NAPOLEÃO BONAPARTE E AS RELEITURAS DE MAQUIAVEL NA HISTORIOGRAFIA

     


    Napoleão Bonaparte, imperador dos franceses e conquistador da Europa, deixou para a posteridade não apenas batalhas e códigos de lei, mas também um objeto curioso e revelador. Em sua carruagem, após a derrota em Waterloo, foram encontrados manuscritos contendo seus comentários sobre a obra O Príncipe de Nicolau Maquiavel. Esse achado não é um mero detalhe arqueológico, mas uma chave interpretativa para compreender a formação política e a imagem pública de um dos personagens mais estudados da história moderna. A pergunta que emerge desse gesto é simples, mas poderosa: o que um imperador do século XIX buscava nas páginas de um tratado escrito no século XVI? A historiografia sobre o tema tem se dedicado a responder essa questão a partir de diferentes ângulos. Alguns autores concentram-se na aplicação prática das lições maquiavélicas, outros na materialidade dos escritos deixados por Napoleão, e há ainda aqueles que inserem essa leitura em um contexto mais amplo de recepção da obra. Longe de serem excludentes, essas abordagens se complementam e enriquecem o debate, revelando as múltiplas camadas de significado que envolvem a relação entre o imperador e o secretário florentino.

Diego da Costa Soares, em sua monografia de 2005, foi um dos primeiros pesquisadores brasileiros a se debruçar sistematicamente sobre os comentários de Napoleão. Sua tese central é que a leitura napoleônica não foi um exercício teórico desinteressado, mas um processo deliberado de formação de si mesmo como soberano. Inspirado nas reflexões de Jorge Larrosa, Soares argumenta que a palavra de Maquiavel teve o poder de "formar ou transformar a sensibilidade e o caráter do leitor", e Napoleão leu o tratado como um manual para a ação, aplicando suas lições em cada passo de sua trajetória (SOARES, 2005, p. 9). Contudo, a produção historiográfica recente ampliou consideravelmente o escopo dessa discussão. Vanessa Carnielo Ramos, em 2013, analisou as 773 notas de rodapé deixadas por Napoleão sob uma perspectiva metodológica inovadora, destacando a função específica desses escritos como comentários construídos a partir da experiência vivida. Já José D'Assunção Barros, em 2024, propôs uma abordagem comparativa ao situar Napoleão ao lado de outros dois grandes leitores de Maquiavel, Rousseau e Frederico II, demonstrando que o imperador francês não foi um discípulo passivo, mas um interlocutor crítico que se sentia à vontade para discordar do mestre florentino. LEIA O ARTIGO COMPLETO AQUI>>>

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