Teorias sobre Shakespeare e desonestidade intelectual


William Shakespeare é considerado, há séculos, o autor de algumas das obras mais importantes da literatura mundial. Peças como Hamlet, Macbeth e Romeu e Julieta continuam sendo estudadas e encenadas até hoje (BLOOM, 1998; GREENBLATT, 2012). Apesar disso, de tempos em tempos surgem teorias alternativas dizendo que outra pessoa teria escrito essas obras (WELLS, 2006).

Uma dessas ideias recentes apareceu em reportagens da imprensa britânica, incluindo o Daily Mail. Segundo a matéria, a historiadora Irene Coslet propõe que a verdadeira autora das peças atribuídas a Shakespeare teria sido a poeta Emilia Bassano.

Quem foi Emilia Bassano?

Emilia Bassano — também chamada Emilia Lanier — foi uma escritora real que viveu na Inglaterra entre os séculos XVI e XVII. Ela era filha de músicos ligados à corte da rainha Elizabeth I e publicou, em 1611, um livro de poemas chamado Salve Deus Rex Judaeorum. Essa obra é importante porque está entre as primeiras coleções de poesia publicadas por uma mulher no país (GREENBLATT, 2012).

Por causa de sua atuação no meio cultural da época, alguns autores sugerem que Bassano poderia ter inspirado personagens ou até mesmo ter contato com Shakespeare. Outros levantam a possibilidade de que ela seja a chamada “Dama Escura” mencionada nos sonetos do dramaturgo. No entanto, essas ideias são interpretações literárias e não provas históricas de que ela escreveu as grandes peças atribuídas a Shakespeare (WELLS, 2006).

A historiadora feminista Irene Coslet argumenta que Shakespeare teria se apropriado das obras de Bassano e publicado tudo com seu próprio nome. A hipótese sugere que fatores sociais da época, como o fato de Bassano ser mulher (E ESSA É A PRINCIPAL LINHA DE ARGUMENTAÇÃO DESSA "HISTORIADORA": POR SER MULHER ISSO E AQUILO), teriam impedido que ela fosse reconhecida (WELLS, 2006).

Apesar de chamar atenção, a teoria de Irene é frágil porque não existem documentos históricos da época que sustentem essa afirmação. Não há cartas, contratos, registros teatrais ou depoimentos de contemporâneos ligando Bassano diretamente à autoria das peças conhecidas como obras de Shakespeare (HONAN, 1999; WELLS, 2006).

Por isso, especialistas em literatura renascentista e história do teatro inglês continuam defendendo a autoria tradicional de Shakespeare (BLOOM, 1998; GREENBLATT, 2012).

Os pesquisadores se baseiam em vários tipos de evidência: muitas peças foram publicadas ainda durante a vida de Shakespeare com seu nome impresso. Escritores de sua época, como Ben Jonson, mencionaram Shakespeare como dramaturgo. Existem documentos legais que mostram sua participação como ator e sócio em companhias de teatro importantes, como a King’s Men. Ele comprou propriedades e acumulou riqueza, o que indica sucesso profissional (HONAN, 1999; GREENBLATT, 2012).

Esses dados formam um conjunto sólido que liga Shakespeare diretamente às obras. Além de tudo isso, análises comparadas em estilometria comprovam que Shakespeare de fato escreveu seus textos (CRAIG; KINNEY, 2009).

A importância das provas históricas

Na pesquisa acadêmica, teorias precisam ser sustentadas por fontes confiáveis. Para que a hipótese envolvendo Emilia Bassano fosse levada a sério, seria necessário encontrar documentos claros da época mostrando que ela escreveu as peças e que Shakespeare apenas as publicou (WELLS, 2006).

Até hoje, essas provas não existem. Por isso, a maioria dos especialistas considera essa teoria especulativa, porque ela se baseia numa outra ficção sobre o assunto, escrita por outra feminista, Jodi Picoult.

Conclusão

A proposta apresentada por Irene Coslet não se ampara em evidências históricas sólidas, mas em ficção de autoras feministas que inventaram uma lorota literária dizendo absurdamente que Shakespeare "roubou e plagiou mulheres, sobretudo, uma mulher negra". Qual é o problema disso? O problema que isso tudo é uma fraude, uma difamação e uma calúnia baseada numa mentira/fake news/desinformação histórica. Usar de artifícios ideológicos, identitários em militância como motivação e justificativa para tentar reescrever a história de maneira fraudulenta é uma atitude criminosa e uma tremenda desonestidade intelectual, até mesmo, um crime contra a humanidade que deveria ser rigorosamente punido. E o pior de tudo é que isso ocorre dentro das Universidades, onde a busca da verdade através do rigor metodológico e, sobretudo, da honestidade intelectual deveriam ser inegociáveis. 


E. E-Kan


Referências:

BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

CRAIG, Hugh; KINNEY, Arthur F. (org.). Shakespeare, computers, and the mystery of authorship. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

GREENBLATT, Stephen. Will in the world: como Shakespeare se tornou Shakespeare. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

HONAN, Park. Shakespeare: uma vida. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

WELLS, Stanley. Shakespeare & Co. Oxford: Oxford University Press, 2006.

William Shakespeare actually a black woman? Feminist historian LSE graduate claims in new book — Daily Mail: https://www.dailymail.co.uk/news/article-15494859/William-Shakespeare-actually-black-woman-feminist-historian-LSE-graduate-claims-new-book.html

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