"A culpa é do mercado", uma crítica ao Sistemão a partir de uma leitura de Ellen Wood
O Mercado, essa entidade onipotente que decide o destino de nações e trabalhadores com a frieza de uma planilha de Excel, é tratado como se fosse uma força da natureza, tipo a gravidade, mas com juros. Políticos, empresários e economistas repetem como um mantra: “a culpa não é nossa, é o mercado que está exigindo”. Demissões em massa? Mercado. Arrocho salarial? Mercado. Crise cambial? Mercado. O problema é que esse tal de Mercado, com M maiúsculo, não desceu do Olimpo num pacote junto com as estações do ano. Como demonstra Ellen Meiksins Wood, o capitalismo — e com ele essa ideologia da onipotência mercantil — é invenção humana, histórica, localizada e, acima de tudo, interessada.
Antes do capitalismo, o comércio existia, mas operava sob outra lógica. Comprava-se barato num mercado para vender caro noutro, e a produção não estava submetida aos imperativos da competição e da acumulação. Wood é taxativa: “O princípio dominante do comércio, em todo lugar, era ‘lucro por meio da venda’, ou ‘comprar barato para vender caro’” (WOOD, 2000, p. 14). Não havia um mercado unificado, nem a necessidade de produzir mais barato para sobreviver. A grande transformação, segundo a autora, não ocorreu nas cidades, com mercadores esclarecidos, mas no campo inglês, quando uma classe de senhores de terra, desprovida de poderes extraeconômicos significativos, passou a depender da produtividade de seus arrendatários para extrair renda. Criou-se, assim, um mercado de aluguéis no qual o acesso à terra passou a ser mediado pela capacidade de pagar o valor corrente. Wood explica: “Para alcançar uma renda adequada numa situação em que outros arrendatários em potencial estavam competindo pelo mesmo contrato de aluguel, os arrendatários eram compelidos a produzir mais barato sob pena de perderem a terra” (WOOD, 2000, p. 17). Estava inventada a dependência universal do mercado.
A jogada de mestre foi fazer essa construção social parecer natural. O filósofo John Locke, no século XVII, já oferecia a versão filosófica da lorota ao defender que a propriedade se justificava pelo “melhoramento” — ou seja, pelo uso lucrativo da terra. Terras não cultivadas para o lucro seriam “desperdício”, passíveis de apropriação por quem as tornasse produtivas. Locke afirma, sem rodeios, que “terras sem ‘melhoramentos’... constituem desperdício e, como tal, estabelecem o direito... de aqueles decididos a ‘melhorá-las’ se apropriarem dela” (LOCKE apud WOOD, 2000, p. 21). A expropriação, assim, deixava de ser violência para se tornar direito natural. E, uma vez naturalizada, a exploração pôde ser atribuída não mais a relações de poder concretas, mas a uma entidade abstrata chamada Mercado.
O brilhantismo do dispositivo é que ele funciona como um biombo: as elites criam as regras, moldam as instituições, controlam os recursos, e, quando os efeitos perversos do sistema se manifestam, apontam para o Mercado como culpado. David McNally, em seu obituário intelectual de Wood, sintetiza essa percepção ao destacar que, para ela, a especificidade do capitalismo reside exatamente em tornar a exploração dependente do mercado, obscurecendo as relações de dominação (McNALLY, 2016). O trabalhador não é mais explorado por um senhor feudal visível, mas por um sistema impessoal que ninguém vê, mas todos sentem.
E os ricos? Também estão sujeitos ao mercado, dirão os apologetas. De fato, estão. Mas estão sujeitos num jogo de cartas marcadas. Eles definiram as regras, acumularam as fichas e, quando o cassino ameaça quebrar, são resgatados com dinheiro público. Wood mostra que a dependência do mercado atinge a todos, mas de formas radicalmente distintas: “uma vez que os imperativos do mercado ditam os termos da reprodução social, todos os atores econômicos — tanto apropriadores quanto produtores, mesmo que mantenham a posse, ou mesmo a propriedade dos meios de produção — estão sujeitos às exigências da competição” (WOOD, 2000, p. 27-28). O que ela não precisa explicar, porque salta aos olhos, é que uns estão sujeitos de Porsche, outros de chinelo furado.
A grande contribuição de Wood, nesse sentido, é desnaturalizar o óbvio. O capitalismo não é o desabrochar de uma tendência humana inata ao escambo, como queria Adam Smith, mas “o resultado tardio e localizado de condições históricas muito específicas” (WOOD, 2000, p. 26). O mercado não é um deus, é um artefato. E, como todo artefato, serve a quem o construiu. Acreditar na sua neutralidade é o primeiro passo para aceitar passivamente a exploração que ele organiza. O segundo é repetir, como um bom idiota da corte do Sistemão (como eu chamo o Capitalismo Tecnocrata Ultra-dinheirista atual), que “a culpa não é da massa alienada dividida que fanatiza por politicopatas, corruptopatas, religiopatas e bandidagem de grife em geral, nem do patrão sanguessuga, nem dos bilionários parasitas do mundo, nem das Elites sádicas, a culpa é do mercado”. A cara mais tragicômica da burrice é a da pseudo-inteligência.
E. E-Kan
Referências
McNALLY, David. Ellen Meiksins Wood obituary: Political theorist who dissected the conflict between capitalism and democracy. The Guardian, 10 fev. 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2016/feb/10/ellen-meiksins-wood-obituary. Acesso em: 25 fev. 2026.
WOOD, Ellen Meiksins. As origens agrárias do capitalismo. Crítica Marxista, São Paulo, Boitempo, v.1, n.10, p. 12-29, 2000.




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