As tretas, as doideiras e os podres dos pensadores também contam muito


Sócrates vai te ensinar a (fingir) a suportar a vida, não vendo a hora dela acabar e ainda dará graças a Deus por isso. "Críton, devemos um galo a Asclépio".

Aristóteles, (que via as mulheres como animais mutilados), teve duas mulheres e dois filhos. Num momento de masoquismo, Aristóteles resolveu brincar deixando uma mulher chamada Phillis andar de cavalinho nele dando-lhe chicotadas. O que ele te ensinará? Ele te ensinará que a moderação é muito boa para os outros, enquanto você se esbalda nas putarias do mundo, sobretudo nas redes sociais. Se Alexandre 'O Grande', tivesse dado trela para os ensinamentos de Aristóteles, ele teria sido Alexandre "O Moderado". 

Hanna Arendt, que era judia e namorava escondido com o Nazista de carteirinha Martin Heidegger, te falará da Condição Humana, dos Adolf Eichmann da vida e que a vida humana está imersa numa banalidade maligna. 

Epicteto, escravo romano no tempo do piromaníaco Nero, que se dizia estoico e se achava um 'Spartacus do Pensamento Estoico', vai te falar sobre a ataraxia, e pregar que a única forma de ser feliz é interiormente, que o mundo é podre e que é preciso se desapegar radicalmente de tudo. Epicteto pode ser visto como o pai do ascetismo psicológico: "não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos delas". Parece uma puta ideia, porém, o mundo real é caos de sentimentos, emoções, razões, é sentir, viver, gozar, se esbaldar, perder, ganhar, empatar, quebrar a cara, cair, levantar, se perder com moderação e sem nenhuma moderação. Então, Epicteto, como todo estoico, que prega o desapego do mundo, como se a mente fosse uma fortaleza intocável, viaja na maionese. Não existe Escapatória para a fodeção de existir. Nem na mente, nem fora dela. O caos está em toda a parte. 

Sêneca, outro estoico, que pregava a vida retirada, a tranquilidade da alma, não resistiu a "tentação" do poder e tudo que vem com o poder e se meteu a ser conselheiro do pirado do Nero. Resultado: Nero, doido de pedra depois de ter matado a própria mãe, achou que ele conspirava para sua queda e o condenou ao suicídio. Sêneca então, corta os pulsos, as veias da perna, entra numa banheira com água quente e por fim ainda bebe cicuta. Antes de seu suicídio punitivo, Sêneca ajudou Nero a escrever o discurso para tentar engabelar o Senado, justificando o assassinato da mãe. Fica o aprendizado sobre estoicos, eles sempre estão metidos em alguma maracutaia, mas com a pose de sábios e santos. Aliás, todos os que pregam auto-controle, moderação, desprendimento, ascetismo, etc, vivem metidos em putarias e mutretas. 

Obviamente, essa é apenas uma provocação reflexiva. As gigantescas obras destes pensadores (como quaisquer outros) não se resume a meras provocações, afinal, as obras deles transpassam milênios, não é? Todos os citados aqui, são pensadores únicos, fizeram história, tem nosso respeito, mas não podem ser vistos ingenuamente, como se fossem Santos imaculados ou heróis de seu tempo. 

Como todo ser humano, os filósofos não estão imunes as merdas do mundo e não são exemplo para ninguém. E quem estuda filosofia a sério sabe que os pensadores em geral, são cheios de nove horas, a maioria queria fundar escolas próprias (seitas do pensamento) para doutrinar mentes jovens bestinhas (quase todo jovem é bestinha, em qualquer época). 

Então, é preciso estudar de verdade, com curiosidade, com crítica, com metodologia, rigor e honestidade intelectual, sem moralismo, mas sobretudo, sem ficar babando de paixão pelos pensadores. Só assim, talvez, se aprende algo novo, se observa algo novo, talvez até algo que ninguém viu, e 'talvez', (de novo) se avança em conhecimento e esclarecimento. Isto é, as tretas, os vacilos, as doideiras e os podres dos pensadores também contam muito. O verdadeiro estudo é feito com rigor e com ironia. 

E. E-Kan 


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