvimento, mas também admitir que a sociedade, a família, a escola e o Estado compartilham responsabilidades. Afinal, é difícil exigir que as novas gerações construam um futuro sólido quando os próprios adultos parecem apostar, literalmente, que tudo se resolverá sozinho, ou pior, dar tudo como perdido. Infelizmente, é para esse último lado que estamos caminhando e, em parte, é por isso que muitas pessoas não querem mais ser professores. Tudo caminha para o caos social.
___E-Kan
Referência:
FAJARDO, Vanessa. Tigrinho vai à escola: apostas invadem recreios e salas de aula. Agência Pública, 19 set. 2024. Disponível em: https://apublica.org/2024/09/tigrinho-vai-a-escola-apostas-invadem-recreios-e-salas-de-aula/. Acesso em: 10 jul. 2026.



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